sexta-feira, 15 de maio de 2015

Resenha: Para Cima e Não Para Norte


O narrador e protagonista do livro é o Homem Plano, que vive dentro dos livros e é apaixonado por histórias do James Bond. Um dia, ele descobre uma impressão digital em uma página e vai investigar o que seria aquilo. Essa descoberta o leva a uma outra, ainda mais intrigante: existe um mundo em três dimensões fora dos livros. Então, ele decide que quer sair do papel para ver como são as coisas em 3D.

Embora não tenha sido a primeira a pensar em como seria um mundo bidimensional (a própria autora cita suas referências logo no início do livro), a ideia não deixa de ser interessante e é muito bem explorada em “Para Cima e Não Para Norte”. Ao longo das três partes do livro (primeiro conhecemos o Mundo Plano, depois somos transportados para o teatro e, por fim, acompanhamos as notícias do Homem Plano e seus feitos nos telejornais), vivemos diversas aventuras com o protagonista e aprendemos a ver as coisas de uma perspectiva diferente.

O Homem Plano nos explica como é viver dentro de um livro, deslizando pelas letras, saltando espaços, sendo arremessado quando as páginas são viradas, ficando no escuro quando o exemplar é fechado. Aquilo tudo para ele era normal. Estranho mesmo foi descobrir a tal impressão digital (que achou que era uma letra esquisita) e ficar sabendo que havia um universo todo fora das páginas impressas – e mais! – em três dimensões. Era algo inimaginável. O Homem Plano insistiu tanto nas suas teorias que acabou preso e teve que se contentar em deslizar pelas letras de folhas jogadas na lixeira. No entanto, em vez de desanimar, isso acabou lhe dando mais ânimo para comprovar que estava certo. Obteve êxito em sua empreitada, mas, como sempre, as coisas não saíram exatamente como ele havia imaginado, e o coitado se vê metido em enrascadas também no nosso mundo (o Mundo Espacial).

Além da própria ideia peculiar de um universo em duas dimensões, o grande diferencial do livro é o trabalho gráfico. Contando com ilustrações e os mais variados tipos e tamanhos de fonte, a autora nos transporta para dentro do livro, e somos realmente capazes de ver as coisas pelos olhos do Homem Plano.


Na verdade, a saga pitoresca desse personagem ficcional nos leva a reflexões sobre como enxergamos as coisas; em como o aprendizado nos acrescenta uma terceira dimensão; em como aqueles que ousam ver além da superfície são tratados como loucos, perseguidos e punidos; em como o governo e mídia escondem e manipulam informações; em como a fama é fugaz e ilusória; em como as opiniões mudam rapidamente.

Enfim... achei o livro muito interessante e agradável de ler. Só tive certa dificuldade na parte do teatro, quando a poesia domina (é, tenho certos problemas com poesia), mas, felizmente, foi a parte mais curta do livro. No geral, foi uma leitura fácil e rápida.

“Eu sou um Homem bidimensional que descobre que lhe falta uma dimensão,
e tu és um Homem do Espaço, um homem com mais uma dimensão.
Todos os dias parto para o teu mundo para te contar a minha história,
e todos os dias regresso, certo de não me teres lido.
Eu penso, eu sinto, eu até me revolto, mas eu não existo!
Até que um dia, depois de muitas noites, decido ficar para sempre no Mundo Espacial, deixando para sempre a minha existência plana.
Agarro na minha última mala cheia de letras e atiro-me.
Espalho-me pelo Universo.”


Um daqueles livros que devem ser lidos no formato impresso. Faz toda diferença. Indico para quem procura uma história incomum e divertida.

Este post faz parte do Desafio Literário Skoob 2015 - Mês de Maio: Livros originalmente escritos em português. Para ver a apresentação do desafio, minha lista de obras selecionadas e outros posts do DLSkoob2015, clique AQUI. 



Este livro faz parte do "Desafio Mulheres e Páginas", criado pelo blog "Elas Leram". O objetivo é ler 1 livro escrito por mulher a cada bimestre, de acordo com os temas. O tema de maio/junho é Polivalentes (mulheres que têm outra profissão além de escritora). Escolhi Patrícia Portela, escritora portuguesa que também é encenadora, dramaturga, cenógrafa e atriz. É pouco ou quer mais?

4 comentários:

Claudia Leonardi disse...

Como sempre adorei a resenha.
Bom, o livro ja esta aqui e vou passá-lo na frente da fila...rs
Depois te conto o que achei
Mais uma vez obrigada pelo carinho
Bjks mil

Ana Leonilia disse...

Gente, que livro inusitado! Nunca pensei que existisse uma obra assim, que mostrasse um personagem vivendo dentro de um livro e ainda com tantas ilustrações.

Achei interessante a proposta abordada. Fiquei refletindo com a resenha, pois os livros nos proporcionam mesmo uma nova visão do mundo e do imaginário. Conhecimento abre a mente e nos leva a outros horizontes, né?

Gostei da dica!

Bjs ;)

Eliana Lee disse...

Sensacional!!!

Eu já tinha visto o video resenha da Tatiana Feltrin sobre esse livro mas não tinha sequer me dado conta de sua autoria ou me ligado muito na história. Me pareceu instigante e divertido, e eu preciso confessar que adoro quando a diagramação é parte importante da história. Fiquei com vontade de ler.

Luana Lima disse...

Oi Mi,
Que livro interessante.Você e suas leituras diferentes,rs.
A temática do livro para mim é algo muito original visto que nunca li algo sobre o assunto ou desse tipo.
Entrará na lista de compras.
Adorei a dica.
bjs
Luana