
O céu ficou negro. A tempestade era iminente. Ela apressou-se e andou o mais rápido que pôde. Conseguiu pegar o metrô antes dos pingos começarem a cair. Em sua estação destino, acelerou mais uma vez. Lembrou-se da faxineira. Precisava passar no mercado e comprar pão. O cheiro de chuva ficava mais e mais forte. Agora, ela quase corria. Não adiantou. Faltando um quarteirão para o mercado, o toró desabou. Parecia uma ducha com jato turbo-max. Estava tão perto que não compensava abrir o guarda-chuva. Ledo engano. Entrou ensopada no mercado, deixando um rastro por onde passou. Comprou os pães, o queijo, o presunto que a faxineira tanto gosta, o chá verde que ela mesma aprecia. Não conseguiu usar o dinheiro, que se desfazia dentro da carteira molhada. Pediu, sem graça, que a moça do caixa secasse seu cartão de débito, que pingava. Colocou as compras na sacola e esperou. E esperou. E esperou...Os raios e os trovões não cessavam. Sendo ela uma pessoa impaciente, cansou de esperar. Abriu o guarda-chuva só para proteger o pão, afinal ela parecia ter saído de uma piscina. Saiu, deixando para trás as pessoas mais pacientes que aguardavam uma trégua no dilúvio. “Só mais alguns quarteirões e já estarei em casa”, pensou. Entrou no saguão molhando tudo e formando poças enquanto esperava o elevador. Chegou em casa pegando a toalha e correndo para o banheiro. Despiu-se, jogando a roupa encharcada dentro do box. Abriu a torneira e só o que obteve foi o barulho do encanamento rangendo de tão seco...
“And isn't it ironic... don't you think?
A little too ironic… and yeah I really do think...”
Foto: Estadão