quinta-feira, 31 de março de 2016

Leia o Livro, Veja o Filme: Rebecca

LIVRO: Rebecca

História de uma jovem pobre e sem família que trabalhava como dama de companhia para poder se sustentar. Enquanto estava com sua empregadora rica em Monte Carlo, a senhora adoece e se recolhe ao quarto de hotel por uns dias, e, nesse tempo a menina tímida e invisível se aproxima de Maxim de Winter, um viúvo quarentão calado e atormentado por um passado trágico. Os poucos dias que passam juntos são suficientes para ele propor casamento à moça. Levada por seus ideais românticos e juvenis ela aceita, mas o que não imaginava era que teria que enfrentar uma rival contra quem não tinha armas para lutar: Rebecca, a ex-esposa falecida de Maxim.

“Rebecca” é um livro incrível. A narrativa que descreve preciosamente paisagens e atmosferas vai enredando o leitor aos poucos, jogando um mistério aqui, um momento tenso ali, uma surpresa mais adiante, uma revelação bombástica quase no final. Demorei um pouco a entrar na história, acho que mais pela escrita datada e meio afetada. Sabem aqueles filmes antigos em que os atores são todos expansivos demais? Então, mais ou menos isso. Não que seja um defeito, mas sempre preciso de um tempo até me acostumar com o estilo. Umas cinquenta páginas depois, no entanto, eu já havia sido fisgada.

O interessante da história é acompanhar o crescimento e as transformações da protagonista, que começa como uma moça totalmente sem graça – tanto que em momento algum seu nome é citado – e vai aos poucos, e com muita dificuldade, assumindo o novo papel de Mrs. de Winter. Ela é tão ingênua e atrapalhada que às vezes chega a dar pena (e outras vezes chega a dar raiva), mas seu jeito de ser é compreensível. Acostumada a ser uma sombra, a servir e a obedecer, ela se sente diminuída ao chegar à imponente mansão Manderley, não sabe como se portar com os constantes convidados, não se impõe como dona da casa, não consegue nem mesmo se localizar numa propriedade tão grande. 

Em contraposição, Rebecca, sua oponente, jamais é mostrada, mas seu nome, seu perfume, suas escolhas estão em toda parte – ela é onipresente. A concorrência com a esposa falecida é totalmente desleal: primeiro porque os mortos sempre levam vantagem, pois são intocáveis; depois porque parece que Rebecca era mesmo a criatura mais perfeita da face da Terra – era linda, elegante, engraçada, inteligente, bondosa; sabia dar festas como ninguém; administrava a casa; cuidava da decoração, do cardápio, do jardim... todos a adoravam. A morte trágica por afogamento só fez aumentar sua aura de perfeição.

Como se não bastasse lidar com o fantasma da ex-dona da casa, a nova Mrs. de Winter ainda tem que aguentar os mandos e desmandos de Mrs. Danver, a sinistra governanta da mansão, que idolatrava a ex-patroa e tinha uma relação de proximidade com ela. O fato de Maxim parecer perturbado e irritado toda vez que alguém tocava no nome da falecida só fazia piorar a sensação de impotência da recém-chegada e colaborava para aumentar a percepção errônea que ela tinha das reações do marido – aquele famoso probleminha de comunicação.

Na verdade, Maxim é bem insensível com relação à nova esposa. Obviamente, ele não havia casado por amor – o motivo é bem egoísta: ele não queria ficar sozinho na mansão. Mas em momento algum ele parece se importar com os sentimentos da moça, desde quando diz que não se casariam na igreja porque ele já havia passado por isso antes (independente de ela não ter vivido essa experiência), passando por seu comportamento misterioso e explosivo sempre que ela tentava saber mais sobre Rebecca (ele tinha motivos para tanto, mas nem tenta explicá-los à moça) e até seu distanciamento quando estavam juntos (a cena em que a jovem percebe que está agindo feito o cão da família e implorando um afago é bem triste). É claro que o modo de agir de Maxim é fundamental para manter o suspense da trama, mas não deixa de incomodar ao pensarmos na situação da esposa.

É curioso que um livro dos anos 30 traga frases e ideias que soam ainda atuais quanto ao que se espera de uma mulher.
1- Como quando Mrs. de Winter diz que não saberia organizar um baile, e o que ouve em resposta é: “Não haveria necessidade de fazer coisa alguma. Bastaria que a senhora se mostrasse decorativa, se apresentasse como é.” (decorativa!!).
2- Ou como quando Mr. de Winter diz ser uma pessoa com quem é difícil viver, e a esposa responde: “Não é difícil, não! (...) Fácil até, muito fácil. Muito mais fácil do que pensei. Sempre julguei que o casamento fosse algo terrível, que o marido da gente bebesse, ou usasse linguagem pouco cristã, ou impertinasse com as torradas de manhã (...).” (ou seja, a esposa deve suportar tudo).
3- Ou então quando a moça se sente mal e a cunhada suspeita de gravidez e diz: “Sinceramente desejo que você produza logo um herdeiro. Seria ótimo para Maxim. Espero que não esteja fazendo nada para evitar...” (ah, claro... porque só dependia dela gerar um filho, não? E seria ótimo para Maxim – será que seria ótimo para a esposa? Era essa a vontade dela?).
4- Ou quando Mr. de Winter resolve mostrar que ele sabe o que é melhor para a esposa (afinal, ele é homem, então é óbvio que tem razão): “Bem, um marido afinal de contas, não é muito diferente de um pai. Há certas coisas que é preferível você não saber, e é melhor que fiquem trancadas à chave. E pronto. Como agora o seu pêssego, e não faça mais perguntas – se não quiser que a ponha de castigo no canto.”

Embora a forma forçada como o acaso ajuda o casal a se livrar do passado tenha me incomodado, não chega a comprometer a história. E confesso que as revelações sobre a morte de Rebecca me surpreenderam. Eu não esperava mesmo!

“Deus do céu, eu não queria pensar em Rebecca! Queria ser feliz, fazer Maxim feliz, estar sempre com ele. Não havia outro desejo em meu coração, afora esse. Mas não podia evitar que ela constantemente me viesse ao pensamento, ou que me atormentasse nos sonhos. Não era minha a culpa, se me sentia como hóspede em Manderley – o meu lar, andando por onde ela passara, descansando onde ela descansara. Eu era um hóspede que aguardava a minha hora, que esperava pelo retorno da dona da casa.”

Nota: 4/5

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FILME: Rebecca

Tirando alguns ajustes aqui e ali, o filme do Hitchcock é uma adaptação bastante fiel ao livro (em parte devido ao contrato que limitava suas interferências). A única alteração significativa é o que levou à morte de Rebecca (a mudança consiste em uma frase apenas, mas modifica a natureza da morte e foi feita para evitar problemas com a censura).


Hitchcock já era um diretor consagrado na Inglaterra quando recebeu o convite do produtor David O. Selznick para trabalhar em Hollywood. Seduzido por novos desafios e por uma tecnologia mais avançada do que aquela que costumava usar, Hitch aceita, mas os dois tinham visões e métodos de trabalho muito diferentes, o que gerou muita insatisfação para ambos e muita tensão no set de filmagem. Enfim... “Rebecca”, a estreia de Hitch nos Estados Unidos, foi indicado a onze categorias do Oscar, em 1941, e levou duas estatuetas, incluindo a de melhor filme.


Embora eu tenha achado um trabalho muito bom do diretor, não é dos meus preferidos. Hitch explorou muito bem o tom paternalista irritante usado por Mr. de Winter com a nova esposa. Joan Fontaine consegue passar toda a sensação de não-pertencimento àquele mundo da alta sociedade, o medo que sentia da governanta macabra, os temores com relação ao comportamento explosivo do marido, a ideia de que realmente era uma hóspede em sua própria casa e que estava sobrando no mundo.


Uma das minhas cenas favoritas do filme é também uma das que eu mais havia gostado no livro, quando Mrs. Danvers, a governanta, mostra com orgulho o quarto da ex-patroa que mantinha intacto, como se aguardasse sua volta. Mrs. de Winter vai ficando mais e mais angustiada, se sentindo cada vez mais oprimida por aquela presença fantasmagórica, e a empregada aproveita a perturbação da moça para sugerir que ela salte da varanda. Tenso, muito tenso!


Atmosfera sombria, perturbação psicológica, morte mal explicada... tudo que uma produção de Hitchcock deve ter. Esse cumpre tudo direitinho, mas faltou algo para torná-lo brilhante. Mesmo assim, é uma ótima opção de entretenimento.

Nota: 4/5


Este post faz parte do 'Hitchcock Reading Project'. A lista de livros e suas adaptações com as respectivas resenhas está AQUI.

Este post faz parte do Projeto Vencedores do Oscar, no qual assistirei e postarei comentários sobre todos os agraciados com o Oscar de Melhor Filme. Para ver a lista de filmes e a análise de outros títulos, CLIQUE AQUI ou no banner na barra lateral do blog.

2 comentários:

Lígia Barros disse...

Faz um tempão que quero ler livro e sua resenha me deixou com mais vontade ainda. O filme também parece ótimo!

Michelle disse...

Lígia,
Os dois são muito bons. Vale a pena dar uma conferida :)