terça-feira, 12 de abril de 2016

Resenha: Rostos na Multidão


Uma mulher escreve um livro. Nas constantes pausas que faz, ela brinca com os filhos pequenos, cuida dos afazeres domésticos, dá atenção ao marido. Em seu trabalho, ela mistura ficção e realidade, seu passado recente como parecerista e tradutora em Nova York dos anos 50 com o passado do escritor Gilberto Owen, que também viveu em NY, só que nos anos 20. Aos poucos, os limites entre a vida da escritora contemporânea e a do autor romanceado vão se tornando menos distintos e já não sabemos quem é personagem de quem.

“Rostos na Multidão” é um livro peculiar. No início, é fácil distinguir quem faz o que, quem é criador e quem é criatura, o que é real e o que é ficção. Mas a vida presente da escritora em determinado momento se cruza com a vida passada do autor que virou sua obsessão, e a certa altura não é possível dizer se é ela quem vê o fantasma dele no metrô e escreve sobre ele, ou se era ele que via o rosto dela na multidão - um espectro do futuro.

O fato é que entramos em contato com dois momentos distintos da vida da escritora (que não tem nome, assim como seus filhos, que são chamados de ‘o menino médio’ e ‘a bebê’, e como o marido só é assim designado): sua juventude em Nova York, quando trabalhava para uma editora e morava em um apartamento minúsculo e vazio, onde nunca dormia, preferindo dormir em casas alheias enquanto estranhos ocupavam sua cama; e sua vida atual de esposa e mãe de família, que mora em uma casa enorme e contraditoriamente sempre atulhada de coisas, de onde nunca sai, e onde se sente sufocada pelos chamados constantes dos filhos e pela bisbilhotice do marido.

É interessante a forma como Valeria Luiselli brinca com a questão dos fantasmas e da morte – todos nós morremos diversas vezes ao longo da vida, um pouquinho a cada dia, de forma imperceptível, e às vezes de forma mais drástica, devido a algum acontecimento que nos transforma para sempre. E em nossas transformações viramos fantasmas do que fomos e sombras do que gostaríamos de ser. Parece maluco, não? Mas garanto que prende a atenção.

Outro assunto discutido no livro, e que particularmente me interessa, é a questão da tradução. Para convencer o editor a publicar uma obra e uma biografia de Gilberto Owen, por quem a escritora da história estava fascinada, ela inventa que havia encontrado manuscritos perdidos do autor mexicano traduzidos para o inglês pelo renomado poeta Joshua Zvorsky, de quem ela sabia que o editor era fã. Enfim, uma parte importante da mentira era criar o tal manuscrito como se realmente tivesse escrito por Owen e traduzido por Zvorsky – e nisso entra o talento de criação da protagonista. Afinal, traduzir não é recriar? Luiselli, como tradutora, acredita que sim.

Aliás, acho que “Rostos na Multidão” é um título ótimo, que a capa nacional explora muito bem. Como disse a autora nesta entrevista, foi ela mesma quem escolheu o título em português para a tradução do espanhol “Los ingrávidos”, que seria algo nebuloso, etéreo. Essa entrevista, inclusive, é bem bacana para entender um pouco mais sobre o processo de criação do livro (podem ler que não estraga nenhuma surpresa) e revela fatos inusitados que realmente ocorreram com Valeria e que foram parar na história (como, por exemplo, a planta seca que a protagonista rouba do terraço de Owen).

Adoro pegar um livro para ler sem saber muita coisa sobre ele e ser positivamente surpreendida. E esse foi o caso aqui. Recomendo!

Nota: 4/5

“Deixar uma vida. Dinamitar tudo. Não, não tudo: dinamitar o metro quadrado que a gente ocupava entre as pessoas. Mais precisamente: deixar cadeiras vazias nas mesas que se compartilhava com os amigos, não como metáfora, mas na realidade, deixar uma cadeira, tornar-se um buraco para os amigos, permitir que o círculo de silêncio em torno da gente se alargue e se encha de especulações. O que poucos entendem é que alguém deixa uma vida para começar outra.”

2 comentários:

Lígia Barros disse...

Não conhecia o livro, mas fiquei com vontade de ler. É sempre interessante ver personagens tradutores nas histórias. :)

Michelle disse...

Lígia,
Sim! Fico muito feliz quando aparece um personagem tradutor! :)