terça-feira, 31 de março de 2015

Resenha: A Redoma de Vidro


Esther Greenwood parecia estar vivendo o sonho de toda garota: havia entrado em uma renomada universidade para moças, fora aceita em um disputado programa de estágio que levava alunas selecionadas para passar um verão em Nova York, onde as meninas aprendiam um pouco mais sobre o universo de uma revista feminina e participavam da agitada noite da metrópole. Mas de estudante com um futuro profissional promissor a depressiva com ideias suicidas é um passo. O que teria dado errado?

“A Redoma de Vidro” é um daqueles livros de que todo mundo já ouviu falar, envolto em uma aura de clássico/cult que às vezes acaba afugentando possíveis leitores. Eu, pelo menos, evitei durante muito tempo a leitura, porque diziam ser pesada ao extremo, porque tinha a ver com o mito Sylvia Plath, porque há muito da história real da escritora nessa sua ficção. Eis que agora em março o título foi escolhido para inaugurar o clube #LeiaMulheres. Decidi que era hora de deixar o receio de lado e encarar a história.

Confesso que o início da narrativa foi bem diferente do que eu havia imaginado. Depois de tanto ouvir que era uma história depressiva e sombria, eu esperava encontrar tragédias logo de cara. Não foi nada disso. Os capítulos iniciais, que se passam em Nova York, durante o estágio de verão de Esther, são bem agitados, com festas e eventos o tempo todo. A protagonista tem um senso de humor peculiar e faz comentários ácidos sobre tudo, julgando sem dó a futilidade daquele universo glamoroso de desfiles de moda, sessões de foto, dicas de cabelo e maquiagem e brindes de patrocinadores.

Na verdade, em certos momentos, achei que Esther fosse a versão feminina do Holden Caulfield, de “O Apanhador no Campo de Centeio”: uma jovem entediada que critica todos a sua volta, que tem várias oportunidades diante de si, mas não escolhe nada, uma garota que quer ser diferente de tudo o que conhece, mas não toma nenhuma atitude para isso. Tirando o fato de Holden ser de família rica, o resto era bem semelhante. Aliás, o dinheiro é uma diferença importante entre eles, pois ele podia se dar ao luxo de vagabundear pelo mundo com um futuro garantido; ela precisava de uma profissão para se sustentar ou, pelo menos, de um bom marido. E é aí que comecei a notar as nuances da trama.

Quando o estágio termina, Esther volta para casa e fica sabendo que não fora aceita em um curso de escrita, que é o que de fato queria fazer. Decepcionada, passa uns dias largada. Até aí, normal. Só que a tristeza da rejeição se une à falta de perspectiva, à pressão da mãe que queria que ela fizesse um curso técnico para poder trabalhar logo, a frustração amorosa, a constatação de que sua profissão não teria importância nenhuma, pois seu destino provavelmente seria casar, botar filhos no mundo e cuidar da casa. Essas coisas são motivo para depressão? Talvez para mim e para você, não, mas no caso de Esther formaram uma mistura explosiva. Como alguém comentou na discussão do #LeiaMulheres, os sinais da doença já estavam ali desde o período em Nova York, mas foram facilmente confundidos com preguiça, tédio e reclamações de adolescente.

E é justamente esse o ponto forte do livro. Não conseguimos definir com exatidão o momento em que o desânimo da protagonista deixa de ser normal e começa a se transformar em condição psiquiátrica. Assim como na vida real, a depressão é uma doença traiçoeira que se infiltra discretamente e arrasa com a vida de seu portador e também daqueles que o cercam. Só sei que em um momento o leitor está ali com a protagonista, enchendo a cara em baladas nova-iorquinas, e no seguinte está largado com ela no sofá, sem comer e sem tomar banho há semanas. E é só piscar e já está levando choques com Esther no hospital psiquiátrico. Assustador.

Embora o assunto do livro seja delicado e pesado, a leitura fluiu sem problema. A escrita da autora é simples e envolvente e, como eu disse, nos coloca bem ao lado da personagem principal, o que nos faz viver os altos e baixos de seu humor, suas angústias e medos, e nos faz refletir sobre o que mudou desde a época retratada na história (anos 50) e os dias de hoje com relação às expectativas femininas quanto a trabalho, sexo e comportamento social, bem como com relação à doença em si e como é abordada.

"Acontece que eu não estava conduzindo nada, nem a mim mesma. Eu só pulava do meu hotel para o trabalho e para as festas, e das festas para o hotel e então de volta ao trabalho, como um bonde entorpecido. Imagino que eu deveria estar entusiasmada como a maioria das outras garotas, mas eu não conseguia me comover com nada. (Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que o olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.)"


Uma ótima leitura que passei tempos evitando por pura bobagem. Leiam que vale a pena!

Este post faz parte do Desafio Literário Skoob 2015 - Mês de Março: Autoras com 'A' Maiúsculo (em comemoração ao mês das mulheres). Para ver a apresentação do desafio, minha lista de obras selecionadas e outros posts do DLSkoob2015, clique AQUI.


Este livro faz parte do "Desafio Mulheres e Páginas", criado pelo blog "Elas Leram". O objetivo é ler 1 livro escrito por mulher a cada bimestre, de acordo com os temas. O tema de março/abril é Escritoras Clássicas. Queria ler algo da Sylvia Plath fazia tempo. Que bom que esse livro foi escolhido para o clube de março!

Um comentário:

Lígia disse...

Adoro esse livro! Também achei o início do livro diferente do esperado. Vi tanta gente dizendo que o livro era super depressivo que me surpreendi com a primeira parte mais divertida.