domingo, 5 de fevereiro de 2017

Oscar 2017: Seleção 1 - Diversas Categorias

Olá!

Para quem ainda não viu, comecei uma série de postagens sobre os indicados ao Oscar 2017. Já fiz post especial com dois filmes dirigidos por mulheres (Toni Erdmann/ A 13ª Emenda) e hoje falarei de mais 5 produções de diversas categorias. Vamos lá?

O lagosta (The lobster – Yorgos Lanthimos, 2015) [Grécia]
Nesta distopia, homens e mulheres não podem permanecer solteiros. Assim que se veem nessa condição, são enviados a um hotel, onde deverão encontrar o parceiro ideal em 45 dias, ou se transformarão em um animal à sua escolha e serão soltos na floresta, para serem caçados. Tudo nesse filme causa estranhamento, e imagino que tenha sido essa a intenção. Em uma crítica à pressão da sociedade para que encontremos ‘a metade da laranja’, o filme mostra o quão absurda é a forma como relacionamentos são construídos (impostos, na verdade), usando parâmetros rasos de compatibilidade, encenando no palco (com uma sensação incômoda e de vergonha alheira) situações trágicas às quais solteiros seriam expostos e como tudo fica melhor com um companheiro. Aqueles que não se sujeitam às regras de pareamento e que querem fugir ao destino de se transformar em um animal acabam se refugiando na mata, onde vivem como rebeldes, em constante estado de alerta. Só que o grupo de resistência também impõe regras, algumas delas tão rígidas e sem sentido quanto aquelas da sociedade civilizada. A questão (questões, na verdade) que fica é: será possível fazer o que queremos de fato? O que une uma pessoa a outra? O que é um par ideal? Os sentimentos contam? Até onde uma pessoa estaria disposta a se arriscar por aquela que ama? Muitos questionamentos em uma história que incomoda, mas envolve plenamente. Um dos meus favoritos.
Nota: 4/5
[Indicado ao Oscar 2017 na categoria Melhor Roteiro Original]

Capitão Fantástico (Captain Fantastic – Matt Ross, 2016) [Estados Unidos]
Ben vive com os seis filhos em isolamento voluntário no meio da floresta. Lá, todos se exercitam, estudam, realizam tarefas, aprendem a ter independência e a sobreviver com o que a natureza dá. Essa é criação que Ben e a esposa escolheram para as crianças e tudo parece funcionar perfeitamente, até que a morte da mãe obriga a família a enfrentar a civilização. Embora os filhos de Ben sejam totalmente hábeis em se virar em um ambiente selvagem que faria a maioria dos habitantes das cidades se sentir intimidada e chorar, eles não sabem como agir em sociedade e, portanto, são discriminados. O contraponto perfeito desse estilo de vida mais orgânico é feito pela família da irmã de Ben e seus filhos consumistas, que têm um nível educacional medíocre e são viciados em games violentos, bem como pela família da falecida esposa de Ben, pessoas com dinheiro e uma visão tradicionalista. O interessante é que Ben realmente acredita que está fazendo o melhor para os filhos ao afastá-los de um mundo com valores deturpados, mas não percebe o quanto isso acaba prejudicando as crianças. Por outro lado, o avô dos meninos também tem sua visão do que seria uma criação ideal dos netos, mas também se excede. Ambos optam por métodos extremos, que se revelam insustentáveis. O bacana é que eles conseguem chegar a um equilíbrio tendo em vista os interesses dos jovens, independente do que consideram melhor para si mesmos. Muito bonito. Viggo Mortensen dá um show.
Nota: 4/5
[Indicado ao Oscar 2017 na categoria Melhor Ator]

Um homem chamado Ove (En man som heter Ove – Hannes Holm, 2016) [Suécia]
Ove é um sujeito de outra época, quando as coisas eram menos tecnológicas e mais simples. Com o passar do tempo, ele foi ficando cada vez mais rabugento com a incompetência das outras pessoas e, depois que sua esposa morre, sua sensação de não-pertencimento aumenta a ponto de fazê-lo achar que a única saída para ele é a morte. Então ele tenta se matar. Várias vezes. Mas sempre algum de seus incompetentes vizinhos o atrapalha. Quando uma família nova chega ao condomínio, Ove começa a passar mais tempo com eles (a contragosto, é claro) e, quando percebe, já está envolvido na vida da estrangeira Pavaneh e seus filhos. Sua rabugisse continua, mas passamos a conhecer o passado de Ove e a ver o seu enorme coração. O filme é adaptação do livro de mesmo nome, de Frederik Backman, e uma daquelas histórias que fazem rir e chorar e aquecem o coração. Recomendo.
Nota: 3,5/5
[Indicado ao Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro]

Jackie (Jackie – Pablo Larraín, 2016) [Chile]
A cinebiografia intercala trechos da entrevista da ex-primeira-dama americana, concedida poucos dias após o assassinato do marido, com momentos em que ela guia a equipe de filmagem por um tour pela Casa Branca na ocasião da posse de Kennedy, e ainda inclui sua confissão a um padre minutos antes do enterro do esposo. O ponto forte do filme é retratar as várias facetas de Jackie: a nova primeira-dama encarregada de entreter e apoiar vs a esposa e mãe; a figura pública e ícone vs a mulher simples que não queria fama mas se vê no olho do furacão. E tudo isso visto pela ótica da própria Jackie em um momento de dor. Se lidar com a morte de um ente querido já é complicada para pessoas anônimas, imaginem para quem está sendo observado e julgado o tempo todo, por milhões de pessoas. John Kennedy acaba de ser baleado e cai ensanguentado nos braços de Jackie, que precisa pensar em como agir diante das câmeras (não pode se acabar em lágrimas, mas também não pode parecer fria); ela tem que tomar decisões sobre o funeral (mais íntimo ou mais pomposo) e pensar nos filhos e na segurança; enquanto lida com todas essas questões dilacerantes, suas coisas estão sendo empacotadas e despachadas, e um novo presidente está se mudando para a casa que fora seu lar até ali e já pensando em mudar a decoração. A imagem de Jackie vagando pelos cômodos, perdida, solitária é tristíssima. Mesmo quando está cercada por uma multidão, ela está sempre sozinha. Outro ponto positivo do filme é a tal entrevista com o jornalista. Cada fala é carregada de tensão, afiada. Gostei muito do filme.
Nota: 3,5/5
[Indicado ao Oscar 2017 na categoria Melhor Atriz]

Elle (Elle – Paul Verhoeven, 2016) [Holanda]
Michéle é a criadora de uma importante empresa de jogos para videogames. Seu jeito agressivo de conduzir os negócios e sua falta de tato com as pessoas não fazem dela uma pessoa bem-quista. Um dia ela é brutalmente atacada em sua própria casa. Mas age de forma absurda e equivocada, como se nada tivesse acontecido. Só que ela continua sendo alvo do agressor, e contra qualquer lógica existente na Terra, estabelece um jogo fatal com ele.
O que dizer desse filme? Um ‘Supercine’ dos piores. Não basta a superexploração da cena do estupro da protagonista (vista repetidamente, mas sempre de fora, nunca do ângulo dela), a questão é tratada de um modo totalmente inverossímil. Se Michèle não quisesse tocar no assunto, não dar queixa à polícia e fingir que nada aconteceu, tudo isso seria compreensível. Passar por uma violência dessas não deve ser nada fácil e deve gerar um sentimento de culpa, de medo, de vergonha enorme. Só que ela simplesmente não finge que não aconteceu para se proteger. Ela age como se realmente nada tivesse acontecido. Assim que o agressor vai embora, ela toma um banho e liga para pedir comida e receber a visita do filho. Algo supersimples e corriqueiro. E a forma como ela decide contar, depois, o que aconteceu com ela? Do nada, ela marca um jantar com amigos e, em meio ao zumzumzum de um restaurante, solta um 'Ah... não sei como falar. Mas fui estuprada'. Assim, como se dissesse "Ah, esqueci de dizer, mas topei na mesinha de centro e arranquei a unha do dedão". Desculpe, mas isso não é plausível. Há toda uma pseudoexplicação do passado perturbado de Michèle para tentar dar sentido ao comportamento dela, mas não colou. E ainda tem a identidade do agressor, óbvia desde o primeiro momento em que ele aparece na tela sem a máscara. Só dá para salvar a atuação da Isabelle Huppert mesmo. A nota é totalmente pelo trabalho dela. E só.
Nota: 2/5
[Indicado ao Oscar 2017 na categoria Melhor Atriz]


2 comentários:

Lígia Barros disse...

Ainda não vi nenhum dos filmes indicados ao Oscar e provavelmente não verei tão cedo :(
"O lagosta" parece ser sensacional. Gosto das ideias loucas do diretor.
Também quero muito ver "Capitão Fantástico" e fiquei bem curiosa agora que você falou mal de "Elle".

Michelle disse...

O Lagosta é doido e maravilhoso. Capitão Fantástico é uma história sensível. E Elle... preferia que nunca tivesse sido feito...hahaha