segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Resenha Dupla: Elogio da madrasta / Os cadernos de Don Rigoberto


Lucrecia e Don Rigoberto formam um casal feliz. Ele, neste seu segundo casamento, parece finalmente ter encontrado uma mulher que o completa perfeitamente. Ela também considera a união maravilhosa, embora, no início, tenha ficado receosa quanto ao filho do esposo, Alfonso (também chamado Fonchito), que era muito apegado à falecida mãe. Mas pouco tempo depois do casamento, os três formam uma família harmoniosa e unida. Até a proximidade de Lucrecia e Fonchito cruzar os limites de uma relação entre madrasta e enteado.

Impossível ler 'Elogio à madrasta' e não pensar em 'Lolita'. Como na obra de Nabokov, aqui também acontece o envolvimento sexual entre um adulto e um adolescente. Mas nem só de semelhanças é estabelecida essa ligação entre os livros. Primeiro porque, em ‘Lolita’, quem conta a história é o próprio envolvido com a garota, então o que lemos é sua visão dos acontecimentos (o que colabora muito para criar a falsa imagem de garota sedutora), enquanto em ‘Elogio...’ o narrador não é um personagem, aumentando seu distanciamento emocional do que é narrado. Segundo porque Humbert age de modo premeditado desde o início para alcançar seu objetivo de levar a menina para a cama, enquanto na trama de Llosa a madrasta é quem acaba enredada na teia de Fonchito (o que não quer dizer que ela não tenha culpa).

Vale dizer que o envolvimento sexual dos adultos com os adolescentes é condenável nos dois casos, tanto do ponto de vista moral quanto legal. De modo algum quero atenuar a gravidade do ocorrido. Todavia, o que me encantou nesse livro foi a forma como autor conta a história. Llosa realmente conseguiu criar uma história erótica que não descamba para a pornografia nem tem aquelas descrições sexuais vergonhosamente mal construídas.

A estrutura da narrativa é muito interessante. Cada capítulo começa com a imagem de um quadro real (geralmente pinturas com temas mitológicos), seguida por uma pequena história sobre o que acontece na cena reproduzida na tela, que antecipa o que se desenrola a seguir no quarto do casal. Don Rigoberto é um sujeito apaixonado por arte e literatura e, na cama, gosta de misturar referências artísticas e literárias com fatos da vida real, dando à esposa o papel principal em suas fantasias. E essa narrativa extremamente sensual é construída com esmero pelo autor. Eu não sou fã desses livros hot que têm dominado as livrarias nos últimos tempos, mas confesso que o Llosa conseguiu me envolver.

Quanto a Fonchito, há muitas incógnitas. Para começar, não sabemos sua idade exata. Ele é sempre tratado como 'menino' ou 'garoto' por todos, e sua descrição física é a de um querubim: pele alva, cabelos loiros encaracolados, olhos azuis inocentes. No início do livro, parece que ele tem uns 10 anos; no final, seu pomo-de-adão é mencionado – imagino que tenha uns 12-13 anos porque se fosse mais novo suas façanhas sexuais não seriam possíveis.

Além disso, a dubiedade de Fonchito não se resume à idade. Ele é o típico lobo em pele de cordeiro, ou, mais precisamente, um demônio com rostinho angelical. A forma como ele manipula a madrasta e o pai é assustadora (e aí está mais uma diferença importante em relação a 'Lolita'). Durante toda a leitura, compartilhei com Lucrecia e Don Rigoberto dúvidas com relação ao que Fonchito estava fazendo. Será que eu (e os dois) estava entendendo direito? Será que havia malícia nas ações do menino ou era coisa da minha cabeça (e da cabeça deles)? No final, fiquei me sentindo tão traída quanto Lucrecia e Don Rigoberto. E foi exatamente essa combinação de assombro com as atitudes do garoto com a escrita precisa e envolvente do Llosa que me conquistou e me fez devorar o livro em uma sentada. Gostei tanto que peguei para ler 'Os cadernos de Don Rigoberto' imediatamente na sequência, mas a experiência não foi agradável.

“Mas Alfonsito já a abraçava: ‘Feliz aniversário, madrasta!’ Sua voz, fresca e despreocupada, fazia a noite rejuvenescer. Dona Lucrecia sentiu aquela silhueta delgada de ossinhos frágeis contra o seu corpo e pensou num passarinho. Imaginou que se o apertasse com muito ímpeto o menino se quebraria como um bambu. Assim, ele em pé sobre o leito, ficavam da mesma altura. Tinha enroscado seus magros braços no seu pescoço e a beijava amorosamente na bochecha. Dona Lucrecia também o abraçou e uma das suas mãos, deslizando por baixo do paletó do pijama azul-marinho com filetes vermelhos, passeou pelas costas do menino, apalpando e sentindo na gema dos dedos a delicada escadaria da sua espinha dorsal. ‘Amo muito você, madrasta’, sussurrou a vozinha junto ao seu ouvido. Dona Lucrecia sentiu dois breves lábios que se detinham ante o lóbulo inferior da sua orelha, aqueciam-no com seu hálito depois o beijavam e mordiscavam, brincando. Teve a impressão de que, enquanto a acariciava, Alfonsito ria.”

Nota: 4/5
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Nesta continuação de ‘Elogio da madrasta’, Lucrecia e Don Rigoberto estão separados há 6 meses. Arrasado, quando volta do trabalho ele se enfia em seu escritório, onde vive só com suas lembranças e fantasias (que registra em cadernos). Ela agora mora em outra casa com Justiniana, a empregada que a acompanhou após a separação. A vida segue triste e solitária para ambos, até que, um dia, Fonchito toca a campainha da casa da madrasta.

Dizendo-se com saudade de Lucrecia e preocupado com o isolamento do pai, Fonchito tenta uma aproximação com a madrasta para reunir o casal desfeito. A princípio, ela recusa, mas simplesmente não consegue resistir muito tempo aos encantos do garoto, que passa a visitá-la constantemente para mostrar seus desenhos, inspirados em sua recente obsessão com o pintor austríaco Egon Schiele. O menino acredita ser a reencarnação do artista, que escandalizou pequenas cidades do interior da Áustria com o tema de suas obras: autorretratos nus e composições envolvendo menores de idade (que ele costumava abrigar e com quem às vezes mantinha relações sexuais). Como tudo que envolve Fonchito, Lucrecia não sabe até que ponto ele realmente estava interessado na arte de Schiele, ou se toda aquela história era só uma desculpa para provocá-la; se o ex-marido realmente queria a reconciliação ou se era tudo invenção do enteado.

O fato é que, em se tratando da trama de 'Os cadernos...', achei bem inferior ao livro anterior. Tudo que o outro tinha de bom (a escrita erótica que não caía na pornografia, a estrutura de quadro+descrição da imagem+fantasias de Rigoberto, a dubiedade das ações de Fonchito), este estraga. As narrativas ficcionais que Don Rigoberto redige em seus cadernos continuam tendo Lucrecia como protagonista, mas agora a vulgaridade dá o tom. A figura angelical e demoníaca de Fonchito perde um pouco sua força porque suas investidas contra a madrasta já não são tão sutis.

Para piorar, Llosa ainda entremeia a história principal com discussões sobre temas variados, como a ruína do erotismo pelas revistas masculinas, a figura dos artistas (‘não se deve idealizá-los nem satanizá-los', e não importa suas ações, e sim suas obras - isso é bem problemático considerando o tal o Schiele, por exemplo) e a diferenciação de relação sexual com menores (meninas = crime; meninos = desejável que tenha alguém da família que os inicie – nem vou dizer o quanto isso é absurdo). Não dá para afirmar que as opiniões sejam do autor, e não de Don Rigoberto, mas algumas delas são ideias bem perturbadoras e ofensivas.

Bem, a armação de Fochito é interessante e o desfecho deixa no ar muitas dúvidas, mantendo o espírito do primeiro livro, mas esses problemas que citei acima realmente me incomodaram e pesaram na nota final. Meu veredicto é: leiam ‘Elogio da madrasta’ e ignorem essa continuação.

“Seria possível retomar a vida a três, juntos de novo na mesma casa? Nesse momento, ocorreu-lhe que Jesus Cristo, aos doze anos, havia assombrado os doutores do templo discutindo com eles, de igual para igual, sobre matérias teológicas. Sim, mas Fonchito não era um menino-prodígio como Jesus Cristo. Era-o como Lúcifer, o Príncipe das Trevas. Não fora ela, mas ele, ele, o suposto menino, quem tivera a culpa de toda aquela história.”

Nota: 2,5/5

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Este post faz parte do Desafio Literário Diminuindo a Pilha 2017 - Janeiro: Livro encalhado na estante. Para ver a apresentação do projeto e a lista de títulos/resenhas, clique AQUI ou no banner na coluna à direita.

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