sábado, 28 de maio de 2016

Resenha: O Assassino Cego


Vocês já tiveram aquela sensação de que iam gostar de um livro, filme, autor mesmo antes de ter tido contato com qualquer trabalho dele? Eu já senti isso algumas vezes. Com Margaret Atwood foi assim. Eu SABIA que ia gostar da escrita dela. No ano passado, li “O Conto da Aia” e comprovei o que instintivamente sentia. Decidi que precisa ler tudo dela. Este ano, entre janeiro e fevereiro, me joguei em mais uma leitura compartilhada com a Lulu (vejam a resenha dela AQUI) minha parceira de adoração à Atwood. Lemos “O Assassino Cego”, que só fez aumentar minha admiração pela autora canadense.

Infelizmente, não tenho como falar nem a metade do que gostaria neste post. Primeiro, porque não tive a oportunidade de escrever sobre o livro logo que terminei a leitura, e, com o tempo, as lembranças foram ficando meio borradas. Segundo, porque é um livro com muitos detalhes, MUITOS mesmo. Para começar, tem a estrutura não-linear da história, que, no início, mistura notícias da morte de alguns dos personagens publicadas em jornal com uma pequena informação sobre essas pessoas. Depois que, como a história abrange o período de várias gerações da família Chase, tem gente pra caramba, e as mulheres da história vão trocando de sobrenome conforme vão se casando (o que me deixou bem confusa no início – tive que montar uma árvore genealógica num papel para não me perder! Hahaha). Como se isso tudo não bastasse, "O Assassino Cego" é não apenas o título da obra da Atwood, mas também o nome do livro publicado por uma das personagens – ou seja, uma narrativa dentro da outra. Já viram que não é tão simples de explicar, né?

No entanto, apesar de exigir muita atenção do leitor, é uma história incrível. De forma bem simplificada, é o seguinte: Laura morre em um acidente de carro que talvez possa ter sido suicídio, e Íris, sua irmã, organiza e publica postumamente o livro que a outra havia escrito. Ao mesmo tempo em que é um sucesso de vendas, “O Assassino Cego”, livro de Laura, também desperta a raiva e a indignação dos moradores da cidadezinha de Port Ticonderoga, porque conta a história de uma moça que se encontrava em quartos de hotel baratos com um rapaz idealista e rebelde que escrevia ficção científica. Pelo teor ousado para a época, a população passa a criticar a autora, filha de um famoso industrial local. Mas como a escritora estava morta, o alvo dos ataques acaba sendo sua irmã, Íris.

Na casa dos 80 anos, Íris está cansada. Cansada de ter que aguentar os comentários maldosos e os olhares recriminadores dos vizinhos. Cansada de ter se anulado a vida toda para agradar aos outros (o pai, o marido). Cansada de ter tido sempre que proteger a irmã (vista como sensível, ingênua, estranha). Cansada de tanto sofrimento na família. Cansada de ter que lidar com tantos segredos e carregar tanto peso sozinha. E então ela resolve desabafar. Ela começa a escrever a história da família, desde o tempo de sua avó Adelia (a quem sempre admirou), passando pela mãe e sua morte precoce, pela infância e juventude dela mesma e da irmã Laura (e tudo o que as uniu) e um pouco sobre sua filha e sua neta. Ela nem sabe, no fundo, se escreve para que outra pessoa leia ou para aliviar sua alma, mas escreve mesmo assim. E, como no fim da vida não se tem mais nada a perder, ela mete o dedo em muitas feridas.

Para mim, o mais importante é a relação entre as irmãs. Enquanto Íris é carrancuda, cética, teimosa e prática, Laura é a menininha bonita e sonhadora, curiosa, que não sabe lidar com abstrações e sofre diante das injustiças do mundo. Apesar de terem temperamentos tão diferentes, Íris, que com razão se irritava às vezes por ter que zelar sempre pela irmã mais nova, nunca a abandonou (embora carregue uma culpa enorme por alguns eventos do passado – que, ao meu ver, estavam fora de seu alcance).

A história de ficção científica, criada durante os encontros dos amantes, é bem maluca, mas é no meio desse enredo rocambolesco e futurista que Atwood solta as maiores críticas à sociedade, especialmente à forma como a mulher é tratada. Além disso, vem daí também uma pista importante, que me ajudou a desvendar o mistério do livro como um todo. Quem está contando a história de quem? As falsas aparências dão o tom à narrativa.

Outra personagem que merece destaque é Reenie, a empregada dos Chase que começou a trabalhar na casa no início da adolescência, ainda na época da avó das meninas. Foi ela quem praticamente criou Laura e Íris, é pela boca dela que as garotas conhecem o passado de sua própria família e também é dela que ouvem os conselhos de como uma mulher deveria ser portar (tudo o que há de mais machista com relação ao papel reservado ao sexo feminino é reproduzido com naturalidade por aquela mulher simples que, mesmo só tendo a intenção de proteger as meninas, nunca parou para pensar no absurdo de seu discurso) – conselhos que Laura e Íris seguiram com empenho, mas que agora, no fim da vida, Íris se arrepende de ter ouvido.

Como eu disse lá no comecinho do post, não tenho como expressar o quanto esse livro é maravilhoso. Apenas recomendo fortemente a leitura. Eu já estou programando meu próximo encontro com Atwood! :)

Nota: 5/5

“Eu fiz treze anos. Eu estava crescendo, e embora não pudesse controlar este processo, ele parecia aborrecer a papai como se a culpa fosse minha. Ele começou a se interessar pela minha postura, pela minha maneira de falar, pela minha conduta em geral. Minhas roupas tinham de ser simples e feias, com blusas brancas e saias escuras xadrez, e vestidos de veludo para ir à igreja. Roupas que pareciam uniformes – que pareciam roupas de marinheiro, mas não eram. Meus ombros tinham que ser retos, sem nenhuma curvatura. Eu não devia me espreguiçar, nem mascar chiclete, nem me remexer, nem conversar. Os valores que ele exigia eram aqueles do Exército: ordem, obediência, silêncio e nenhum sinal visível de sexualidade. Sexualidade, embora nunca fosse mencionada, era para ser podada ao nascer. Ele havia me deixado livre tempo demais. Estava na hora de me disciplinar.
Laura também sofreu parte desta implicância, embora ainda não tivesse chegado na idade. (Que idade era essa? Agora é muito claro para mim que se trata da puberdade. Mas na época eu fiquei meramente confusa. Qual o crime que eu havia cometido? Por que estava sendo tratada como uma interna de um estranho reformatório?)
– Você está sendo muito duro com as garotas – Callista dizia. – Elas não são meninos.
- Infelizmente – papai respondia.”

5 comentários:

Marta Skoober disse...

É linda essa capa.
Mas uma maricas como eu talvez não encare um título desses. :(

lulunettes disse...

Adorei o “parceira de adoração à Atwood” (^_^) Somos praticamente um fã clube hahahaha.
Michelle, sua resenha está ótima! Um livro difícil de discutir, você conseguiu escrever suas impressões de forma instigante. Pois é, “O Assassino Cego” é tão complexo que até nas nossas conversas ficamos perdidas, rs. Achei interessante a sensação que este livro nos trouxe, mesmo que boa parte das nossas impressões esteja no fundo da memória. Concordo, em toda a narrativa o destaque, e acredito que a chave para todos os mistérios, é a intensa relação das irmãs. Sobre Reenie, tenho queixas, mas simpatizei com ela naquele episódio do professor abusar de Laura. Reenie acreditou nas meninas e foi uma figura adulta essencial naquele momento. Michelle, agradeço de coração a companhia! Foi uma ótima leitura compartilhada =D
Logo encontraremos Margaret Atwood!!! (\^0^/).
Beijão!

livroseoutrasfelicidades disse...

Esse livro é um dos meus preferidos de todos os tempos. É brilhante!

Lígia Barros disse...

O livro parece ser ótimo! Depois de ler e gostar de "O conto da aia", fiquei com vontade de ler outros livros da autora, acho que esse será o próximo. :)

Michelle disse...

Marta,
Pode encarar porque é uma história sobre relacionamentos familiares, não tem nada de tão violento/assustador quanto o título sugere.

Lulu,
Adoro nosso fã-clube... hahaha
Já aguardo novas leituras.

Julia,
Brilhante mesmo! <3

Lígia,
Acho uma ótima opção como segundo livro da autora. Para mim, conseguiu manter o nível.