segunda-feira, 13 de julho de 2015

Resenha: A Vida em Tons de Cinza


A narradora de “A Vida em Tons de Cinza” é Lina Vilkas, uma adolescente de 15 anos que é inteligente, tem uma habilidade artística incrível e vive com uma família amorosa, mas que vê sua vida perfeita desmoronar quando é arrancada de casa numa madrugada de 1941 e enfiada à força, junto com a mãe e o irmão de 10 anos, em um trem abarrotado que ruma para um lugar distante e desconhecido. É através de seus olhos (e de seus desenhos para o pai levado para outro lugar) que conhecemos os horrores vividos pelos povos bálticos durante a ditadura de Stalin, que dizimou um terço da população da Lituânia, da Letônia e da Estônia.

Embora seja um romance ficcional, os personagens foram inspirados em pessoas de carne e osso e a história contada é baseada nos horrores reais vividos por nativos dos três países citados que foram enviados para campos de trabalhos forçados na Sibéria. A autora é filha de um lituano refugiado e viajou ao país natal de seu pai para conversar com sobreviventes e conhecer os lugares que contam uma história de muito sofrimento e de morte, mas também de orgulho, de união e de força. Enquanto o mundo todo voltava os olhos para Hitler e para os países europeus sob seu domínio, os povos bálticos também sofriam, mas sem ganharem a devida atenção. Foram obrigados a viver com medo durante os cinquenta anos em que foram anexados à ex-União Soviética, sendo capazes de respirar livremente só em 1990, quando enfim conseguiram a independência.

Como toda história de guerra, esta é uma história triste, de maus tratos, humilhações, fome e morte. É também, lógico, uma narrativa de superação e esperança, que mostra os anônimos que se destacam da massa por sua postura diferenciada, pelo amor ao próximo, pela dignidade de suas ações. O encanto do livro é conseguir mostrar as atrocidades de um jeito leve e até engraçado em alguns trechos, conforme Lina vai falando dos horrores que enfrenta durante a invasão de sua casa, o transporte de caminhão e trem, a chegada ao campo de trabalhos forçados, o frio inclemente, e misturando com fragmentos de sua vida anterior à guerra: as paixões juvenis, sua vontade de viver de arte, as conversas com a prima.

No núcleo de personagens principais temos a mãe de Lina, que tem um papel importante para os prisioneiros, já que é uma das únicas que sabe falar russo; Jonas, irmão mais novo de Lina, que tem um grande coração e uma força incrível, e cujo amadurecimento pode ser percebido durante a narrativa; Andrius, rapaz pouco mais velho que Lina que se junta a ela e ao irmão nas aventuras juvenis, e que se transforma em interesse romântico da narradora; a própria Lina, que é muito bem caracterizada como adolescente, alternando momentos de egoísmo e futilidade com outros de extremo desprendimento e maturidade.

Além desses, um outro personagem de que gostei muito é o soldado soviético Kretzsky, cujo comportamento é sempre dúbio e que acaba virando alvo de toda a ira e desprezo de Lina, mas que a desarma ao contar a história de sua vida. Nesse livro, tudo é cinza: as paisagens desoladas e frias, as pessoas que adoeciam e morriam de inanição e, o mais legal, a natureza das pessoas – ninguém é perfeito, completamente bom ou totalmente ruim; todos têm nuances e mostram faces diferentes, dependendo da situação. Achei isso muito bacana, pois a autora evitou a armadilha de apontar apenas um culpado e considerar que todos os refugiados eram santos, bem como de insinuar que todos os soldados eram crápulas.

"Vocês já pensaram em quanto vale a vida de uma pessoa? Naquela manhã, a vida do meu irmão custou um relógio de bolso."

Uma história comovente contada de um forma despojada. Foi uma boa leitura. 

Este post faz parte do Desafio Literário Skoob 2015 - Mês de Julho: Histórias que se passem um lugares frios, capas e títulos que remetam ao inverno. Para ver a apresentação do desafio, minha lista de obras selecionadas e outros posts do DLSkoob2015, clique AQUI.  

2 comentários:

Claudia Oliveira disse...

Já estive para comprar este livro várias vezes.

amulherqueamalivros

Maira Neves disse...

Mi, acreditas que tinha e doei esse livro sem ler? Achei que era mais uma história de guerra e não estava nessa vibe. Se soubesse que tinha essa voz despojada teria olhado pra ele com outros olhos. Tô me sentindo bem imbecil agora, rs.

P.S.: blog novo! blogamarelo.com