segunda-feira, 11 de junho de 2018

Resenha: A casa dos espíritos


Do início do Século XX até o comecinho da década de 1970, acompanhamos a história de três gerações da família Trueba e, ao mesmo tempo, testemunhamos as transformações da sociedade chilena. Isabel Allende nos apresenta um panorama histórico primoroso sem que seja necessário o uso de datas precisas e a identificação nominal de figuras importantes – nada que o leitor atento ou curioso não possa descobrir facilmente com uma simples busca na internet. E, para tornar o peso da realidade massacrante mais suportável, usa generosas doses de fantasia. Impossível não pensar em “Cem Anos de Solidão”. E, posso falar? É tão incrível quanto o livro do Gabo. Virou “apenas” um dos favoritos da vida.

Como eu comentei no post da retrospectiva de maio, levei 6 meses para finalizar a leitura de "A casa dos espíritos", mas a demora se deu porque é um livro de quatrocentas e tantas páginas e porque só o pegava para ler no metrô. De todo modo, é o tipo de história que eu queria saborear aos poucos, só para poder passar mais tempo com suas personagens incríveis. O lado ruim é que acabo não marcando meus trechos preferidos nessas leituras de transporte público, então fico meio perdida na hora de fazer a resenha. Sem dúvida esquecerei de falar sobre muitas coisas que me conquistaram na história, mas vou deixar aqui só alguns comentários aleatórios para registrar meu amor pela obra.

O que chamou minha atenção de cara foi a estrutura narrativa: começa com terceira pessoa (que parece ser alguém que não faz parte da história, e que só é revelado no último parágrafo do livro) e é entrecortada por uma voz em primeira pessoa sem aviso (Esteban Trueba), identificado algumas páginas depois. Durante toda a história, esses narradores se revezam e apresentam ao leitor o olhar de alguém que enxergava o fantástico no mundo e o de um homem mundano.

Clara, Blanca e Alba, respectivamente esposa, filha e neta de Esteban Trueba, constituem a alma da trama. Cada uma, à sua maneira, rompeu com os padrões de comportamento que se esperavam delas: Clara desde criança aterrorizava e fascinava, na mesma medida, os amigos, parentes, vizinhos e conhecidos de seus pais com seu dom da clarividência e da telecinese e, ao chegar à fazenda que o marido comandava com o chicote na mão, causa um rebuliço ao tratar os empregados com civilidade e, ainda por cima, ousa montar uma escola rural na propriedade para ensinar todas as crianças do local.

Blanca, a filha mais velha do casal e irmã dos gêmeos Jaime e Nicolás, não tem nenhuma sensibilidade mediúnica e parece não se interessar pelo mundo fantasioso da mãe, mas é ela quem dá o segundo golpe no arrogante latifundiário Trueba ao engravidar do filho de um dos empregados. Mesmo obrigada a se casar com outro homem para manter as aparências, ela jamais desistiu do amado e, com ele, desenvolve seu lado humanitário e ativista.

Alba, a neta bastarda de Trueba, acaba se tornando a queridinha dele. É ela quem lhe abre os olhos para sua fragilidade de ser humano solitário no fim da vida ao se dar conta de que afastou todos que o amavam. Só quando Alba cai na mão dos militares é que Trueba percebe o quanto as coisas que valorizava (o poder, o dinheiro, a posição social, os contatos políticos) não serviam para nada.

Além das três mulheres Trueba, toda a narrativa é construída tendo mulheres como alicerce. Nívea del Valle, mãe de Clara e Rosa, embora cumprisse seu “dever” de parideira (entre filhos que vingaram ou não, ela teve 15) e fosse à missa e seguisse os rituais católicos, não tentava sufocar, de verdade, os dons sobrenaturais da filha e era uma sufragista – considerada a primeira do país. Férula, irmã de Esteban, é o retrato da mulher que fica incumbida de cuidar dos pais doentes, que cria os irmãos, que abre mão de sua própria vida e depois é vista com desdém e como um estorvo para o resto da família – seu melhor momento é quando ela vai morar com Esteban e sua esposa e cria um vínculo de amor com Clara (um raro momento em que Férula se sente querida, mas sua felicidade ameaça o irmão ciumentinho). Isso sem mencionar Nana, ama/empregada dos Del Valle, Pancha, mãe do filho bastardo de Esteban, a prostituta Tránsito e Amanda, jovem que é a paixão dos gêmeos e que assume a criação do irmão menor.

Isabel Allende não poupa ninguém na hora das críticas: sobra para os latifundiários e o sistema de trabalho desumano imposto por eles, para os políticos que fazem alianças desastrosas só pensando nos próprios privilégios, para a polícia e sua postura truculenta diante de manifestações sociais, para a igreja católica e sua hipocrisia. Enfim, é farpa para todo lado. O mais assustador de tudo isso é que parece que estamos dentro do livro, que somos personagens ainda vivendo todos os horrores desenhados pela autora, que pouca coisa mudou na sociedade em 100 anos.

Vou deixar o trechinho inicial, que já dá um gostinho das cutucadas da Allende:

“Severo del Valle era ateu e maçom, mas, tendo ambições políticas, não podia dar-se ao luxo de faltar à missa mais concorrida dos domingos e dias de festa, para que todos pudessem vê-lo. Nívea, sua mulher, preferia entender-se com Deus sem auxílio de intermediários, desconfiava profundamente das sotainas e se aborrecia com as descrições do céu, do purgatório e do inferno, mas acompanhava o marido em suas ambições políticas, na esperança de que, conseguindo ele um lugar no Congresso, ela pudesse obter o voto feminino, pelo qual lutava há dez anos, sem que suas gravidezes a fizessem desanimar. (...) Procurou atribuir sua indisposição ao momento do sermão do padre Restrepo em que ele a apontou, referindo-se aos fariseus que pretendiam legalizar os bastardos e o casamento civil, desarticulando a família, a pátria, a propriedade e a Igreja, dando às mulheres posição equivalente à dos homens, em franco desafio a Deus, que, nesse aspecto, era muito preciso.”

Nota: 5/5

Este post faz parte do Desafio Volta ao Mundo em 80 Livros[Chile]Para ver a apresentação do projeto e a lista de títulos/resenhas, clique AQUI ou no banner na coluna à direita. 



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Revi o filme e achei bem corrido. Claro que muita coisa precisou ficar de fora, mas isso me incomodou porque nem me deu tempo de me envolver com os dramas dos personagens. O elenco estelar está ótimo, mas gostei especialmente da Glenn Close encarnando a Férula. A parte sobrenatural aparece apenas em algumas cenas, o que é um ponto negativo, já que o fantástico está impregnado em cada canto do casarão da esquina. E compactaram as ações da Blanca e da Alba numa personagem só – a Alba do filme só aparece criança. Considerando só a adaptação, é uma boa personagem, mas não pude ignorar que tesouraram uma geração ativa dos Trueba. Ainda assim é um filme OK.



Um comentário:

Claudia Leonardi disse...

Eu AMEI este livro!
Foi o primeiro que li da Allende e me despertou a vontade de ler os outros
Li quase todos e ela está entre minhas autoras preferidas.
Ótimo post!
Bjs