quinta-feira, 7 de maio de 2015

Resenha: Stoner


William Stoner era filho de agricultores e provavelmente seguiria os passos de seu pai, cuidando da terra até a morte. É seu próprio pai que, com esforço, o envia para estudar agronomia na universidade, para que pudesse, pelo menos, aprender novas técnicas de cultivo e administração. No entanto, Stoner se apaixona por uma das matérias secundárias, literatura, e acaba trocando de curso. O que acompanhamos então são os altos e baixos, os pequenos prazeres e as grandes frustrações de um homem comum ao longo de sua vida.

A sinopse de “Stoner” não deixa dúvidas: é uma história simples de um cara ordinário, sem grandes acontecimentos, reviravoltas ou surpresas. E foi exatamente isso que encontrei na leitura. Durante as várias páginas do livro, vivenciei as experiências daquele homem que começa a trama ainda jovem, se encanta pelas letras, se enamora por uma garota e se casa com ela e, mais adiante, eles têm uma filha. Além da vida familiar, que logo se mostra muito conturbada, Stoner não tem outros interesses a não ser seu trabalho de professor na universidade. É um sujeito sem amigos, sem ambição, sem grandes arroubos emotivos.

O grande trunfo do livro é também seu maior problema: uma escrita simples e direta que narra o cotidiano totalmente sem graça de uma pessoa comum. Se, por um lado, ocorre certa identificação com a rotina e com os pequenos problemas que enfrentamos em nossa própria vida (pelo menos alguns deles em determinados momentos), por outro, a calmaria e a ausência de expectativa e de novidades exige certo esforço para chegar à última página.

Mesmo sabendo que não haveria muita ação em “Stoner”, confesso que me decepcionei um pouco. Eu já esperava uma história parada, mas a falta de atitude do protagonista começou a me irritar em certa altura. Ele é um cara que nunca se impõe, nem mesmo toma decisões sobre seu próprio destino: foi para a universidade porque o pai mandou, trocou de curso por indicação do professor, começou a dar aulas porque havia falta de professores na faculdade durante a guerra, aceitou horários de aula e títulos porque lhe foram impostos; a esposa (que, sim, foi uma das poucas coisas que ele escolheu, embora precipitadamente) tocava o terror em casa e envenenou a relação dele com a filha; enfim... passividade total. Até entendo que, na vida real, às vezes acabamos agindo por inércia, como ele, mas isso me cansou. Talvez eu prefira na ficção personagens que não sejam tão reais.

Outra coisa frustrante foi que minha ligação com Stoner por meio do amor à literatura não foi tão forte como imaginei que seria. Eu já tinha ouvido tantos elogios à história do cara que larga tudo por causa de sua paixão pelos livros que achei que, pelo menos nesse quesito, ele demonstrasse mais emoção. Mas não, não foi bem assim. Foi tudo meio morno para mim.

No entanto, não dá para negar que o autor consegue criar um personagem constante (em sua apatia, mas tudo bem), além de apresentar pequenos sopros de comportamento moderno em uma época mais tradicional (a trama se desenrola entre os anos 20 e 50): Stoner cuida da filha sozinho quando a esposa se recusa a fazê-lo, e até mesmo o ato de seus pais (gente simples) o mandarem para a faculdade.

Embora não tenha sido bem como eu havia imaginado, gostei da história, principalmente como nos faz pensar em nossa própria vida e nas escolhas que fazemos (ou deixamos de fazer).

5 comentários:

Aline Aimée disse...

Primeira resenha com críticas consideráveis ao romance.
Confesso que estou dando uma enrolada na leitura para não me deixar influenciar, mas me deu certo alívio essa quebra na unanimidade das recepções.
Ótima resenha, como sempre.

Beijo!

Ana Leonilia disse...

Oi, Michelle! :)

Vixe, personagens passivos também não tendem a me agradar. Você passa um tempo enorme esperando alguma atitude, uma decisão ou mesmo um impulso, mas nada acontece. O personagem simplesmente se deixa levar pelos outros... Isso aconteceu quando li "O Pintassilgo". O protonista não tinha nenhuma ação.

Mas até que "Stoner" tem um enredo interessante. Gosto de temas cotidianos, apesar de achar que a narrativa me incomodaria. Mesmo assim eu leria.

Bjs ;)

Eduarda Sampaio disse...

Todo mundo está lendo esse livro e elogiando. Minha curiosidade só aumenta. Até agora só vi uma pessoa que não gostou da leitura: a Tatiana Feltrin.
Beijo! ^_^

Lígia disse...

Gostei da sua resenha. Até agora, todas as resenhas que li sobre o livro foram muito elogiosas, então foi bom ler a sua para baixar um pouco as expectativas. :)

Eduarda Sampaio disse...

Voltei! ^_^
Antes eu tinha lido a resenha pulando algumas partes por medo dos spoilers (sim, sou dessas), mas agora que li Stoner posso comentar melhor.
A passividade do Stoner também me deu raiva em muitos momentos, mas no final do livro eu fiz as pazes com ele. Para mim esse grande defeito de personalidade é uma das coisas que torna ele tão real. Eu percebi que o defeito era grave quando ele constatou que a filha era alcoólatra e simplesmente pensou "fico feliz por ela ter a bebida" =/
Com relação à relação dele com literatura, eu não tinha expectativa nenhuma, então não me decepcionei. Aliás, acho importante ler Stoner sem expectativas, já que é um livro sem reviravoltas.
Engraçado que o que me fez tirar uma estrela de Stoner parece não ter te incomodado. Eu fiquei meio decepcionada com os antagonistas (Edith e Lorax). Eu fiquei o livro todo tentando entender as motivações dele e no final a explicação não veio. Ficou o mistério.
Enfim, é isso.
Beijo!