domingo, 20 de março de 2016

Desafio 12 Meses de Poe #3 - Hop-Frog

Hop-Frog (em português “Rã Saltadora”) é o nome que o rei dá ao anão que faz as vezes de bobo da corte. Seu nome de batismo e sua terra natal são desconhecidos; só o que se sabe é que ele foi arrancado de seu lar para servir ao monarca, contando piadas e sendo ridicularizado por sua aparência física. Além de ser verbalmente humilhado pelo rei e por seus ministros, Hop-Frog ainda sofria outro tipo de abuso: sua majestade o obrigava a ingerir bebida alcoólica, o que fazia o anão passar muito mal. Um dia, o rei embebedava Hop-Frog numa dessas “sessões divertidas” e Trippetta, outra anã da corte, decide intervir pelo amigo, implorando ao soberano que parasse. Em resposta, é empurrada e tem o conteúdo de uma taça de vinho jogado em seu rosto. Hop-Frog, indignado, parece recuperar momentaneamente a lucidez e inventa uma tradição cômica de sua terra natal, sugerindo ao rei que ele e seus sete ministros se vestissem de orangotangos no baile de máscaras. Como o rei vivia para se divertir, aceita sem pensar duas vezes. Mas o que Hop-Frog tinha em mente não era nada engraçado.

Ilustração de Arthur Rackham, 1935

Embora “Hop-Frog” seja uma história de vingança e eu adore um acerto de contas, não fiquei muito impressionada quando terminei a leitura. Senti falta da tensão crescente, da atmosfera sombria e dos delírios típicos dos personagens do Poe. Depois, comecei a pensar melhor nas escolhas do escritor e o conto foi melhorando significativamente aos meus olhos.

Para começar, há dois anões na história, mas enquanto a moça é representada como uma linda e delicada donzela em miniatura que deveria ser apenas admirada como um objeto de decoração e acariciada como se fosse um animal de estimação, Hop-Frog é descrito como uma aberração da natureza, pois, não bastava ser anão, ainda tinha uma deformação nas pernas que fazia com que ele andasse meio que saltando, como uma rã. Além disso, ele tinha “dentes grandes, poderosos e muito repulsivos” que rangiam. Ele não é um bichinho fofo e dócil como Trippetta; ele é visto como um ser bestial. O fato de ser conhecido apenas por seu apelido reforça ainda mais a forma como o rei enxergava Hop-Frog: uma coisa.

Já o monarca e seus ministros são “homens grandes, corpulentos e gordos” que gostavam de rir de tudo e tinham predileção por piadas que envolvessem a degradação de outras pessoas, já que não eram muito refinados e não conseguiam captar ironias. Poe observa criticamente que, embora o rei estivesse longe de ser um modelo de inteligência, bons modos e beleza, “a corte inteira declamava que seu soberano era um homem muito bonito”, ou seja, o poder torna tudo belo.

Outro ponto interessante é que enquanto Hop-Frog é descrito como uma pessoa com limitações físicas, mas com uma mente brilhante, o rei e seus ministros, que tinham todas as condições físicas e sociais para buscar a sabedoria e a iluminação, não conseguem superar suas limitações cognitivas e seu preconceito - não conseguem enxergar além. A escolha de orangotangos como fantasia do monarca e de seu séquito também não é aleatória: os seres humanos que tinham tudo para ser os mais evoluídos da sala revelam ser apenas primatas selvagens.

Sobre a vingança em si, não vou falar para não estragar a surpresa. Mas quero comentar que, enquanto eu procurava imagens para ilustrar o post, caí na página da Wikipedia, e, segundo consta, há rumores de que Poe escreveu essa história para se vingar de Elizabeth Fries Lummis Ellet, uma outra escritora de sua época, que o perseguia com cartas anônimas alegando um romance – parece que a esposa de Poe, que já estava doente na ocasião, ficou sabendo dessas cartas e disse que a tal escritora a estava matando. Tenso, não?

Rumores à parte, achei interessante a contraposição que Poe fez entre habilidade física e mental e sobre a capacidade das pessoas de superar obstáculos.

“Houve um silêncio mortal, que durou por um meio minuto, durante o qual a queda de uma folha ou o flutuar de uma pena poderiam ser escutados. Foi interrompido por um som rascante, baixo, mas áspero e prolongado, que parecia se originar ao mesmo tempo em cada canto da sala.”

Nota: 3,5/5


Esta postagem faz parte do desafio ‘12 Meses de Poe’, criado pela Anna Costa. Para ver o post de apresentação do desafio e uma lista de todos os contos lidos e resenhados aqui no blog, clique AQUI.

4 comentários:

Jeniffer Geraldine disse...

Queria participar desse projeto mas o início do ano foi complicado e não me organizei. Só que semana passada, enquanto estava estudando, encontrei um autor que fez referência ao conto O homem na multidão. Peguei pra ler. Quem sabe assim me empolgo e começo de vez o projeto (mesmo pela metade) rs

Beijos

www.jeniffergeraldine.com

Lígia Barros disse...

Não gosto muito dos contos do Poe, mas esse me deixou curiosa, exatamente porque parece não seguir o estilo sombrio do autor.

Michelle disse...

Jeniffer,
Pode começar o projeto a qualquer momento, sem problema. O bom é que são contos curtinhos e dá para encaixar entre as outras leituras :)

Lígia,
Eu curto o estilo sombrio do Poe, mas tenho descoberto novas facetas do autor nesse projeto. Muito interessante.

Anna Costa disse...

Querida Michelle, obrigada por continuar participando do projeto, é por vocês que ele existe!
A sua resenha linda está linkada no meu blog e logo logo vai pro facebook do projeto!

Beijos!

Meu blog: Anna Costa