sábado, 5 de setembro de 2020

Leia o Livro, Veja o Filme: Tomates Verdes Fritos

  O LIVRO

Numa de suas visitas à Casa de Repouso Rose Terrace, Evelyn Couch, uma dona de casa insatisfeita que vive uma crise existencial e matrimonial, conhece a Sra. Ninny Threadgoode, uma velhinha simpática e ótima contadora de histórias. Na desconhecida, a senhora encontra uma agradável companhia para preencher seus finais de semana sem visitas, e com ela revive seus dias de juventude ao partilhar suas lembranças; na idosa, a mulher de meia-idade descobre uma ouvinte interessada e uma encorajadora incansável. Está formada uma dupla inusitada que dá origem a uma linda amizade.

A narrativa se divide em duas linhas temporais: a primeira nos anos 1980, o momento presente do livro, em que Evelyn e Ninny se encontram semanalmente na clínica e contam suas histórias uma à outra; e a segunda, que começa no início do século XX e se concentra principalmente na década de 1930. Em ambos os casos, a trama se desenrola no Alabama, então questões raciais são inevitáveis. E é daí que veio parte do incômodo que senti durante a leitura. 

A Sra. Threadgoode é uma personagem adorável, cheia de empatia com aqueles de sua época e também com a nova amiga. Mas de sua boca saem uns comentários racistas e gordofóbicos. Não senti que ela os fazia intencionalmente, para agredir, mas é aquele tipo de coisa que já está tão entranhada que a pessoa nem percebe. Sendo ela uma senhora de 80 anos, não é nenhum espanto esse comportamento, mas ainda assim foi desagradável vê-la se referir aos negros sempre como os outros, os diferentes, os excêntricos, quase alienígenas (ela menciona as superstições e os nomes e apelidos deles sempre com aquele tom de "coisas próprias de negros"). Mas, claro, é uma personagem branca dentro do contexto histórico do começo do século passado, e o romance foi escrito por uma mulher branca, então é essa a perspectiva. E é com aquele tom condescendente de avozinha que ela diz a Evelyn coisas do tipo "gordinhos são tão bem dispostos" ou "você tem um rosto tão bonito". Difícil lidar com isso, mas ao mesmo tempo a atitude torna a velhinha bem crível e realista.

A história também aborda um outro tema e, ao contrário do filme, de forma bem direta: a homossexualidade. O casal principal das histórias contadas por Ninny é formado pela impulsiva Idgie e pela meiga Ruth, as donas do Café da Parada do Apito, o mítico lugar onde foi criada a receita dos tais tomates verdes fritos que dá nome ao livro e ao filme. Foi uma surpresa dupla, para mim, perceber não só que elas eram um casal (porque o filme elimina quase totalmente isso da história), mas me dar conta de que todos aceitaram a relação das duas desde o início, da forma mais natural possível. Achei a abordagem muito interessante.

Por fim, temos Evelyn, a representação do papel da mulher na sociedade e de todos os quesitos de aceitação que oprimem esse sexo. A autora faz a personagem carregar todos esses fardos para ir trabalhando seu processo de transformação em uma mulher segura de si e independente. Evelyn começa a história descontando suas frustrações na comida e, com isso, ganha peso e se sente ainda mais infeliz. Não se sente amada pelo marido e, obviamente, acredita ser a causa de todos os problemas de seu casamento e faz de tudo para salvá-lo. Demora um bom tempo até perceber que não pode fazer nada se o marido não estiver disposto a colaborar. Além do excesso de peso, ela também sofre por estar entrando na menopausa. Está deprimida e tem pensamentos suicidas. Sem contar o fato de ser sexualmente reprimida e de tentar agradar todo mundo a qualquer custo. É muita coisa para processar. As conversas com Ninny a ajudam a recuperar sua autoestima e ela começa a trabalhar e a se sentir realizada. Mas, no final, mesmo sendo bem-sucedida, ela ainda vive a ditadura da magreza, segundo a qual nada parece importar se os dígitos da balança não estiverem dentro do esperado. E esse foi o segundo ponto que me decepcionou um pouco.

Em todo caso, é um livro delicioso e cheio de personagens marcantes. A autora consegue ir e voltar no tempo sem dificuldade e deixa isso bem claro para o leitor com as marcações no início de cada capítulo. As páginas finais trazem algumas receitas do Café da Parada do Apito. E a amizade de Evelyn e Ninny é realmente bonita e mostra como, às vezes, só o que precisamos é de alguém que nos ouça e divida conosco uma barra de chocolate.

“Por fim acontecera. Mas ela continuava viva. Então começou a se questionar. Foi como se o ato de violência daquele rapaz a obrigasse a olhar para si mesma e fazer perguntas que tanto evitara por medo das respostas. O que seria esse poder, essa insidiosa ameaça, essa arma invisível sobre sua cabeça que controlava sua vida... esse pavor de ser chamada de palavrões? Permanecera virgem para não ser chamada de galinha ou vagabunda; casara-se para que não a chamassem de velha solteirona; fingira orgasmos para não ouvir que era frígida; tivera filhos para que não a chamassem de estéril; não fora feminista para não ser tida como sapatão que não gostava de homens; nunca falou em voz alta ou perdeu a linha para que não fosse chamada de puta... Fizera tudo isso e ainda assim um estranho a arrastara ao esgoto com palavrões que os homens usam contra as mulheres quando estão zangados.”

Esta foi mais uma leitura compartilhada que fiz com a Lulu (vejam a resenha dela AQUI). Muito obrigada, amiga, mais uma vez pela infinita paciência com meus adiamentos. Que nossos próximos posts atrasem menos!

 Nota: 4,0/5,0

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O FILME 

Sobre o filme, revi recentemente e continuo gostando bastante. Vi pela primeira vez nos anos 1990, em algum canal de TV aberta, e lembro que tanto as conversas das amigas na casa de repouso quanto as aventuras de Idgie – que é retratada na tela apenas como uma moleca que, anos mais tarde, acaba administrando o café com a amiga – haviam me agradado muito.

Engraçado que no livro Ruth é uns anos mais velha que Idgie (uma tem uns 21-22 anos e a outra 16), mas no filme a diferença de idade parece menor. Enfim, acho que a dupla funciona bem.

E Kathy Bates está maravilhosa, como sempre. Era só dela e da senhora que eu lembrava até rever a adaptação.

Eu só gostaria que o relacionamento de Idgie e Ruth tivesse sido mostrado com menos sutileza. Mas é claro que o dinheiro falou mais alto e acharam melhor deixar o assunto de fora para não prejudicar a bilheteria. Afinal, é um filme dos anos 1990. Se ainda hoje as pessoas se sentem ofendidas com o amor entre duas pessoas do mesmo sexo, 30 anos atrás era ainda pior. Mas é um filme bonito, com momentos engraçados, tristes e de ação. Vale muito a pena.

Nota: 4,0/5,0 

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Dose Dupla: Canção de Ninar / No Jardim do Ogro



Leïla Slimani foi uma das convidadas da FLIP em 2018. Como eu já considerava participar do evento e estava curiosa para ler “Canção de ninar”, seu primeiro livro lançado em terras brasileiras, corri para lê-lo. E fui arrebatada pela escrita afiada e precisa da autora franco-marroquina. Ano passado, a Tusquets lançou por aqui “No jardim do ogro”, o romance de estreia da escritora. Há alguns dias terminei de ler essa incrível história e, ainda impactada pela experiência, decidi resgatar minhas anotações de leitura do primeiro título e fazer um post de minhas impressões sobre os dois trabalhos da Leïla.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Série: Anos Incríveis



Tenho o hábito de assistir a séries cômicas na minha hora do almoço, já que os episódios geralmente têm pouco mais de 20 minutos. O problema é que já vi muita coisa e sou meio chata para escolher. No começo da quarentena, eu já havia assistido tudo que me interessava e comecei a ficar meio desesperada. Fui no embalo da galera que estava (re)vendo “The Office” e revi o programa todo (na verdade, eu não tinha visto as 2 últimas temporadas, mas agora vi e gostei muito – o final foi emocionante). Só que isso que me fez voltar ao dilema: “O que assisto agora?”

sábado, 4 de julho de 2020

Desafio Mulheres na Direção


Este é o quinto ano consecutivo em que participo do #52FilmsByWomen (que aqui no blog também usa as hashtags #52FilmesPorMulheres e #VejaMaisMulheres). Apesar de não ter conseguido registrar aqui os filmes que vi no ano passado e os que estou vendo este ano, sigo firme no projeto. Em 2016 assisti a 52 filmes, em 2017 a 52, em 2018 a 68, em 2019 a 64 e em 2020 vi 38 filmes até o momento. Minha meta é chegar a 70 este ano. Eis que minha xará Michelle, do blog Cine Varda, propôs o desafio Mulheres na Direção para dar um gás nessa lista e focar mais nas produções dirigidas por mulheres em junho. Ela falou da experiência dela aqui. E não é que até me animei a falar da minha?


sábado, 20 de junho de 2020

Resenha: A Trégua



“Ela me dava a mão e eu não precisava de mais nada. Bastava isso para que eu me sentisse bem acolhido. Mais do que beijá-la, mais do que nos deitarmos juntos, mais do que qualquer outra coisa, ela me dava a mão, e isso era amor.”

sábado, 28 de março de 2020

Resenha: MaddAddão



E quase um ano depois do último post, estou aqui novamente, só para deixar registrados alguns pontos que me chamaram a atenção durante a leitura de “MaddAddão”, terceiro e último volume da série iniciada com “Oryx e Crake” e que tem como segunda parte “O ano do dilúvio”, livros que li junto com a Lulu para o nosso projeto Lendo Margaret Atwood. Enfim... li a última parte da trilogia em agosto de 2019, mas muitas coisas me impediram de fazer uma resenha. Já nem lembro dos detalhes da história, então vou só apontar alguns assuntos abordados em alguns trechos que destaquei enquanto lia.

sábado, 20 de abril de 2019

Resenha: As Meninas



São Paulo, anos 70. Num pensionato para moças, três universitárias tão díspares quanto possível narram suas venturas e desventuras amorosas, sexuais e políticas, entrelaçando suas vozes e compondo um retrato da sociedade brasileira da época. Publicado em 1973, no auge da ditadura militar, o romance usa forma e estilo apurados para contar uma história simples e envolver o leitor na vida dessas garotas. O texto é importante não só por ser um registro ficcional de um período histórico, mas também porque reproduz em seus personagens comportamentos e mentalidades que nos moldaram de alguma maneira e que pautam as relações interpessoais neste país ainda nos dias de hoje.