sábado, 5 de março de 2016

Veja Mais Mulheres - Filme #9: Cinco Dias Sem Nora


José (Fernando Luján) descobre que a ex-esposa se suicidou. Ele avisa o filho, que estava curtindo férias com a família fora do país, e liga para o médico. Recebe, então, a visita inesperada do Rabino Jacowitz (Max Kerlow), que diz que se a morta não fosse enterrada ainda naquele dia, só poderia ser sepultada quatro dias depois, devido à celebração da Páscoa Judaica. Dividido entre o peso de ter que aguardar a volta do filho para o enterro segundo os princípios judaicos e a vontade de resolver logo a situação, José tenta lidar com assuntos burocráticos, religiosos e fantasmas do passado.


Nora (Silvia Mariscal) pensou em todos os detalhes antes de se matar: organizou fotos, escreveu cartas, deixou instruções para o preparo das comidas típicas a serem servidas na Páscoa, abasteceu a despensa com tudo que seria necessário, etiquetou todos os recipientes da geladeira com o que continham e a quem eram destinados. No entanto, em vez de enxergar o cuidado da ex-mulher para com aqueles que continuam vivos como um gesto generoso, já que ela, mais uma vez e nos momentos finais de sua existência, preferiu se colocar em segundo plano, José decide que ela fizera tudo de modo friamente calculado só para causar a ele mais aporrinhação.


Durante quase todo o filme, só o que José faz é reclamar, tentar impedir que as instruções da falecida fossem seguidas, evitar que as últimas vontades dela fossem realizadas; ele se mostra extremamente egoísta e grosso com as outras pessoas, chegando a ofender deliberadamente o Rabino e o pessoal encarregado preparar o corpo. Os únicos momentos em que ele não pensa apenas em si mesmo são aqueles em que brinca com as netas. Mesmo sabendo que a ex-esposa tinha problemas e que já havia tentado se matar outras vezes, ele nunca parece se importar com o que ela havia sofrido, com o que ela poderia ter sentido – o foco é sempre ele: por que ela o estava punindo?; por que ela sempre lhe causara preocupações?; por que ela decidira se matar agora?; que segredos ela escondera dele a vida toda?


O mais curioso é que nada sabemos sobre Nora – apenas que tinha tendências suicidas. Não sabemos do que ela gostava ou desgostava, de como fora sua vida (exceto por alguns flashes de quando ela era jovem), se tinha amigos, se ela tinha uma religião (embora as pessoas briguem por isso). Não sabemos nada. Parece que, mesmo em vida, ela sempre fora um corpo inerte que as pessoas jogavam de um lado para o outro.


Apesar do assunto pesado e do protagonista egoísta (que faz as pazes com o passado, com os familiares e consigo mesmo no final), o filme tem alguns momentos engraçados (como quando José começa a trocar as etiquetas dos potes de comida na geladeira numa atitude infantil), mostra como é difícil entender e respeitar a fé alheia e como, às vezes, a religião também impõe dogmas que parecem desconsiderar completamente o sofrimento das pessoas (como Nora se matou, só poderia ser enterrada numa área destinada a suicidas e assassinos do cemitério judaico; apenas um rabino aceitou enterrá-la no túmulo da família, indo contra os preceitos da religião e dizendo que não cabia a ele julgar as ações da falecida – palmas para ele!).

Uma boa história contada em um ritmo lento, mas não entediante.

Nota: 3,5/5
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Sobre a diretora:

Mariana Chenillo é uma roteirista e diretora mexicana. Foi a primeira mulher a ganhar um prêmio Ariel (o ‘Oscar’ mexicano) de Melhor Filme, em 2010, com ‘Cinco dias sem Nora’, sua estreia na direção (que também levou vários outros prêmios). Seu filme mais recente, ‘Paraíso’, fala de um tema polêmico e atual: a gordofobia.

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Este post faz parte do projeto Veja Mais Mulheres, criado pela Cláudia Oliveira. Para ver o post de apresentação que inclui minha lista de filmes e os links para as respectivas postagens, clique AQUI. 


4 comentários:

A Mulher que Ama Livros disse...

Vou ver na próxima semana. :)

A Mulher que Ama Livros disse...

Já tenho o filme, mas não encontro legendas :/

Tati disse...

Amei, Mi! Cinema latino-americano e uma diretora mulher, duas coisas que ando procurando :) vou ver! beijos!

Michelle disse...

Cláudia,
Eba! Aguardo sua opinião :)

Tati,
Uma combinação interessante e rara. Vamos trocando figurinhas sobre os achados.