segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Desafio Literário 2012: Os da Minha Rua (Ondjaki)


O livro é composto por 22 textos curtos que podem ser lidos de forma independente, como contos, ou como capítulos da história de Ndalu (que também é o nome real do escritor Ondjaki), o protagonista asmático que narra suas aventuras de menino em Luanda, capital da Angola. Eventos escolares, brincadeiras com os amigos, festas de parentes... tudo é contado pela perspectiva de uma criança.


“A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um mais velho a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar”.

Ndalu, também conhecido como Dalinho, nos apresenta a um universo infantil que parece estar cada dia mais distante para nós, seres criados no asfalto selvagem. A infância de Dalinho e de seus amigos e primos foi uma época de descobertas, de invenções e sonhos, sem o sufocamento de apetrechos tecnológicos. Eles brincavam na rua, colhiam frutas das árvores, participavam de desfiles escolares, sentavam-se ao redor dos mais velhos para ouvir histórias. Ao ler a narrativa de Ndalu, cheia de cheiros, cores e texturas, percebemos de quanta coisa abrimos mão em nome do “progresso”.

Mas nem tudo era um mar de rosas para as crianças de Luanda. Como bem nos conta Ndalu, misturando memórias e fatos históricos, a Angola de sua infância era um país pobre, que depois de ser explorado à exaustão por Portugal conseguiu se libertar, mas caiu em uma Guerra Civil violentíssima, na qual três movimentos libertários disputaram o controle com o apoio dos socialistas (principalmente Cuba e a ex-União Soviética), dos capitalistas dos EUA e das forças armadas do apartheid da África do Sul. Vestígios dos conflitos ainda estavam por toda parte: nos poucos produtos novos que chegavam ao país, nos professores cubanos, no preconceito racial.

Um aspecto interessante é a forte presença em Angola das novelas da Globo, especialmente Roque Santeiro, que estava sendo exibida na época. Em vários contos, o ritual sagrado de acompanhar a novela é apresentado e personagens emblemáticos, como a viúva Porcina e Zé das Medalhas, são lembrados. Outro ídolo nacional que também é muito apreciado lá naquelas bandas é o cantor Roberto Carlos. Suas canções embalaram vários romances angolanos.

Além disso, o livro usa uma linguagem simples, cheia de oralidade e frases curtas. Foi bem divertido, para mim, ter contato com palavras e expressões totalmente desconhecidas aqui no Brasil (mas não se preocupem, há um glossário nas últimas páginas) e uma ótima oportunidade de ler uma obra originalmente escrita em português vinda de um país lusófono que não seja o Brasil ou Portugal, bem como conhecer um pouco mais da história de Angola. Muito bom!

“Eu acho que nunca cheguei a dizer a ninguém, talvez só mesmo à Romina, mas na minha cabeça eu sempre escondia este pensamento: as despedidas têm cheiro”.

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Este post faz parte do Desafio Literário 2012 - Tema de Novembro: Escritor AfricanoPara ver minha lista de livros selecionados e outras resenhas já postadas, CLIQUE AQUI. 

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E aproveitando... está no ar a resenha de Selvagens, um dos melhores livros que li este ano. Passe lá no Equalize da Leitura e confira!

4 comentários:

Ana Leonilia disse...

Oi, Michelle :)

Que bacana você resenhar um livro com essa temática.
Admito que desconhecia o título, mas livros críticos, que proporcionam reflexão, muito me interessam.

Eu li seu post sobre o projeto. Que idéia maravilhosa! Vou acompanhar aqui os filmes que você resenhar.
Ainda não assisti "Grande Hotel", mas tenho vontade, pois nunca conferi uma atuação da Greta Garbo.

Bjs ;)

Lígia disse...

Esse livro é um encanto :).
Eu também achei curioso saber que as novelas brasileiras eram famosas em Angola. É interessante perceber as relações entre os dois países e como o Brasil acaba sendo a referência para Angola nessas coisas.

Marília Barros disse...

Também li um livro do Ondjaki para o desafio e identifiquei um monte de aspectos em comum nos dois livros: a infância, as novelas, as sinestesias... Pretendo ler Os da minha rua então, já que adorei AvóDezanove.
Ótima resenha!
Beijos

Vivi disse...

"Ao ler a narrativa de Ndalu, cheia de cheiros, cores e texturas, percebemos de quanta coisa abrimos mão em nome do “progresso”.

Só por esse trecho, o livro já me conquistou. Vou ler!