terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Leia o Livro, Veja o Filme: Tony & Susan / Animais Noturnos

LIVRO: Tony & Susan

Comprei esse livro baratinho numa promoção da Bienal. Não sabia nada sobre a história, mas tinha lido uma resenha elogiosa a respeito, então levei o dito cujo pra casa e enfiei na estante e não pensei mais nele. Confesso que meu desinteresse se devia à capa. Na minha cabeça, era uma história de amor, cheia de trocas de cartas e lembranças do passado. A vontade de ler o livro só surgiu quando divulgaram o trailer de "Animais Noturnos" e percebi que eu havia me enganado totalmente – é um thriller dos bons!

Susan trabalha como professora de inglês em meio período e, no tempo restante, encarna uma típica dona de casa de classe média americana: arruma a bagunça dos três filhos, faz faxina, se preocupa com o jantar, fala com o marido ao telefone. À noite, ela, que define a si mesma como uma leitora voraz, senta para ler, e então seu ‘animal noturno’ vem à tona, e encontra reflexo em “Animais Noturnos”, o primeiro romance escrito por seu ex-marido, Edward, de quem se separou há mais de vinte anos.

Susan e Edward formavam um casal de namoradinhos de infância, mas a união durou pouco, já que, para realizar seu sonho de ser escritor, Edward não trabalhava, vivia isolado e melancólico, enquanto Susan bancava todas as contas do lar e abria mão de seus próprios sonhos... até que se cansou, e o acaso tratou de colocar em seu caminho Arnold, o vizinho médico que também enfrentava problemas em seu casamento com uma esposa doente. Frustrada, Susan vê em Arnold uma promessa de futuro mais estável e feliz, e não pensa duas vezes antes de romper duramente com Edward e se casar com o novo príncipe encantado, que também se livra da mulher com muita rapidez e conveniência.

Enfim... mais de duas décadas após a separação, Edward ressurge na vida de Susan por meio do manuscrito de seu primeiro romance, que ele envia à ex-esposa para que ela leia e dê um parecer, já que era sua maior crítica. Intrigada, ela começa a leitura, tentando adivinhar o que o ex pretendia com aquela jogada, com medo de se deparar com um trabalho ruim e ter que decepcioná-lo mais uma vez ao dar sua opinião.

No entanto, Susan é fisgada logo nos primeiros capítulos pelo drama de Tony, um pai de família que viaja à noite para uma casa de veraneio no Maine com a mulher e a filha. No caminho, eles encontram três sujeitos nada amigáveis e uma desgraça acontece. Tony, o único sobrevivente, passa os anos seguintes se remoendo sobre o passado, imaginando o que poderia ter feito para mudar o desfecho da história, oscilando entre a vontade de seguir em frente com sua vida e de matar sua sede de vingança.

Alternando entre o passado de Susan e Edward, a situação (nada boa) do casamento de Susan e Arnold e os eventos de “Animais Noturnos”, Austin Wright consegue envolver o leitor numa trama de suspense angustiante. Susan se identifica plenamente com Tony, sofre da mesma passividade, repensa suas atitudes com relação ao marido atual e ao ex, e, como o protagonista de história de lê, ela também ronda à noite, sedenta por sangue.

A questão é: será que Tony e Susan conseguirão aplacar sua raiva e viver em paz? Será que conseguirão fazer as pazes com o passado e com si mesmos?

A gente escreve porque o mundo é uma confusão desconexa, que não se consegue entender, a menos que se faça um mapa com as palavras. Nossos olhos estão turvos e a gente escreve para colocar os óculos. Não, a gente escreve porque lê, escreve a fim de refazer para uso próprio as histórias de nossa vida. A gente escreve porque nossa mente é uma tagarelice sem sentido, a gente escava em busca de um caminho nessa tagarelice, um caminho que nos leve de volta a nós mesmos. Não, a gente escreve porque está enclausurado dentro do próprio crânio. A gente envia nossas sondas para dentro do crânio de outras pessoas e espera alguma resposta.

Nota: 4/5
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FILME: Animais Noturnos

Como eu disse, peguei o livro para ler por causa do trailer do filme, que conta com Amy Adams (Susan), Jake Gyllenhaal (Tony/Edward) e Michael Shannon (policial Bobby Andes) no elenco. Ao contrário do livro, cuja capa não revela muito da história, o trailer já deixa claro que se trata de uma história tensa.

Susan em sua ronda noturna
Uma diferença fica evidente logo de cara: Susan e o novo esposo levam uma vida bem mais glamorosa do que os personagens do livro, mas manter esse padrão de vida é, para Susan, uma forma de pressão equivalente à monótona rotina da dona de casa suburbana das páginas – não há filhos para criar nem trabalhos domésticos a serem feitos aqui, mas Susan está igualmente frustrada nos campos afetivo e profissional.

E preparando o ataque
Quanto aos problemas do relacionamento de Susan e Edward, são suavizados, quase que totalmente limitados às diferenças de classes e interesses, escancaradas pela mãe de Susan. E o Edward interpretado por Gyllenhaal até parece fofo com sua pose de escritor romântico e sonhador, como se o fim do seu casamento com Susan tivesse sido apenas culpa dela – o que não é verdade.

Jake sedutor como Edward
De qualquer forma, o filme consegue captar perfeitamente os dilemas de Tony e de Susan, e o jogo de espelhamento desenvolvido no livro fica ainda mais óbvio na tela, com a justaposição de imagens dos dois personagens em vários momentos (por exemplo, quando vemos primeiro ele tomando banho e logo depois ela). O tom sombrio dos cenários reflete plenamente o peso que ambos carregam no peito, o arrependimento, a vontade de compensar a passividade com uma ação friamente calculada para dar o troco. A trilha sonora incômoda colabora muito para mostrar os conflitos internos dos personagens.

E perturbado tentando encerrar o caso ao lado de Bobby Andes
Vale destacar ainda o sempre incrível Michael Shannon, encarnando o policial que ajuda Tony na investigação do crime que destruiu sua família e que acredita em fazer justiça com as próprias mãos. Mais do que um desfecho para o caso de Tony, o policial Bobby Andes busca uma realização pessoal com a caçada que empreende aos criminosos. No filme, a trama foi transferida do Maine para o Texas. Não conheço nenhum dos dois estados, mas, se o primeiro nome evoca imediatamente Stephen King e estradas vazias e aterradoramente escuras, o segundo me faz pensar em sujeitos durões com chapéu de caubói e espingarda na mão e desertos cheios de cobras venenosas – e nisso são igualmente assustadores. 

Nota: 4/5

3 comentários:

Claudia Oliveira disse...

Quero muitooooo ler este livro.

Lígia Barros disse...

Nunca prestei muita atenção nesse livro, mas lendo sua resenha fiquei bem curiosa.

Michelle disse...

Claudia,
Eu me enganei totalmente pela capa e foi uma ótima surpresa.

Lígia,
Ele não chama a atenção à primeira vista, né? Mas vale dar uma chance.