segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Leia o Livro, Veja o Filme: Janela Indiscreta

LIVRO: Janela Indiscreta e Outras Histórias

Calor enervante e perna engessada: uma combinação nada agradável. Em busca de uma brisa e de algo que o entretenha, Hal Jeffries passa os dias na cadeira de rodas posicionada perto da janela, observando os moradores dos prédios vizinhos. De tanto observar, ela acaba familiarizado com a rotina alheia, a ponto de acreditar que, em um dos apartamentos do outro lado do pátio, o marido assassinou a esposa. Será mesmo?

‘Janela Indiscreta’, o conto de Cornell Woolrich, ganhou as telas pelas mãos de Hitchcock e virou sucesso mundial. No entanto, há muitas diferenças entre o texto e sua adaptação cinematográfica. No livro, não sabemos nada sobre Jeffries, só que ele está com a perna imobilizada e que fica bisbilhotando os vizinhos. Como ele é o narrador, só sabemos o que ele vê e imagina, e a maior parte da ação se passa em sua mente: acompanhamos suas dúvidas e teorias, suas suspeitas e seus limitados movimentos. Os poucos momentos de interação com outros personagens se dão com Sam, seu empregado diarista, e com Boyne, o investigador de polícia que é seu velho conhecido e a quem ele chama para ajudar a solucionar o suposto crime.

No entanto, embora haja mais especulação do que ação de fato, o autor consegue criar uma tensão que se sustenta até o desfecho do conto. Além disso, assim como o narrador dessa primeira história, Woolrich também parece ser um ótimo observador, pois insere pequenos detalhes na narrativa que ajudam a dar o tom de realidade à trama.

Além de ‘Janela Indiscreta’, o volume ainda contém mais quatro contos. Em ‘Post-mortem’ uma mulher ganha na loteria, mas o prêmio acaba revelando planos de assassinato e golpe; em ‘Três horas’ um homem desconfia que a esposa está saindo com outra pessoa e decide dar um fim à traição – mas as coisas não saem bem como planejado; ‘Homicídio trocado’ é uma história de acerto de contas entre criminosos que não termina bem – e que tem um personagem chamado Donleavy Hitchcock – seria um sinal de que o livro ficaria famoso graças ao cineasta de mesmo nome?; e ‘Impulso’ é a clássica história do sujeito comum que toma uma atitude impensada e arruína seu futuro.

No geral, gostei de todos os contos. Com exceção do primeiro, em que o protagonista se mete em encrenca mas consegue se safar no final, os demais mostram uma série de infortúnios e reviravoltas que mudam o destino dos personagens de forma irreversível. Apesar de ser um livro policial, o foco não é a investigação, e sim o desenrolar dos fatos na vida dos criminosos (sendo o crime premeditado ou acidental).

“Ele entrou, vindo de fora. A entrada ficava no lado oposta da cozinha, longe da janela. O homem deixara o chapéu na cabeça, por isso eu sabia que ele tinha acabado de entrar em casa. Não tirou o chapéu. Como se já não houvesse ali mais ninguém para justificar que ele tirasse o chapéu. Em vez disso, empurrou-o um pouco para trás da cabeça, enfiando a mão nas raízes do cabelo. Esse gesto não denotava o desejo de enxugar o suor, eu sabia. Para fazer isso, a pessoa esfrega a mão para o lado – ele passou a mão da testa para cima. Isso indicava algum tipo de inquietação ou incerteza. Além do mais, se estivesse com excesso de calor, a primeira coisa que faria era tirar o chapéu de uma vez. A mulher não foi cumprimentá-lo. O primeiro elo da forte cadeia de hábitos, de costumes, que nos liga uns aos outros, havia se rompido.”

Nota: 4/5

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FILME: Janela Indiscreta

L.B. Jeffries (James Stewart) é um fotógrafo profissional que quebrou a perna em um acidente de trabalho. Sem poder sair de casa e sem nada para fazer, ele se distrai observando os vizinhos. Quando um homem que tem uma esposa doente muda seus hábitos e começa a agir de um jeito estranho, Jeffries se convence de que o esposo matou a mulher. Para provar que está certo, ele pede a ajuda de seu velho amigo Doyle (Wendell Corey), que trabalha na polícia, bem como da enfermeira Stella (Thelma Ritter), que o visita diariamente, e da namorada, Lisa (Grace Kelly).


Se o conto fosse filmado tal como foi escrito, daria apenas um curta. Com o foco voltado apenas para o casal formado pela esposa doente e pelo suposto assassino, e com o protagonista especulando sozinho sobre os acontecimentos, o filme seria bem entediante. Mas o roteirista John Michael Hayes, juntamente com Hitchcock, conseguiu tornar a trama interessante ao complementar o mistério que envolvia o casal do prédio em frente criando um passado para Jeffries e um relacionamento amoroso incerto entre o fotógrafo e Lisa.


A cena inicial é um primor no quesito ‘contar uma história visualmente, sem o auxílio de texto nenhum’. A câmera de Hitchcock começa mostrando Jeffries e sua perna engessada e se move na direção de uma máquina fotográfica despedaçada, passeando depois por fotografias emolduradas na parede (uma delas exibindo um acidente automobilístico) e parando em uma pilha de revistas cuja capa traz o rosto de Lisa. Assim, sem dizer uma palavra, o diretor caracteriza resumidamente Jeffrey (fotógrafo famoso que quebrou a perna tirando a foto do acidente e também clicou a amada, uma modelo, para a capa da revista). Incrível.


A relação de Jeffries e Lisa está em um momento delicado: ela o pressiona para aceitar propostas de trabalho locais ou para permitir que ela viaje com ele em suas expedições pelo mundo; ele tem medo de se envolver seriamente com alguém, então arranja empecilhos, coloca vários defeitos nela e a trata mal para fazer com que ela rompa com ele. O interessante é que, ao longo do filme, a dinâmica entre eles vai mudando, o que se espelha nos relacionamentos dos personagens que vivem nos prédios próximos (os recém-casados, o compositor, a bailarina, a mulher solitária, o casal que tem um cachorrinho).


Já a enfermeira Stella é o alívio cômico da história. Ela não tem papas na língua e dá conselhos amorosos a Jeffries, não é nada sutil ao falar do suposto assassinato, participa da elaboração de teorias e logo se prontifica a ajudar a desvendar o mistério. Exatamente o contrário da postura de Doyle (seria uma homenagem ao famoso escritor de romances policiais?), que até se prontifica a investigar, mas que não pode avançar depois de certo ponto por falta de provas que justifiquem para a justiça uma investigação formal.


O fato de Jeffries ser fotógrafo profissional foi outra escolha acertada. Ele tem o olhar apurado, está acostumado a observar o comportamento das pessoas, é paciente o suficiente para ficar de tocaia até conseguir a imagem que deseja e, claro, tem o equipamento adequado, que o permite enxergar com detalhes o interior dos apartamentos e ainda registrar os eventos em fotogramas – recursos muito úteis que sua versão do conto não possuía. Aliás, é seu equipamento que acaba salvando sua vida. Outro acerto, e que contribui imensamente para aumentar a tensão, é que nós, os espectadores, temos uma vantagem em relação a Jeffries, pois, além de enxergarmos tudo por seus olhos, também sabemos de acontecimentos que ele desconhece (ocorridos durante as poucas horas que o protagonista cai no sono).


Lisa, por sua vez, é uma mulher deslumbrante, e o fato de ser modelo e falar constantemente de moda (óbvio, afinal é seu ambiente de trabalho) são desculpas usadas por Jeffries para tentar afastá-la, por considerá-la frívola (e mais rica do que ele). Só que de fútil e ingênua a moça não tem nada – na verdade, é ela (e também Stella – as duas mulheres da trama) quem parte para a ação e corre todos os riscos, enquanto Jeffries fica só observando (contra sua vontade, é verdade). E mesmo quando fica cara a cara com o suposto assassino, Lisa tem sangue frio o bastante para cumprir a missão. Ao demonstrar tanto espírito aventureiro, ela sobe muito no conceito de Jeffries e o casal passa a vislumbrar um futuro juntos.


‘Janela Indiscreta’ é um dos melhores filmes de Hitchcock, pois atinge o equilíbrio perfeito entre suspense e romance, misturando cenas tensas com momentos divertidos. Além disso, ainda trata de um assunto interessante: a convivência entre vizinhos. Vivemos lado a lado dessas pessoas e na maioria das vezes não sabemos nem seus nomes. E também nos faz pensar na tênue linha que separa a curiosidade normal pela vida alheia de invasão de privacidade. O que fazer quando achamos que a pessoa da casa ao lado corre perigo ou está sofrendo algum tipo de violência? Fingir que não sabemos de nada não é estar sendo conivente com o agressor? Qual o momento de interferir? 

Nota: 5/5


Este post faz parte do 'Hitchcock Reading Project'. A lista de livros e suas adaptações com as respectivas resenhas está AQUI.

2 comentários:

Ana Leonilia disse...

Eu vi o final do filme quando estava passando na TV. Quero assistir do começo, porque estava gostando da atmosfera de suspense e romance. Sem contar que a trama é bem bolada. Só desgrudei os olhos quando acabou!

Bjs ;)

Michelle disse...

Ana,
Veja sim! Acho incrível como o filme consegue prender a atenção contando com tão pouca ação de fato.