sábado, 2 de abril de 2016

Veja Mais Mulheres - Filme #13: O Farol


Lena é uma jovem que volta ao vilarejo onde nasceu depois de ter passado dois anos em Moscou, fugindo da guerra. Em seu regresso, encontra apenas resquícios da comunidade outrora festiva: casas dilapidadas, moradores assustados com a violência, só velhos, mulheres e crianças como habitantes. A recepção da avó não é das mais calorosas. As duas discordam em muitos aspectos, mas o principal é que, enquanto a mais velha se recusa a partir, a mais nova não vê motivos para ficar.


“O Farol” é um filme de silêncios, de sutilezas. Nada é dito com todas as letras; só o que podemos fazer é supor. Lena não diz exatamente o que a fez voltar, mas as possibilidades são apresentadas ao longo da projeção: saudade de casa, necessidade de salvar os avós, vontade de voltar para o que conhecia, dar à luz a um filho em sua terra natal. Pode ser por qualquer, todos ou nenhum desses motivos. Não importa. Assim como também não importam vários outros elementos do longa: quanto tempo transcorreu desde a chegada de Lena até o desfecho do filme, se o desfecho em si é real ou imaginação, qual a localidade exata do povoado – em se tratando de guerra, os horrores são sempre muito parecidos.


Embora seja um filme curto, ele demora a chegar ao fim. Não que seja ruim. Imagino que essa indefinição do tempo e essa sensação de dias que se arrastam sejam intencionais, para sinalizar a vida em suspensão e as incertezas sobre o futuro. Achei bem interessante como a diretora construiu uma atmosfera de sonho (que às vezes estava mais para pesadelo), mesclando lembranças de um passado feliz da protagonista com o desalento do presente. A costura das cenas desesperadoras interpretadas dos moradores tentando pegar o último trem para fugir da guerra com imagens reais recuperadas de arquivos consegue intensificar e tornar mais palpável aquela situação degradante.


Por definição, um farol serve para mostrar um caminho para os navegantes perdidos em alto-mar. No filme, os moradores do vilarejo são impedidos de buscar um caminho que os leve para longe da guerra; a luz do farol serve apenas para iluminar suas almas e dar a eles força para que consigam se adaptar e seguir vivendo em meio ao caos.

Achei válido pela proposta visual diferente e por ser um dos raros representantes do cinema produzido pela Armênia.

Nota: 3/5
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Sobre a diretora:

Mariya Saakyan nasceu em 1980 na ex-União Soviética (atual Armênia) e é roteirista, montadora e diretora. “O Farol” foi seu primeiro longa-metragem, inspirado parcialmente nas memórias da diretora, que também deixou sua terra natal por causa dos conflitos no Cáucaso dos anos 90 e foi para Moscou estudar. O filme também é importante por ser o primeiro dirigido por uma mulher na Armênia desde os primórdios da indústria cinematográfica daquele país, nos anos 20.

Este post faz parte do projeto Veja Mais Mulheres, criado pela Cláudia Oliveira. Para ver o post de apresentação que inclui minha lista de filmes e os links para as respectivas postagens, clique AQUI.  

3 comentários:

Carissa Vieira disse...

Mais um para a lista.
É incrível como eu não conheço esses filmes que você tem indicado no projeto.

Beijos,
Carissa
www.carissavieira.com.br

Michelle disse...

Carissa,
Eu tenho descoberto muita coisa com o projeto também. Isso é o mais bacana :)

Jéssica disse...

Nossa parece interessante este filme! *-* Quero ver. Obrigada por compartilhar sobre este filme.