terça-feira, 20 de setembro de 2016

Resenha: O Leitor do Trem das 6h27


Guylain Vignolles é um cara sem nada que chame a atenção, além de seu nome estranho que significa algo como “palhaço feio” e lhe rende inúmeras zombarias desde criança. Aos trinta e poucos anos de idade, ele leva uma vida monótona e solitária, e seus únicos amigos são seu peixinho dourado de estimação, Yvon – o vigia que adora se expressar em versos alexandrinos, e Giuseppe – o ex-funcionário que teve as duas pernas amputadas por uma falha da enorme máquina de triturar livros apelidada de A Coisa. Amante das palavras, Guylain, ao fim do expediente, salva algumas páginas que ficam presas no fundo da máquina e as guarda em uma pasta para lê-las aleatoriamente em voz alta todos os dias no trem das 6h27. No entanto, um dia ele encontra no vagão um pen drive e, ao ler os documentos ali armazenados, se encanta pela escrita daquela autora desconhecida e passa a ter como objetivo conhecê-la.

A vida do protagonista é um tédio só: do trabalho para casa, de casa para o trabalho. Diariamente, ele segue a mesma rotina, executa os mesmos movimentos, realiza suas tarefas com repugnância e dor no coração diante das toneladas de livros que A Coisa devora e defeca. Até mesmo as leituras que faz religiosamente no trem – o ponto alto do seu dia – são feitas mais como parte do ritual, mecanicamente, sem emoção ou interação com os demais passageiros. Sua solidão fica mais evidente ainda quando se reflete no pobre peixinho dourado que nada em círculos sem parar.

Guylain é invisível. Na empresa ele é visto como apenas mais uma peça da engrenagem da máquina monstruosa; no trem ele não passa de mais um evento cotidiano que tem hora para começar e acabar. Da primeira vez em que é enxergado e arrancado do anonimato, ele toma um susto. Não esperava ser abordado pelas duas velhinhas do lar de idosos que lhe param na rua para elogiar as leituras e pedir que fosse ler alguns textos para os outros moradores do asilo. Ele ganha, então, uma individualidade e uma importância e passa a ter algo por que ansiar.

Quando acha o pen drive, Guylain descobre entre os 72 arquivos com extensão .doc uma outra pessoa que parecia ser tão solitária e invisível quanto ele: uma moça que trabalha como zeladora de banheiro em um shopping movimentado da capital francesa. Perspicaz e com uma capacidade de fazer os comentários mais ácidos, ela passa os dias limpando a sujeira alheia, aguentando insultos e fingindo ser imbecil (aliás, ela me lembrou muito a personagem Renée, de ‘A elegância do ouriço’, zeladora de um condomínio de luxo parisiense que era cinéfila e grande fã de autores russos, mas que fingia ser ignorante para se encaixar no estereótipo).

Peguei esse livro para ler porque queria algo leve, tanto no texto quanto no formato do exemplar, e também porque sabia que se tratava da história de um homem apaixonado pela leitura. A história, embora simples, é envolvente, mas por trás da aparente leveza nos apresenta a realidade cruel daqueles que são considerados cidadãos de segunda classe, dos que realizam serviços que ninguém quer fazer, de pessoas que já deram seu melhor à sociedade e agora vivem isoladas e à margem esperando a hora de partir, daqueles que literalmente deram pedaços de si mesmos às empresas e então foram jogados para escanteio por perderem a utilidade.

Mas não é só isso. É uma história sobre o poder transformador e de união da literatura, sobre dar um sentido à vida, sobre o amor. E tem umas partes bem engraçadas, como, por exemplo, os "tialogismos" (aforismos da tia da zeladora do banheiro) e um trecho em que Guylain está lendo no asilo e uma das velhinhas pede para assumir a palavra. Ela continua lendo a página recolhida ao acaso pelo operador da máquina e ele começa a suar frio quando percebe se tratar de uma história erótica. Desesperado, tenta interromper a leitura, mas a senhora continua, empolgadíssima, e, no, fim, os idosos saem mais felizes do que nunca da sessão. Tive que me segurar para não começar a rir sozinha no metrô com a descrição da cena.

“O leitor do trem das 6h27” é um livro curto e delicioso de ler que indico a todos os amantes dos livros e de boas histórias.

Nota: 4/5

"O homem examinou minuciosamente as folhas que havia tirado de sua bolsa até o trem chegar à estação. Enquanto o vestígio das últimas palavras pronunciadas desvanecia em seu palato, ele observou os outros passageiros pela primeira vez desde que entrara no vagão. Como quase sempre, descobriu decepção em seus rostos, até mesmo tristeza. Isso durou apenas o tempo de um resfolegar. O vagão se esvaziou rapidamente. Na sua vez, ele se levantou. O banco retrátil deu um estalo seco ao se dobrar. Claquete para o fim da cena. Uma mulher de meia-idade lhe disse um discreto obrigada ao pé do ouvido. Guylain sorriu para ela. Como explicar àquelas pessoas que ele não fazia isso por elas? Deixou com resignação a tepidez do vagão, abandonando as páginas do dia. Gostava de saber que estavam lá, delicadamente colocadas entre o assento e o encosto do banco retrátil, longe do tumulto destruidor do qual haviam escapado."

3 comentários:

Marta Skoober disse...

Quando li Cotoco eu não resistia e gargalhava onde estivesse, mais de uma vez vi gente me olhando esquisito, mas eu não conseguia me controlar.
E O caçador de pipas me fez soluçar (de chorar) dentro do ônibus, imagina as caras de quem via aquela maluquice.
PS. Não resisto quando alguém diz que riu lendo um livro, então esse aí vai para a minha listinha de futuras aquisições.

Carissa Vieira disse...

Concordo completamente.
É um livro curtinho, mas tão cheio de questões. E tudo tratado de maneira tão singela.
B
Bjs!

Michelle disse...

Marta,
Até que fui bem em não sair gargalhando no meio do vagão. Acho que só fiquei rindo discretamente. Mas quando li "Marley e eu", chorei loucamente no metrô... hahaha

Carissa,
Exatamente. A simplicidade me cativou :)