segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Resenha: A Desintegração da Morte (Orígenes Lessa)

O que seria da vida se não existisse a morte?
É esse o ponto de partida do livro “A Desintegração da Morte”.

Na história, um cientista consegue fazer com que a morte desapareça da face da Terra. No começo, a população considera o sumiço da morte uma benção. Os povos saem às ruas comemorando o fim desse temor. Logo, três dos principais ramos de negócios vão à falência: os cemitérios e casas funerárias, as empresas farmacêuticas e hospitais e a indústria bélica. Afinal, ninguém morre nem precisa de cura ou de guerra...

No entanto, em pouco tempo é feita uma constatação cruel: as pessoas podem não morrer, mas sentem fome e dor. Com isso, o que era motivo de alegria passa a trazer novos problemas. Assim, a indústria farmacêutica recupera sua importância, a indústria bélica se transforma em indústria alimentícia e as casas funerárias passam a oferecer caixões confortáveis onde se pode descansar e ficar entorpecido com soníferos.

"Pouco a pouco o que a humanidade mais desejava era o sono, imitação pálida da morte."
(página 81)

O interessante desse livro é observar como o comportamento humano se adapta e como as grandes indústrias que guiam nossa vida jamais deixam de existir, apenas se transformam. Por exemplo, considerando que ninguém mais morre, as indústrias produtoras de material bélico não veem utilidade em continuar produzindo armas e passam a produzir alimentos, agora um ramo muito mais lucrativo. Todavia, quando se achava que as guerras finalmente teriam fim, elas voltam com força total, pois com uma população que não para de crescer e que não morre nunca, espaços para plantio são muito disputados. E, embora não morram, as pessoas atingidas por balas e bombas continuam vivendo aos pedaços, como zumbis. E como alimentar todo esse mar de gente? Capturando outras pessoas para que trabalhem em campos de concentração... Ou seja, as mazelas que conhecemos continuam, apenas ajustadas a uma nova necessidade.

Outro ponto relevante é a religião. Embora cada religião tenha suas particularidades, é consenso a ideia de vida após a morte. Como ninguém morre, as igrejas perdem seu poder sobre a massa e praticamente entram em extinção. Mas então alguém se dá conta de oferecer a salvação com uma nova roupagem: a morte. Se antes todos viviam de modo a garantir a vida eterna, agora as pessoas são guiadas por preceitos que visam alcançar a tão sonhada morte.

O que fica disso tudo?
Para mim, a história mostra que tudo é cíclico e que a humanidade tem um senso destrutivo aguçado. Achei bem intrigante e recomendo!

2 comentários:

Maxwell Soares disse...

Parabéns pelo blogger. Aqui há de tudo um pouco. Livros, músicas, filmes. Bom gosto esse o seu. Ao ver o autor lembrei-me de um livro dele que li quando tinha 15 anos - "Napoleão em Parada de Lucas". Um abraço...

zé valteno disse...

Muito interessante! Sobremaneira educativo o material deste espaço. Valeuu demais...