terça-feira, 15 de março de 2016

Resenha: Vasto Mundo


“Eu os conheço a todos. Reconheço-os pelas pisadas e por elas sei de seus humores, de seus sentimentos, de suas urgências, preguiças, de seu contentamento ou aflição. Sei de sua grandeza e mesquinhez. Leio seus passos quando apenas roçam minhas lajes em corridas alegres de pés pequenos ou quando me oprimem com o peso de vidas inteiras. Foi seu tropel incessante que me despertou do meu sono de pedra. Só eu os conheço a todos porque só eu estou sempre neles como eles estão em mim. Eles me criaram e agora eu os crio. Quero-os como são porque quando eles deixarem de ser, tampouco eu serei. Não os posso fazer como eu os quisera, sempre formosos, felizes, generosos e livres, mas como mãe os crio, tais quais me vieram acolho-os. Sou seu chão, vejo tudo e não os julgo, sei apenas que são humanos e me comovem. Pela linguagem de seus pés, vou desenleando suas histórias uma a uma. Vivem eles mesmos, a vida toda, a narrar, narrar-se, passado, presente e futuro. Meus ouvidos de terra, pedra e cal ouvem, e aprendo. Creio ter compreendido que nisto consiste o serem humanos, em poderem ser narrados, cada um deles, como uma história.”

Com o trecho acima, começa “Vasto Mundo”, livro de estreia de Maria Valéria Rezende, escritora que só descobri porque ganhou, com outra obra (“Quarenta Dias”), a última edição do Prêmio Jabuti de Melhor Romance. E então fiquei com vontade de ler o livro vencedor, mas tinha na fila de leitura títulos de clubes de livro de que participo, mais alguns de desafios literários e projetos pessoais e ainda outros de um curso que estava fazendo – resultado: bateu uma forte ressaca literária e travei. Resolvi, então, começar a ler “Vasto Mundo”, porque era uma forma de conhecer a escrita da autora e porque eram contos curtinhos, o que sempre ajuda nos momentos de incapacidade de concentração. Felizmente para mim, fiquei tão encantada com as histórias e com os personagens que maldição da ressaca literária passou!

O cenário de todas as histórias é o povoado fictício de Farinhada, na Paraíba, e nas imediações. Ali naquele cafundó, o tempo escoa devagar, a rotina não parece incomodar, as pessoas são pacíficas e a vida segue seu curso sem grandes turbulências. Não que seja um lugar livre de problemas; o dia a dia é uma batalha constante para botar comida na mesa, para conseguir melhorias mínimas junto ao patrão, para fazer valer seus escassos direitos.

Apesar de retratar as dificuldades do povo valente de Farinhada e de fazer duras críticas à organização social e política do país, em momento algum o texto soa ostensivamente panfletário. Pelo contrário, o foco, como indica o trecho que inicia este post, são as pessoas e suas individualidades, suas narrativas e como elas se entrelaçam para contar a história de um povoado inteiro.

A linguagem simples que se aproxima da oralidade ajuda a criar uma empatia com os personagens, e narrador está sempre tão próximo dos protagonistas que às vezes é impossível saber se o que nos é mostrado é a visão de um ou do outro. A sensação que tive ao adentrar o universo criado por Maria Valéria nesse livro foi de voltar à infância e reencontrar a magia nas páginas de “O Sítio do Pica-pau Amarelo”. Minha memória puxou ainda personagens míticos criados por Jorge Amado (pelo menos o que conheço pela versão eternizada pelas novelas da Globo). Fato é que me envolvi tanto que, quando percebi que já estava no fim da leitura, comecei a enrolar para que não acabasse de vez. 

Por ser um livro delicioso que resgata sentimentos da infância e cura ressaca literária, mais que recomendo a leitura!

Nota: 5/5

2 comentários:

Aline Aimee disse...

Uau!
Li "Quarenta Dias" e amei também, me apaixonei pela protagonista-narradora.
Estou com Vasto Mundo no kindle e já quero pegar pra ler.
Parece que ambos exploram essa abordagem social, coloquialidade e personagens carismáticos.
Como estou lendo noventa coisas ao mesmo tempo, contos curtos virão vem a calhar entre uma leitura e outra.

Beijo!

Michelle disse...

Aline,
Estou num misto de "quero ler os outros" com "não quero ler tudo de uma vez"... rs. Mas é inegável que lerei os outros. São bons demais para serem ignorados, né?