segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Leia o Livro, Veja o Filme: O Conto da Aia / A Decadência de Uma Espécie

LIVRO: O Conto da Aia

Num futuro não muito distante, o presidente e todos os membros do congresso dos Estados Unidos foram assassinados e, em meio ao caos, o exército assumiu o comando. Rapidamente a ex-república democrática e terra das oportunidades se transformou em Gilead, uma nação teocrática totalitarista. Estrangeiros e negros foram expulsos do país, a população restante foi dividida em castas com funções muito específicas e aqueles que não tinham utilidade para o regime foram enviados para as colônias penais, terras distantes com altos níveis de radiação. Mesmo na desgraça, sempre há alguns mais desgraçados que outros. Nessa nova sociedade baseada em religião, adivinhem para quem sobrou a pior parte?

Para as mulheres, é claro. Foram divididas em categorias, dentre elas: marthas (espécie de empregadas domésticas), tias (religiosas que administravam os centros em que eram treinadas as aias) e aias (as reprodutoras). Em um mundo em que grande parte da população ficou estéril devido à radiação, as aias têm a função crucial de garantir a perpetuação da espécie. No entanto, apesar da aura de “especiais” a elas atribuída, na verdade, elas são propriedade do Estado. Isso fica muito claro desde o momento em que são aprovadas em uma avaliação e designadas para uma família de militares de alta patente (os únicos que têm privilégios nessa nova sociedade): as aias perdem o nome de batismo e recebem o nome do seu dono. E essa perda de identidade é só o começo do martírio.

A aia narradora da história, por exemplo, passa a se chamar Offred, ou seja, “of Fred” (do Fred). Antes de o novo regime entrar em vigor ela era uma mulher independente, que trabalhava para ganhar o próprio dinheiro, acreditava que era totalmente livre para tomar suas decisões, torcia o nariz para a mãe e seus protestos feministas (os quais considerava exagerados e desnecessários), vivia feliz em seu mundo aparentemente perfeito, com o marido e a filha. A nova sociedade a faz enxergar o quanto estava errada. Desesperada, ela e sua família tentam cruzar a fronteira para o Canadá, mas as coisas não saem como planejado, e o marido desaparece para sempre, restando a ela conviver com a culpa e com os tormentos de não saber se ele ainda vive ou se foi assassinado; a filha lhe é tirada e adotada por uma família poderosa; a ela só resta a opção de seguir as novas ordens e rezar para engravidar.

Com seu passado apagado, as aias são obrigadas a usar roupas quentes e pesadas que cubram seu corpo todo, bem como um chapelão que serve de cabresto e as impede de escutar direito e de olhar para qualquer outra coisa que não seja o caminho previamente aprovado que têm diante de si quando saem à rua. Elas só podem sair aos pares, sempre acompanhadas por outra aia, e são vigiadas o tempo todo. Para cumprir sua função de gerar um filho para a família que as escraviza, as aias têm apenas um número limitado de tentativas: se falharem serão devolvidas e mortas (ou enviadas para as colônias, o que dá praticamente na mesma); se forem bem-sucedidas, serão realocadas para outra família, para que possam gerar crianças até que seus prazos de validade expirem. Que ótimo, não?

O ritual de procriação é bem bizarro e envolve a Esposa, o Oficial e a Aia. E mesmo que, a princípio, pareça que as esposas têm uma vida boa, nesse momento vemos sua humilhação, tão grande quanto a da aia – afinal, mesmo estando em extremidades opostas das castas, ambas são mulheres e estão sujeitas aos desígnios masculinos e devem cumprir sem reclamar os papéis incômodos que não escolheram.

O livro é tão extraordinário e tem tanta coisa a ser discutida que eu poderia ficar falando dele por mais uns bons parágrafos. Mas não quero deixar a resenha ainda maior do que já está. Só não posso deixar de mencionar minha personagem preferida: Moira. Ela já era amiga de Offred desde antes da instituição do novo regime e sempre demonstrou rebeldia. Quando a teocracia totalitária se instala, ela, que é lésbica (um sacrilégio imperdoável), oculta essa informação e vai parar no centro de treinamento de aias. É lógico que fica indignada com tudo que vê ali e resolve fugir, mesmo sem grandes planos para o futuro. Anos depois, Offred a encontra novamente e se surpreende pelas condições em que se dá esse encontro. Fiquei muito triste com o destino de Moira, mas, à sua maneira, foi uma forma de conseguir liberdade (bem restrita, diga-se de passagem, mas a única possível dentro daquele universo). Ela é apenas um grão de poeira naquele sistema, mas é admirável por se recusar a aceitar aquela situação absurda. 

Essa foi uma leitura compartilhada que fiz com a Lulu. Além de a leitura em si ter sido maravilhosa, as conversas que tivemos foram muito enriquecedoras (obrigada, Lulu!). Percebemos um estranhamento inicial, quando ainda não é possível compreender totalmente o que está se passando, seguido por uma sensação de sufocamento, causada tanto pela indumentária das aias quanto por sua condição dentro dessa sociedade opressora. O final aberto do livro nos fez seguir por caminhos diferentes, mas ambos interessantes e possíveis. Foi uma experiência incrível e recomendo muitíssimo a leitura dessa obra (que foi adaptada para o cinema, teatro e até dramatização no rádio).

“O Conto da Aia” ocupa a posição de número 37 da lista de livros banidos entre os anos de 1990 e 2000 da Associação Americana de Bibliotecas. Não é muito difícil perceber os motivos. Margaret Atwood critica sem piedade a religião, a discriminação racial, a xenofobia e a forma como são tratadas as mulheres. Como toda distopia, as atrocidades cometidas na sociedade imaginária do livro não estão muito distantes do que vemos no nosso dia a dia. Os argumentos de que tudo é feito “para o próprio bem das mulheres, para protegê-las, para que sejam valorizadas” são exatamente os mesmos usados atualmente, que culpam as vítimas enquanto eximem os reais culpados e os glorificam por seus atos grotescos.

“O do bigode abre o pequeno portão para pedestres para nós e recua um bocado, postando-se bem longe do nosso caminho, e passamos. Enquanto nos afastamos sei que estão nos observando, esses dois homens que ainda não têm sequer permissão para tocar em mulheres. Eles tocam com os olhos, e eu remexo um pouco os quadris, sentindo a saia vermelha rodada balançar ao meu redor. É como dar uma banana quando se está atrás de uma cerca ou atiçar um cachorro com um osso mantido fora do alcance, e sinto-me envergonhada de meu comportamento, porque nada disso é culpa desses homens, são jovens demais.
Então descubro que afinal não estou envergonhada. Aprecio o poder; o poder de um osso de cachorro, passivo mas presente. E espero que fiquem de pau duro ao nos verem e que tenham que se esfregar contra as barreiras pintadas, às escondidas. Eles sofrerão, mais tarde, à noite, em suas camas de regimento. Agora não dispõem mais de quaisquer meios para dar vazão, exceto por si próprios, e isso é um sacrilégio. Não existem mais revistas, não existem mais filmes, não existem mais substitutos; só eu e minha sombra se afastando dos dois homens, que se perfilam rapidamente, rigidamente, junto a uma barreira de estrada, impedindo um caminho, observando nossas formas que se distanciam.”

Uma história muito bem escrita que, além de entreter, gera tensão e faz pensar no mundo em que vivemos. Para mim, uma combinação perfeita.

Este post faz parte do Desafio Literário Skoob 2015 - Mês de Setembro: Livros Banidos. Para ver a apresentação do desafio, minha lista de obras selecionadas e outros posts do DLSkoob2015, clique AQUI.


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FILME: A Decadência de Uma Espécie

Como eu disse antes, o livro ganhou várias adaptações. Então, assim que terminei de ler, tratei logo de assistir ao filme. Nessa versão da história, Offred é interpretada por Natasha Richardson, o Comandante é vivido por Robert Duvall e a Esposa é encarnada por Faye Dunaway.

3 classes de mulheres: a martha (de verde), a esposa (de azul)
e a aia (de vermelho) em preparação para a noite do ritual
Com um livro tão cheio de detalhes e com tantas nuances e acontecimentos importantes, eu já esperava que o tempo de projeção não desse conta de tudo. Só que algumas coisas me desagradaram muito. A primeira foi a ausência do chapelão. Talvez pela dificuldade de filmar personagens usando com um trambolho daqueles na cabeça, mas enfim... O fato é que era uma peça fundamental do vestuário das aias, que limitava ainda mais suas ações e as enclausurava em si mesmas.

Ilustração inspirada em uma cena do livro e a versão do adereço usada na peça
A segunda coisa que me deixou irritada foi a relação romantizada de Offred com Nick (Aidan Quinn), o motorista do Comandante. De fato, eles se envolvem no livro, mas é um relacionamento conturbado, intenso, que servia de válvula de escape para a aia e de rebeldia para Nick. Para ela, era um risco mas também uma esperança: se fosse pega seria enforcada e pendurada no Muro, para servir de exemplo; mas também poderia ter a sorte de engravidar, já que o Comandante parecia estar tendo dificuldade para conceber (e é lógico que ninguém jamais diria que o problema de fertilidade era dele). Além disso, o tempo todo ela era corroída pela culpa, afinal o marido talvez ainda estivesse vivo; mesmo que estivesse morto, isso não aliviava nem um pouco a pressão sobre ela. E ainda havia dúvidas sobre o paradeiro da filha, que ela esperava encontrar um dia. Como se vê, era impossível que Offred vivesse um amor adolescente com expectativa de final feliz, mas é exatamente isso que o filme dá a entender.

Offred (antes de perder a identidade) e Moira no centro de treinamento de aias
Mas não vou ficar só criticando a adaptação, que, em geral, cumpre bem o seu papel. Destaco como pontos positivos o ritual de procriação, que exemplifica bem a angústia daquelas mulheres unidas contra suas vontades e a cena do Testemunho de Janine, uma das garotas do centro de treinamento de aias que, durante as sessões semanais de purificação, conta que foi abusada sexualmente por um grupo de garotos e acabou fazendo um aborto, e é duramente apontada pelas demais como culpada pelo ataque. A cena, que já era absurdamente revoltante no livro, ganha força na tela ao observarmos o desamparo da menina e a crueldade do sistema.

Todas as classes de mulheres em uma celebração religiosa obrigatória
Embora o final também seja aberto no filme, aponta mais para um desfecho esperançoso (ao contrário do que eu imaginei ao ler o livro – sou trágica!... rs). Mesmo assim, achei digno.


Apesar de seus problemas e diferenças, achei um bom filme e recomendo uma conferida.

5 comentários:

Maira Neves disse...

Nossa, esse livro deve ser muito bom!
Dela eu li A odisseia de Penélope, que tem também um tom bem reflexivo no lugar do feminino, mas gostei de umas coisas e não gostei de outras.
Vcs leram em ebook? Será que é fácil de encontrar?
beijo, Mi!

Lígia disse...

Adoro esse livro! Sua resenha ficou ótima, como de costume, e me fez lembrar que preciso ler outros livros da autora.

lulunettes disse...

Primeiramente, gostaria de agradecer a companhia ^_^ Adorei nossas conversas enriquecedoras <3 Michelle, suas resenhas (livro e filme) ficaram ótimas!

Livro –

Em relação filha que lhe é tirada e adotada por uma família poderosa, acabei de lembrar que na Ditadura Militar Argentina existiu esse tipo de prática horrenda. Tinha visto que era em torno de 500 crianças sequestradas ou nascidas em cativeiro. Até hoje as mães / avós sobreviventes estão procurando seus filhos / netos.

A descrição que Margaret Atwood faz das roupas das Aias é para lembrar constantemente da condição de subserviência daquela classe. Chega ao ponto de ser sufocante.

Moira <3 Personagem que está lá para dar voz a nossa revolta. Como comentei na conversa, fiquei triste com o destino dela, mas achei palpável.

“O final aberto do livro nos fez seguir por caminhos diferentes, mas ambos interessantes e possíveis.” - Verdade! ;)

Não me surpreende que O Conto da Aia ficou entre os livros banidos nos Estados Unidos da América.

O Conto da Aia já entrou na minha lista dos melhores livros lidos em 2015. Quero ler mais obras da autora. Gostei muito da escrita dela.

Filme –

Sobre a roupa, realmente, ficaria difícil, mas poderiam ter enfatizado no significado. Concordo com os pontos positivos, principalmente a cena do Testemunho de Janine. Sério, fiquei revoltada.

“Como se vê, era impossível que Offred vivesse um amor adolescente com expectativa de final feliz, mas é exatamente isso que o filme dá a entender.” – Resumiu perfeitamente. Desnecessário essa relação romantizada.

Beijão, Michelle!

Michelle disse...

Maira,
O Odisseia está na minha lista de leituras, mas já me disseram que tem problemas. Vamos ver.

Lígia,
Foi meu primeiro dela e estou louca para ler outros!

Lulu,
É verdade! Tudo a ver com a ditadura argentina!
Moira é o respiro dessa história <3
Pois é. Falando de tanta coisa incômoda, o coitado do livro só podia ser banido mesmo...
Sabe o que mais me revoltou na cena do testemunho da Janine? É que acontece frequentemente na vida real :(
Adorei nossas conversas! Vamos planejar nossa próxima leitura! ;)

lulunettes disse...

Pois é, a cena do testemunho da Janine não tem nada de exagerado. São os mesmos julgamentos e até a forma violenta.
Com certeza teremos mais leituras compartilhadas e conversas ^_^