segunda-feira, 29 de julho de 2013

Resenha: Valsa Negra


“Preparei um copo com gelo e me servi de Coca-Cola. Estava em paz finalmente. Ao longo dos anos, inventara um método bastante eficiente para conseguir uma certa tranquilidade. Morrer de trabalhar, essa era minha técnica. Enterrar-me na orquestra, resolver todos os problemas, falar ao telefone, arranjar dinheiro, gritar, contratar, despedir, montar um time de futebol, ter como rotina uma agitação louca, como se dependesse dessa dinâmica para me manter à tona. Eu me sentia como um liquidificador triturando alimentos. Um avião no céu. Uma hélice girando. No fim do dia, atingia aquele estágio em que exaustão e paz são quase a mesma coisa”.

O narrador é um maestro de prestígio que trocou o primeiro casamento, estável e entediante, pela aventura e pela impetuosidade da união com uma pessoa 30 anos mais jovem. No entanto, como ele mesmo percebe em pouco tempo, não é nada fácil ser casado com uma mulher tão nova. Em parte, tal dificuldade se deve à diferença de idade e de energia; em parte, porque o ciúme começa a sufocar a vítima com seus tentáculos vigorosos.

Segundo o verso de Catulo, usado como epígrafe do romance, “O ódio é indistinguível do amor”, e é exatamente isso que podemos perceber nas atitudes do nosso protagonista. Ele ama intensamente Marie, a nova esposa, mas tem uma ideia fixa de que ela o trai. As “evidências” da traição ele encontra por toda parte: nas roupas que ela usa, nos telefonemas que ela faz, nos contatos profissionais que ela mantém, nos trechos grifados dos livros que ela lê. A obsessão pela amada é tão grande que ele deseja quebrar uma perna ou adoecer gravemente para poder ficar em casa e seguir seus passos.

O ciúme doentio do maestro, que, no início, parecia ser apenas uma demonstração exagerada de paixão que excitava Marie, aos poucos assume de vez a forma de loucura, um TOC, segundo seu psicanalista. Ele não tem mais paciência para lidar com questões de trabalho (o que se agrava pelo fato de Marie ser violinista de sua orquestra), suborna a empregada para espionar a esposa, ignora todas as tentativas de aproximação de sua filha adolescente do 1º casamento, se isola em sua paranoia.

Para piorar, tudo isso acontece numa época em que Marie está se descobrindo como judia, após ter viajado para Israel. Para ela, nascida e criada em São Paulo, ser judia era apenas um sinônimo de ser rica. A aproximação com suas raízes é um dos motivos principais que geram a crise de ciúme do marido, que se sente cada vez mais excluído.

Enfim... a história é um mergulho na mente de um ciumento crônico cuja doença é tão devastadora quanto um câncer. Foi extremamente angustiante partilhar dos pensamentos obsessivos do protagonista e acompanhar a destruição causada não apenas em sua vida, mas também na de muitas pessoas que estavam ao seu redor. Como em uma valsa, o maestro ia e vinha, oscilando entre a sanidade e a insensatez, rodopiando em uma espiral que, desde o início, apontava para um final trágico.

Este foi o primeiro livro que li da Patrícia Melo e, como esperado, foi uma ótima experiência. Definitivamente, preciso ler os outros!

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Este post faz parte do Desafio Literário 2013 - Mês de Julho: Livros com Cor(es) no Título. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DL2013, clique AQUI.


Esta postagem também faz parte do Desafio Realmente Desafiante 2013 - Item 11: Ler um livro nacional. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DRD2013, clique AQUI.

5 comentários:

schrotz disse...

Antes de tudo, agradeço por ter dito palavras maravilhosas pra mim. Mesmo.
E também agradeço por ter me apresentado a esse livro, porra! Eu sinceramente não teria dado muita atenção a ele se não fosse por isso e que resenha maravilhosa, fora que o livro deve ser incrível. Acho que esse mergulho tão intenso na mente de um personagem tão atormentado assim deve ser no mínimo inspirador e assustador ao mesmo tempo. Não sei bem, mas me interessei tanto por esse livro! Acho que agora vejo a beleza da capa que antes eu não via.
Enfim, boa semana!!!

Igor Gouveia disse...

Michelle :)

Esse livro parece mesmo muito bom. Gosto muito do jeito que você costuma escrever suas resenhas. Sério. Ah, fiquei com vontade de lê-lo, claro.

Abraços,
Igor Gouveia
http://www.diariodebordodeumleitor.com/
(Espero seu comentário lá.)

Lígia disse...

Nunca tive muito interesse em ler algo da Patrícia Melo, mas sua resenha me deixou curiosa. Pelo que sei, a autora é casada com um maestro, então quanto será que há de autobiográfico nesse livro? :P

Melissa Padilha disse...

Oi Michelle !
Nossa a história realmente parece angustiante. Esse tipo de temática gera em mim ao mesmo tempo angustia e uma ânsia para terminar o livro para saber o que é acontece, é interessante isso porque é o ódio e o amor juntos kkk
Ainda não conheço essa autora, mas anotada como sugestão!
abraços
Melissa

Michelle disse...

Schrotz,
Você escreve muito bem. Tem tudo para ser um sucesso.
Sabe que eu gosto de capas assim, com uma cor sólida e o título apenas?

Igor,
Que bom que ficou com vontade de ler. É essa ideia, né? Tem tanto livro bacana que a gente ignora só porque nunca ouviu falar.

Lígia,
Não sabia que ela é casada com um maestro! O quanto tem de autobiográfico eu não sei, mas que o universo de música erudita que ela apresenta é bem interessante, isso é.

Melissa,
Já faz um tempinho que ouço falar da Patrícia Melo, autora de vários livros policiais. Estava curiosa para ler algo dela e foi uma ótima experiência.!