sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Filme: O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias


O ano é 1970 e a Copa do Mundo do México se aproxima. Nada poderia ser mais empolgante para o pequeno Mauro (Michel Joelsas), garoto de 11 anos apaixonado por futebol. Só que a ansiedade pela estreia da seleção dá lugar a uma espera triste e angustiada por um telefonema dos pais, que são obrigados a ‘sair de férias’ repentinamente, deixando o menino aos cuidados do avô paterno.



O filme começa com Mauro jogando uma partida de futebol de botão, que é interrompida bruscamente pela chegada do pai, que já entra em casa apressado, pegando malas e arrastando para o carro esposa e filho. Durante a viagem para a capital de São Paulo, é nítida a tensão da mãe, dividida entre o que queria e o que precisava fazer, e o deslumbramento do menino diante dos edifícios altíssimos do centro da cidade e do caminhão militar na estrada. Diante da porta do prédio do avô, Mauro recebe beijos rápidos de despedida e a recomendação de dizer que os pais saíram de férias a quem perguntasse por eles. E ali ele fica, sem entender direito o que está se passando. 


O destino decide que é um bom momento para pregar uma peça e acontece de Mauro descobrir que o avô havia morrido naquela mesma manhã, deixando-o sozinho no mundo. A contragosto, ele é acolhido pelo vizinho do avô, Shlomo (Germano Haiut), um judeu idoso solitário que não sabe muito bem o que fazer com uma criança. O choque de culturas e hábitos é incômodo para os dois, mas ambos acabam se adaptando e desenvolvem uma bonita relação. Enquanto aguarda um contato dos pais, Mauro conhece outros moradores do bairro, faz amizade com as crianças, se apaixona platonicamente pela atendente da lanchonete e vivencia toda a emoção da Copa.


Fica claro desde os primeiros minutos que os pais de Mauro são militantes da esquerda fugindo da ditadura, mas o diretor foi muito feliz e bem-sucedido ao abordar esse período tão violento da história do país pela perspectiva de um menino. Em momento algum a dura realidade do que acontecia é deixada de lado; ela é apenas diluída, suavizada pelos personagens adultos para poupar a criança de um sofrimento que ela ainda não é capaz de entender.


O filme consegue dosar perfeitamente momentos divertidos (como quando Hannah (Daniela Piepszyk), a única menina da turma, cobra entrada dos garotos para que espiem pelo provador da loja de roupas da mãe – uma travessura clássica de outros tempos) com aqueles que demonstravam a brutalidade da ditadura (pessoas do bairro sendo agredidas pelos militares e detidas para interrogatório).


A escolha do futebol como pano de fundo também é muito significativa: enquanto milhares de pessoas fugiam, apanhavam, eram mortas por tentarem mudar a situação política do país, outros milhares pareciam desconhecer o que se passava, hipnotizados pelo campeonato mundial. A decisão do próprio Mauro, de ser goleiro, é emblemática: ele é aquele que fica a maior parte do tempo sozinho, observando o que se passa ao redor e tentando entender, enquanto espera pelo pior.

Um filme que fala de amizade, de diferenças, de escolhas e de amadurecimento. Mais que recomendado!

Esta postagem faz parte do projeto Lendo a Ditadura. Visitem o blog oficial para ver outras colaborações.


2 comentários:

Jeniffer Santos disse...

Adooorei a dica!
Vou ver. ;)
Beijos

Michelle disse...

Veja sim! Depois me conta ;)