terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

DL2013 / DRD2013: Cotoco (John van de Ruit)



A história se passa em 1990, na África do Sul. Para John Milton, esse foi um ano de grandes mudanças: libertação de Nelson Mandela e ingresso no internato só de garotos para cursar o ensino médio. Na escola, ele e mais sete companheiros de alojamento, conhecidos como “Oito Loucos”, ganham experiências acadêmicas e sentimentais, vivem grandes aventuras, participam de competições de rúgbi e críquete, conhecem um pouco mais da história de seu país, e, sobretudo, desenvolvem uma sólida amizade.

Eu queria ler “Cotoco” desde o ano passado, quando selecionei o livro para o mês dos Autores Africanos do Desafio Literário 2012. Infelizmente, não consegui ler no prazo e o livro ficou na estante. Este ano, achei que seria apropriado lê-lo para a categoria 'Livros que nos façam rir', embora tivesse sérias dúvidas de que a leitura seria realmente engraçada. Depois de várias recomendações, resolvi encarar. E qual não foi minha surpresa ao me pegar sorrindo em várias partes da história! 

John Milton, 13 anos, vulgo 'Cotoco' (apelido que recebeu dos colegas não só devido à sua baixa estatura, mas principalmente ao seu órgão sexual parecido com “um casulo de bicho-da-seda nanico e anoréxico”), coloca em seu diário tudo o que passa por sua cabeça. São essas anotações que lemos. Essa forma de narrativa escolhida pelo autor é perfeita para abordar com leveza e humor assuntos sérios do cotidiano de jovens garotos: as mudanças físicas e mentais, a descoberta do amor e da sexualidade, as ameaças dos valentões da escola, a quebra de regras da instituição, a construção da autoconfiança frente ao desconhecido, e, no caso específico dos personagens de “Cotoco”, a segregação entre brancos e negros imposta pelo “apartheid” e o medo do “comunismo” alimentado pelos cidadãos brancos após a libertação de Mandela.

“O chefe da nossa ala é P. J. Luthuli, um garoto negro incrivelmente sério que se veste de modo impecável. Ele nos passa algumas informações importantes sobre a escola, coisas como ‘ Não pode correr no pátio’ ou ‘Não pode pisar na grama’. Depois manda a gente se preparar para dormir. Acho que é a primeira vez que recebo instruções de uma pessoa negra”.

Com uma linguagem simples, os acontecimentos são apresentados sem pudores, como se de fato estivéssemos lendo um diário. Os comportamentos típicos masculinos também são fielmente descritos no livro: apelidos, castigos físicos, brigas, piadas sexuais, trotes, coisas nojentas como campeonato de peido, obsessão por mulheres mais velhas (Cotoco é apaixonado pela Julia Roberts e os estudantes babam pela professora de teatro).

Outra coisa que observei foi que os adultos da história nem sempre se comportam como tal e muitas vezes têm atitudes moralmente questionáveis: os pais de Cotoco e seu professor preferido, Guv, estão frequentemente bêbados; o pai de Cotoco é paranoico, vive brigando com o vizinho (tendo, inclusive, atropelado os cachorros do desafeto) e morre de medo que os negros assumam o poder (chega a montar trincheira no próprio jardim, compra armas e monta uma milícia com outros moradores para se defender do ataque dos “inimigos”); os pais de outros alunos viajam o tempo todo e deixam os filhos fazer o que querem; a professora de teatro trai o marido com um aluno.

“Cheguei à conclusão de que sou uma ilha de sanidade cercada por um mar de gente maluca. Por outro lado, é exatamente isso o que diria um maluco de hospício. A todo instante me pego olhando no espelho à procura de sinais de loucura: um olho que treme, um fiapo de espuma que escapa da boca.”

Entre treinos com a equipe de críquete e discussões de clássicos com o professor de literatura, entre mergulhos noturnos proibidos e ensaios para a peça da escola, entre feriados com sua família desequilibrada e investigações sobre o fantasma de um ex-professor que assombra a escola, entre o amor pela namorada e a atração por outras garotas, entre a alegria da ascensão de um novo regime político e o temor de um futuro incerto, entre as gozações dos outros estudantes e a união com os colegas de quarto... entre todas essas coisas se passa 1 ano e, durante esse período, acompanhamos as alegrias e tristezas típicas da adolescência. Uma história emocionante que faz rir e chorar.

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Este post faz parte do Desafio Literário 2013 - Mês de Fevereiro: Livros que Nos Façam Rir. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DL2013, clique AQUI.


Esta postagem também faz parte do Desafio Realmente Desafiante 2013 - Item 13: Ler um livro com a capa entre bege e marrom. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DRD2013, clique AQUI.

7 comentários:

Patrícia Di Carlo disse...

Ficou ótima a sua resenha, Michelle! ;)

Xerinhos
Paty

Flávia disse...

Uma coisa que me deixou orgulhosa é que Cotoco não é racista, mesmo em meio a o ambiente familiar propício a isso. Crianças só tem esse tipo de comportamento quando seriamente influenciadas.

O fato de ser um diário de uma garoto de 13 anos nos dá uma perspectiva bem peculiar.

Beijos

Gustavo disse...

Lendo a sua resenha a gente percebe quantas histórias há em COTOCO. Vc captou bem cada uma delas na sua resenha, demonstrando bem tudo o que o livro nos passa, nos fazendo rir e chorar.
Fiquei rindo ao relembrar “um casulo de bicho-da-seda nanico e anoréxico” rsrs
Parabéns! Como sempre sua resenha é muito boa!

Tati disse...

Eu li Cotoco também para o Desafio e gostei muito. Também tinha um certo receio quanto à parte engraçada porque não sou uma pessoa fácil de rir com algo já pronto. Eu rio muito da espontaneidade, das coisas que aparecem de forma gratuita e não de piadas prontas. E justamente por isso eu ri muito em Cotoco, porque ele transcreveu as coisas de forma bastante natural, como um menino faria. O que deixou a leitura leve, apesar dos temas díficeis abordados no livro. Como você disse, para rir e se emocionar ;)
Adorei demais a resenha, extremamente bem escrita!

Michelle, fugindo do assunto do post, eu fui pega de surpresa porque o hotmail não está mais sendo acessado. Vi seu e-mail sobre o Sopa de Letras no celular no trabalho e ia responder quando chegasse em casa, mas não estou conseguindo entrar por causa da tal migração do hotmail para o outlook! Eu a única pessoa no mundo que não sabia... Eu vou esperar até amanhã para ver se ele migra, senão eu faço outro e-mail e te mando os dados certo??

Beijo enorme!

Claudia disse...

Eu li ano passado e ADOREI Cotoco!
Adorei a resenha tbe, Michelle.
Bjks mil

Angélica Roz disse...

Oi Michelle!

Esse livro é bom demais! Adorei a leitura!
Pois é... a maioria dos adultos do livro são mais loucos que as crianças! O.O Hehe!
Achei esse livro super sensível e uma leitura muito gostosa! :)
Não sei como o deixei parado na estante por tanto tempo...

Beijos!

Michelle disse...

Tks, Patrícia!
Aliás, vi o filme e gostei bastante, viu?

Flávia,
Ele é muito equilibrado, considerando a família disfuncional, os amigos doidos e o professor alcoólatra.

Gustavo,
São muitas coisas bacanas no livro. Eu fiquei com dó do Cotoco, mas garotos são bem cruéis mesmo, né?

Tati,
Achei apaixonante. Me fez rir e chorar com a mesma naturalidade.

Clauo,
Obrigada ;)

Angélica,
Acho que você enrolou para começar a ler pelo mesmo motivo que eu: não botava fé que fosse tão bom quanto dizem. Mas que bom que no fim valeu a pena!