quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Resenha: A menina submersa


India Morgan Phelps, vulgo Imp, é uma mulher atormentada por uma ‘maldição’ familiar: o suicídio. Sua mãe e sua avó tiraram a própria vida. Ambas sofriam de transtornos mentais. A protagonista também apresenta um problema parecido – esquizofrenia paranóica –, depende de medicamentos e frequenta o consultório de sua psiquiatra, a Dra. Ogilvy, regularmente. Um dia, Imp começa a escrever uma história de fantasmas, e nos leva junto com ela.

‘A menina submersa’ é um livro estranho e confuso. No entanto, a estranheza e a confusão não significam falta de habilidade da autora; pelo contrário, Caitlín R. Kiernan foi extremamente habilidosa ao arrastar o leitor para dentro da mente de uma pessoa esquizofrênica. Nesse contexto, realidade e fantasia se misturam e se tornam indissociáveis, não conseguimos distinguir (assim como Imp também não consegue) o que de fato aconteceu e o que a protagonista inventou (intencionalmente ou não). E tudo isso é muito angustiante.

“Fantasmas são essas lembranças fortes demais para serem esquecidas, ecoando ao longo dos anos e se recusando a serem apagadas pelo tempo”.

Como a própria protagonista define, esta é uma história de fantasmas, ou seja, de memórias e lembranças que nos acompanham e assombram ao longo da vida. Tanto é que ela começa a narrativa falando de suas primeiras assombrações: a morte da mãe (em um manicômio) e da avó (em casa) e a loucura que está em sua linhagem familiar. Outro espectro crucial em sua história é Eva Canning, a misteriosa moça que ela encontra duas vezes pela primeira vez. Oi?! Parece confuso? E é. Segundo Imp, Eva é uma sereia que ela conhece em julho, mas também é uma loba com quem ela tem o primeiro contato em novembro. Eva se torna uma presença constante em sua vida, uma obsessão, o que acaba por afetar seu relacionamento com Abalyn, companheira com quem Imp dividia apartamento, e por jogar a personagem principal em uma espiral autodestrutiva.

O interessante do livro é justamente essa brincadeira que a autora faz com o leitor. Imp é uma narradora não-confiável, o que ela mesma informa desde o início e reafirma ao longo de todo o texto. Não podemos confiar nela porque as lembranças não são confiáveis. Ao contarmos uma história, a contamos como lembramos dela, como interpretamos certas situações, de uma ótica totalmente subjetiva. E se as lembranças de qualquer pessoa já não são 100% confiáveis, imaginem a de uma pessoa esquizofrênica. Além disso, Imp não está apenas contando uma história; ela é escritora, o que por si só já gera desconfiança – os escritores lidam o tempo todo com fatos e ficção. Onde termina uma coisa e começa outra?

Outro ponto positivo, para mim, foram as referências. Caitlín R. Kiernan trabalha muito bem a inserção de fontes externas à trama, despertando a curiosidade e, mais uma vez, brincando com o real e o inventado. Por exemplo, vários quadros são citados na história. Isso não é aleatório, pois Imp é pintora e acostumada desde cedo a observar pinturas. As obras mencionadas são importantes para o desenrolar da trama e, embora algumas delas sejam descritas com tantos detalhes, foram criadas especialmente para o livro. A autora inventou pintores famosos e contratou mesmo um artista para criar essas pinturas, cujas imagens podem ser encontradas na internet.

'Fecunda Ratis', de Albert Perrault; 'Girl on a river', de Philip George Saltonstall (ambas criações para o livro)
Outras referências, no entanto, são reais, como a ‘Floresta do Suicídio’, também conhecida como ‘Mar de Árvores’, localizada aos pés do Monte Fuji, no Japão, segundo lugar em número de suicídios do mundo (atrás apenas da ponte Golden Gate), e que teve um aumento considerável de mortes em sua área depois que o autor Seicho Matsumoto publicou o romance 'A floresta negra', em 1960. (Para quem se interessar, há dois filmes recentes que se passam nessa mata: 'The Sea of Trees' e 'The Forest'). Como há sereias na história, a autora também fala de rusalkas e selkies (sobre esse último, recomendo a animação ‘A canção do oceano’).

Outras referências de peso são as artistas femininas que se mataram: Anne Sexton, Diane Arbus e Virginia Woolf. Lovecraft e Poe também marcam presença: assim como o primeiro escritor, Imp também é de Providence; os corvos que aparecem quando alguém mente na história de Imp são o símbolo do segundo autor. Aliás, acho que uma das grandes qualidades de 'A menina submersa' é justamente abordar o medo que mora em nós, do poder de sugestão de nossa mente, dos delírios, da perda da sanidade – algo que Poe dominava em suas narrativas e que é bem explorado no livro de Kiernan.

Enfim... ‘A menina submersa’ é uma experiência extenuante porque joga o leitor no olho do furacão que é a mente de uma pessoa esquizofrênica, mas todo o esforço que a leitura exige é recompensado por uma história única e envolvente.

Nota: 4/5


3 comentários:

Carissa Vieira disse...

Eu adoro esse livro.
Acho que a maneira que a autora nos leva pela narrativa é maravilhosa.

Jeniffer Geraldine disse...

Li esse livro tem um tempinho.
É muito bom! Vale a pena se perder nas páginas.

Michelle disse...

Carissa e Jennifer,
Exato! Ela não facilita a vida do leitor, mas é uma experiência e tanto!