sexta-feira, 12 de junho de 2015

Resenha: Turismo para Cegos


Laila é uma jovem artista plástica que descobre que tem uma doença degenerativa que avança rapidamente e a deixará cega. Pierre é o funcionário público que decide abrir mão de tudo para se dedicar 100% a Laila. Uma história de amor singela e comovente – pelo menos é o que dá a entender à primeira vista. Mas nada em “Turismo para Cegos” é o que parece ser.

Perder a visão é, sem dúvida, uma das coisas mais assustadoras que pode acontecer a alguém. Principalmente no caso de Laila, que, além de jovem, é artista plástica, acostumada a ver o mundo por uma lente diferente, uma pessoa intensa, que vibra na sintonia das cores, das formas e das texturas. Então, é compreensível que ela esteja com raiva: por saber que jamais voltará a admirar um pôr do sol (real, fotografado ou pintado), por prever que perderá sua autonomia, mas, sobretudo, por virar alvo de perguntas e mais perguntas sobre a doença, ser considerada uma coitada que deve escutar todo tipo de conselho e se transformar em uma pessoa digna de pena. Sua reação diante de tudo isso é a frieza e o cinismo.

De certa forma, é por isso que ela acaba permitindo a aproximação de Pierre, que pareceu agir com praticidade diante da doença dela, e, mesmo sendo um sujeito que tinha todos os defeitos que ela não tolerava em um homem, foi aceito. Mas nunca amado. Apesar de todos os esforços dele para alegrá-la, ela nunca fica satisfeita, e demonstra isso claramente sempre que tem uma oportunidade – especialmente se puder ridicularizar o namorado em público.

Laila é uma protagonista egoísta, ingrata, maldosa mesmo. Acho que, tirando os momentos que mostram os sentimentos dela com relação a se tornar alvo de piedade e aos métodos que ela inventa para ser livre dentro de sua imaginação, foi impossível gostar dela. E é aí que está o diferencial do livro: ele coloca diante de nós uma mocinha de história de amor (que não tem nada de romântica) que tem uma deficiência visual, o que poderia facilmente torná-la um personagem bonzinho, mas frustra essa expectativa involuntária ao nos apresentar a uma criatura abominável.

Aliás, Pierre, que o livro todo parece um cara bobão de quem sentimos pena e até vergonha alheia, no fim mostra sua cara real (e, vou dizer, não é nem um pouco bonita). Até a vendedora do pet shop – que é a narradora da história – que parecia satisfeita em seu papel de ouvinte e coadjuvante, acaba surpreendendo, quando revela seus pensamentos e planos. E ter uma narradora-observadora torna tudo ainda mais ambíguo, já que fala da história que ouviu dizer, elabora a partir do que viu. Outro recurso que indica que não podemos confiar nas aparências é a repetição dos títulos dos capítulos: algo que para uma pessoa é X, para outra pode ser Y. Achei bem interessante.

“Turismo para Cegos” é um livro que engana e surpreende, já a partir de seu título. Os personagens são todos detestáveis e com motivações e atitudes nada lisonjeiras, mas que conquistam por sua crueza e veracidade. São falhos e repugnantes, mas extremamente humanos. E isso, para mim, vale muito.

“Com a cegueira, perde-se o deslumbramento. A capacidade de se maravilhar depende da visão. Há quem diga que é possível ter experiências de encanto com a música, mas é algo diferente. A beleza melódica vem em sucessões, nunca repentina como o que se pode ver.”


Para quem gosta de observar a natureza humana – e tudo o que ela tem de bom e de ruim.

Este post faz parte do Desafio Literário Skoob 2015 - Mês de Junho: Histórias com Casais (namorados, casados, separados, viúvos...). Para ver a apresentação do desafio, minha lista de obras selecionadas e outros posts do DLSkoob2015, clique AQUI. 

2 comentários:

Marta Skoober disse...

Mi, maravilhosa a resenha!
Como você descobriu este livro?
A Gláucia ia adorar (acho!), ela sempre diz que gosta de livros com personagens odiosos!

Ingrit Tavares disse...

Nunca tinha ouvido falar desse livro, mas vou procurar pra ler!