segunda-feira, 7 de maio de 2018

Resenha: Karen



Uma moça acorda em uma casa que não é a sua, depois de supostamente ter sofrido um acidente numa cascata. Todos a chamam de Karen, mas ela não se lembra de nada e não se identifica com a pessoa que os outros lhe dizem que ela é. Enquanto tenta recuperar a memória, ela procura se encaixar naquele quadro estranho, esforçando-se para gostar do que a empregada Emily diz que Karen gosta e para ter a personalidade que o marido Alan afirma que Karen tem. Mas quanto mais conhece Karen, mais certeza ela tem de que está vivendo a vida de outra pessoa. Será?

Nesses últimos meses, mal tenho tido tempo de ler, então "Karen" me atraiu por ser um suspense psicológico, claro, mas também porque é um livro de poucas páginas com capítulos bem curtinhos (em média, 5 páginas cada um). Como eu estava conseguindo manter a atenção na leitura por pouco tempo antes de cair no sono, foi perfeito. O fato de ter sido escrito por uma portuguesa e ambientado na Inglaterra também foi um ponto que aguçou minha curiosidade. Durante a leitura, descobri mais uma característica positiva: muitas referências à literatura, à pintura e ao cinema.

Considerando o tamanho do livro, eu poderia dizer que as referências parecem ser demasiadas até, pelo menos à primeira vista. Mas olhando com mais atenção, dá para notar que não são gratuitas, já que a moça desmemoriada é pintora e Alan é escritor. Já o cinema, aparece na descrição das ruas de Londres e na atmosfera daquela cidade como retratada em diversos filmes. Além disso, na casa isolada em que moram em Northumberland, no extremo norte da Inglaterra, eles passam as noites assistindo a séries policiais, o que também colabora para o ar de mistério da história.

Embora o final não esclareça completamente as coisas, o que mais gostei no livro foi o suspense mesmo, a angústia que partilhei com a protagonista por não saber se ela estava achando as coisas estranhas porque realmente havia perdido a memória ou porque estava sendo vítima de um golpe arquitetado por Alan e Emily. Karen é superprotegida por eles o tempo todo. No início, Karen (e eu) compreende esse comportamento, já que está confusa e com o tornozelo machucado. Mas conforme os dias passam, ela quer entender melhor quem é essa Karen – a sensação de ser uma impostora só cresce – e por que parece que eles não a querem deixar sair de casa. O legal é que, como a história é narrada pela protagonista, nunca sabemos ao certo se as coisas são, de fato, como ela conta ou se ela está enxergando as coisas daquele jeito. Essa dúvida persiste até a última página.

A escrita de Ana Teresa Pereira é tão boa que eu mergulhei fundo na história e na piração da protagonista. No início, eu estava mesmo me compadecendo da suposta Karen e de sua desorientação. Depois, embarquei em seus pensamentos conspiratórios quando ela passou a desconfiar de Alan e Emily. Quando ela começa a descobrir em si mesma indícios de que talvez não fosse a pintora que tinha certeza de ser e passa a cogitar se a sua vida em Londres é que era inventada, eu fiquei tão chocada e aflita quanto ela (o fato de a protagonista dizer algumas vezes que as ruas de Londres pareciam cenários de filmes reforça essa suposição).

Realmente, eu não consegui chegar a nenhuma conclusão, sobre se a vida real da personagem principal era a da moça urbana que flanava por galerias de arte em Londres e que tinha um gato e um apartamento com gerânios na janela, ou se a existência de Karen é que era a verdadeira e ela havia de fato perdido a memória. Mas como eu disse, essa indefinição não me incomodou nem um pouco porque foi o processo mental aflitivo da personagem-título que me prendeu.

Se você também é do tipo que gosta de histórias em que o que se passa na mente dos personagens é mais importante do que o que acontece no mundo real e está mais interessado em sensações do que em resoluções, "Karen" é o seu livro.

“Mas naquela manhã havia algo de diferente. Abrira os olhos por um segundo e voltara a fechá-los, mas o cheiro do meu cabelo que caía sobre o rosto não era o habitual cheiro a ervas mas cheiro a flores. Aproximei o pulso da face e senti o cheiro a rosas, um pouco acre. Então abri os olhos. (...)

Voltei-me para a outra mesa-de-cabeceira e a princípio não reconheci a rapariga na foto. Era uma foto a preto-e-branco, e a rapariga devia estar num bosque. Tinha o cabelo preso na nuca, um casaco escuro e uma expressão melancólica no rosto. Com um estremecimento, percebi que a rapariga era eu.”

Nota: 4/5

Este post faz parte do Desafio Volta ao Mundo em 80 Livros[Portugal]Para ver a apresentação do projeto e a lista de títulos/resenhas, clique AQUI ou no banner na coluna à direita. 

Um comentário:

Lígia Barros disse...

Nunca tinha ouvido falar desse livro, parece bem interessante (e ser curto é algo que também me atrai). Gosto desse tipo de história em que não se sabe muito bem o que está acontecendo e quem está dizendo a verdade.