quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Resenha: Írisz: as orquídeas


Fugindo da invasão de seu país pela União Soviética, em 1956, a húngara Írisz chega a São Paulo totalmente desnorteada, trazendo consigo a culpa por abandonar a mãe senil, um relacionamento amoroso mal resolvido com o revolucionário Imre, umas poucas palavras em português e uma recomendação para trabalhar no Jardim Botânico da cidade, onde estudará orquídeas, uma planta tão exótica quanto ela mesma.

Já na estação de bonde, Írisz se destacava na multidão: era alta, usava maquiagem pesada e uma roupa fora de moda. Assim que a conhece melhor, Martim, seu futuro chefe e encarregado de buscá-la na chegada e ajudá-la a se estabelecer na cidade, vai notando outras peculiaridades suas: um interesse genuíno por tudo que é novo (quando criança, a curiosidade pelo mundo ao seu redor era tanta que ganhou o apelido de ‘Não Mexe’), um fascínio pelas orquídeas, uma personalidade cheia de ambiguidades, a mistura de palavras em português e em húngaro e a invenção de novos termos e a desvirtuação de ditados populares, a importância da música, a ligação afetiva com a culinária típica de seu país.

Martim fica encantado com aquela colega de trabalho com a qual por necessidade e por afinidade passa a conviver cada vez mais. No entanto, ela desaparece misteriosamente e a Martim só resta relembrar a personalidade marcante da amiga, sentir saudade e analisar os relatórios estranhos que ela lhe deixou, os quais misturam observações técnicas, memórias pessoais e reflexão sobre sua história e a de sua família. Disposto a desvendar as pistas deixadas por ela nos relatórios, Martim mergulha na leitura dos documentos e passa a compreender melhor aquela estranha hipnotizante, ao mesmo tempo em que põe em xeque seus próprios sentimentos com relação a ela.

Assim como Martim, eu também fiquei encantada com Írisz. Sua forma inusitada de ver as coisas, sua criatividade, seu interesse por idiomas, seu jeito involuntariamente engraçado. Tudo isso é resultado da escrita envolvente e rica de detalhes da Noemi Jaffe. Durante a leitura, eu consegui imaginar aqueles personagens perfeitamente e vê-los agindo como se estivessem na tela do cinema; fui capaz até mesmo de sentir os cheiros que saíam das panelas da mãe de Írisz; quase pude sentir o gosto daqueles doces maravilhosos.

“As plantas reptantes rastejam, emitindo brotos perto do solo ou do hospedeiro, formando um tapete de raízes (...). Írisz também rasteja, porque passa distraidamente pelo tempo do relógio. Seu tempo pertence a outra ordem, nem do trabalho nem da rotina. Ela vem e volta do Jardim em horas improváveis. Chega mais cedo e sai mais tarde. Fica, quando todos vão. Some para outros lados e estuda outras flores, tentando aprender com elas a cuidar melhor das orquídeas, porque diz que não há nada melhor para aprender uma coisa do que estudar as outras. Aprende português como pesquisa as orquídeas e aparece falando palavras inesperadas para quem está apenas em fase de aprendizado, como, por exemplo, nenhures. Depois quer usar essas palavras para pegar um táxi ou pedir um lanche. Não quer aprender a contar até dez; quer saber o ordinal de 1451. Das orquídeas, que mal existem na Hungria, quer conhecer os nomes, adivinhar a idade, fazê-las durar mais. Nada que possa ser útil em Budapeste. E, mesmo assim, faz as orquídeas brotarem com cores mais vibrantes, como se respondessem às suas perguntas. Ela pergunta, por exemplo: 'Se a palavra orquídea vem do latim, Orchideae, e significa 'testículo', por que, em português, ela é feminina? Como elas rastejam no ar? Você já viu uma orquídea se masturbando?'"  

Como numa receita, o drama, o romance, o mistério, as cenas engraçadas e os momentos tristes são dosados à perfeição e resultam num livro delicioso de ler. Recomendo muito!

Este livro faz parte do "Desafio Mulheres e Páginas", criado pelo blog "Elas Leram". O objetivo é ler 1 livro escrito por mulher a cada bimestre, de acordo com os temas. O tema de setembro/outubro é Autora Brasileira. Minha escolha foi a escritora e crítica literária Noemi Jaffe, pois fui ao lançamento do livro e saí de lá com muita vontade de ler 'Írisz'. Adorei a escrita dela e quero conhecer seus outros trabalhos.

4 comentários:

Claudia Barbara disse...

Parece muito interessnte. Fiquei curiosa em saber como acaba a história.

Maira Neves disse...

Esse livro já me chamou atenção pela capa linda, mas o enredo parece muito gostoso <3
bjão!

Michelle disse...

Claudia,
É bem interessante. Devorei o livro rapidinho porque queria desvendar o mistério...rs

Maira,
Uma delícia essa história!

Blog Elas Leram disse...

Olha aí, não conhecia MESMO esse! E fiquei interessada rsrs Ultimamente se não me prende e não me faz querer saber logo o final, a minha tendência é me desmotivar.

No trecho que você postou senti que a sonoridade é bem forte. Li em voz alta e há consoantes everywhere. Aliterações aqui e ali, propositais ou não, mas que deixaram o texto forte. Gostei.