terça-feira, 16 de junho de 2015

Leia o Livro, Veja o Filme: The Birds/ Os Pássaros

LIVRO: The Birds

Nat Hocken é um ex-veterano de guerra com sequelas físicas que agora trabalha em uma fazenda executando atividades leves. Ele mora com a esposa e dois filhos pequenos em um chalé no terreno de seu empregador. De hábitos solitários e natureza contemplativa, ele está sempre de olho no que acontece ao seu redor, especialmente agora, no outono, quando se entrega à observação dos pássaros que migram para escapar do inverno. Nat sabe que a migração outonal é diferente da que ocorre na primavera; é mais agitada, barulhenta, tensa. Mesmo assim, este ano parece que as aves estão agindo de um jeito estranho...

Quem já viu “Os Pássaros”, do Hitchcock, deve estar achando essa introdução meio diferente. Eu estranhei quando comecei a ler, mas, agora que já sei que o diretor usa as histórias como uma ‘leve inspiração’ para seus filmes, nem encano muito, e me preparo para conhecer uma trama completamente distinta. E é exatamente o que temos em “The Birds”, o conto escrito por Daphne du Maurier.

Ao contrário da loira platinada que estrela a adaptação nas telas, o protagonista do livro é um homem comum, que aprecia as coisas simples da vida, que gosta de observar a natureza, e é por isso que logo nota que os pássaros estão inquietos, como se estivessem com uma fome constante, embora não comam, se unindo em formações peculiares, criando ligações entre espécies que geralmente não andam juntas. Eles apenas alternam momentos de agitação com outros de espera infinita. Mas eles não deveriam estar voando para longe antes da chegada do frio?

Os bandos de pássaros começam a se amontoar nas árvores, nos telhados, nas cercas. Nat vai ficando cada vez mais incomodado e apreensivo com esse comportamento incomum, mas não sabe o motivo. E então as aves começam a atacar as pessoas e a invadir as casas. Um relato aqui, outro ali... o que estaria levando os animais a agirem assim? Seria fome? Frio? Não importa. Os ataques eram reais e mortais e orquestrados por centenas, milhares de aves! Eles se jogavam contra portas e janelas, muitas vezes morrendo no choque, mas logo atrás deles vinham outros, e mais outros, e as madeiras e vidros enfim cediam, permitindo a entrada dos invasores.

É lógico que, no início, ninguém dá importância para alguns casos isolados. Nat, tendo resistido à invasão de sua própria casa e lutado incansavelmente contra as aves que avançavam com bicos e garras contra seus filhos, vai correndo avisar aos patrões para se protegerem, mas, toda a história parecia absurda demais para ser verdade. Resultado: quando Nat volta à casa principal no dia seguinte, encontra apenas destruição e corpos despedaçados.

A vantagem (se é que se pode usar essa palavra nessa situação) de Nat em relação aos outros moradores é que ele é um cara vivido, que sabe como os diferentes pássaros se comportam, e, além disso, tem conhecimento militar. Não demora muito para ele perceber que os ataques seguem determinados padrões, e que os bandos agem em uma escalada de potência. Ele aproveita os intervalos de calmaria para reforçar as portas e janelas de sua casa, para sair em busca de comida e outros itens de sobrevivência, e, durante as angustiantes horas dos ataques, apenas se junta à esposa e aos filhos, tentando distrair os pequenos dos sons de coisas quebrando e dos baques surdos dos corpos contra portas e janelas. Pelo rádio, que logo deixa de transmitir notícias, ficam sabendo que a cidade também sofria com os pássaros, e percebem as malogradas tentativas do governo de deter os animais. O que resta então além de viver um dia de cada vez?

Embora curto, o texto é muito tenso e aflitivo. A forma como a autora descreve os pássaros se juntando, esperando, observando e atacando é desesperadora. O ambiente da casa de Nat, durante os ataques diários, é claustrofóbico e aterrorizante. Assim como os moradores do chalé, eu ficava esperando que as aves conseguissem invadir a sala de Nat a qualquer momento. Sem contar o peso da incerteza de não saber até quando as barricadas aguentariam, até quando durariam as provisões, até quando a mente resistiria à loucura da situação.

A história acaba de forma bem abrupta. Não, não estou falando de final aberto (que é o que temos no livro), mas de uma parada totalmente repentina. Isso me incomodou um pouco (tanto que fui ver se não estavam faltando páginas no conto), mas, por outro lado, entendo que não havia outra forma de encerrar a trama. É como se a autora dissesse: ‘Bem, é isso. Imagine o que quiser daqui em diante.’ As minhas previsões para o pobre Nat e sua família não são nem um pouco animadoras...

Achei a história tensa, incômoda e angustiante. Tudo o que se pode esperar de um suspense. Recomendo.

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FILME: Os Pássaros

Melanie Daniels é uma moça bonita que compra um par de periquitos para dar de presente à irmã de um cara em quem ela está interessada. Devido a um contratempo, e como queria fazer surpresa, ela acaba tendo que levar os pássaros pessoalmente até a casa do moço, que fica numa cidadezinha isolada. Alguns acontecimentos fazem com que Melanie passe o fim de semana todo no local. E coisas estranhas, envolvendo ataques de pássaros, começam a acontecer.


Como eu já disse, Hitchcock usa histórias originais apenas como inspiração para seus filmes. Neste caso, a única coisa em comum com o livro é o fato de haver ataques de pássaros a pessoas que não fazem ideia de por que viraram alvo.


Eu tenho medo de pássaros, então essa história sempre me impressionou muito. No fim de semana, aproveitei que o filme estava passando na sessão de Clássicos Cinemark, e fui conferir a produção em tela grande. Mesmo com óbvias limitações técnicas, o filme ainda me deixa aflita e querendo me esconder debaixo da poltrona. No entanto, ao refazer minha avaliação da adaptação no Filmow, tive que diminuir as estrelinhas.


No começo da história, quando Melanie e Mitch se encontram pela primeira vez, em uma loja de animais, fica claro que já haviam se encontrado antes, embora ela não se lembre imediatamente dele. Como ele esclarece pouco depois, o encontro foi em um tribunal, e por algum motivo que não o deixa nada feliz.


Ele menciona que queria comprar um casal de periquitos (não diz para quem), mas a loja não tinha no momento. Depois que ele vai embora, ela decide encomendar as aves para dar a ele. As coisas não saem bem como planejado, mas ela, insistente, não se deixa abater. Vai até a cidadezinha onde ele mora (que ela não conhecia), descobre que as aves eram para sua irmã mais nova, e, querendo adulá-lo, presenteia a garota.


Não vou me prender ao fato de que todos a ajudam (muito provavelmente porque ela é bonita e porque a história se passa em uma outra época, quando as pessoas eram mais amáveis e menos desconfiadas), mas tudo se desenrola muito facilmente. A mudança de atitude de Mitch em relação a ela então... literalmente, de um dia para o outro. Se bem que, diante da possibilidade de ter sua cara arrancada por pássaros enfurecidos, por que não aproveitar para dar uns beijos, que talvez sejam seus últimos na vida?


Enfim... tirando o argumento fraco e as atitudes imbecis de alguns personagens (daquelas clássicas de filmes de terror), o filme ainda consegue prender minha atenção e me deixar tensa. E ainda leva a uma reflexão bacana sobre quem está do lado de dentro e quem está do lado de fora da gaiola, sobre os seres humanos e seu poder devastador sobre o planeta.


Mesmo não sendo o melhor filme do Hitch, é claro que recomendo.

Este post faz parte do 'Hitchcock Reading Project'. A lista de livros e suas adaptações com as respectivas resenhas está AQUI.

Trailer original do filme (em inglês) com a apresentação irônica do filme pelo próprio diretor:

2 comentários:

Unknown disse...

Michelle, "Os Pássaros" foi o primeiro filme de Hitchcock que assisti, lá nos tempos do Cinema em Casa, no SBT (ainda passa?). Eu morria de medo. Morria mesmo. Não sabia que era baseado em um livro da Daphne. Ainda quero ler alguma coisa dela.
Beijo!

Lígia disse...

O conto parece ser muito bom, só de ler sua resenha já senti a tensão! Lendo seus posts do projeto, fiquei com vontade de fazer algo parecido, só que eu provavelmente levaria algumas décadas para terminar. :P