segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Leia o Livro, Veja o Filme: Cosmópolis

O LIVRO: COSMÓPOLIS


Eric Packer é um multimilionário de 28 anos que mora em um triplex de 48 cômodos em Nova York. Representante da jovem geração que criou empresas e fez fortuna com apenas 1 computador e uma mente visionária, ele passa seus dias dividido entre reuniões com sua equipe e seus caprichos hedonistas. Certo dia, Eric decide cortar o cabelo em um barbeiro que fica a algumas quadras, mas era um dia de caos em NY e Eric leva o dia todo para percorrer uma distância de 10 quarteirões. Nesse curto período de tempo e no limitado espaço de sua limusime, a vida de Eric será transformada completamente.

Eric é um personagem interessante e repugnante. Um daqueles meninos mimados com dinheiro de mais e regras de menos. Os milhões que ele foi capaz de ganhar em poucos anos o tornaram egocêntrico e arrogante. Ele está sempre entediado, procurando algo novo que chame sua atenção e o arranque da monotonia de sua vida. Para ele, seus funcionários são tão insignificantes que não merecem nem ser olhados na cara. Mesmo aqueles que não trabalham para ele não são dignos de seu interesse. Nem mesmo sua esposa, que conhecemos brevemente, entre uma negociação e outra, entre um encontro casual e outro. Para Eric, é apenas mais um negócio, uma questão de cifras.

Toda a história se passa em apenas um dia e dentro do carro de Eric. O automóvel enorme e personalizado é uma extensão do escritório do personagem. É nesse ambiente fechado e claustrofóbico que Eric realiza as reuniões de negócio com sua equipe. Cada especialista vai sendo pego pelo caminho, entra, dá seu parecer e sai, para dar lugar a um novo membro daqui a alguns metros. É também dentro do carro que Eric tem seus encontros sexuais e faz seu check-up de saúde diário. Tudo muito prático e surreal. Por que então uma pessoa que tem todas essas facilidades à mão se sujeitaria a atravessar a cidade para cortar o cabelo?

Como descobrimos em determinado momento, o barbeiro não é uma pessoa qualquer. É o elo de ligação de Eric com seu passado, com o que resta de sua humanidade. Durante o trajeto de um dia, a aura de magnânimo se desfaz, ao mesmo tempo em que perde seu dinheiro, afeta a economia e arrasta para o buraco milhares de pessoas. Eric enfrentará sua decadência e miséria ao reencontrar o passado e enfrentar um homem misterioso.

“Cosmópolis” é um retrato alegórico e em cores berrantes da nossa realidade. Reflete, de modo bruto e ampliado, a ferocidade das relações nos grandes centros urbanos e a frieza do código de conduta social, a violência com que os poucos endinheirados empurram os desafortunados para fora do alcance de sua visão, a tecnologia servindo como ferramenta de aumento do abismo social, os levantes isolados contra o sistema opressor, a cultura do imediatismo, do maior e mais caro.

“Queria o carro porque ele era não apenas excessivamente grande como também agressivamente, ofensivamente grande, grande como uma metástase, um objeto tremendo, mutante, que atropelava todo e qualquer argumento que se levantasse contra ele”.

Uma crítica contundente à nossa sociedade capitalista atual. Recomendo!

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O FILME: COSMÓPOLIS


À primeira vista, a trama pode não parecer tão bizarra quanto as histórias geralmente filmadas por Cronenberg, mas conforme vamos acompanhando seu desenrolar, percebemos tristemente que sim, a realidade (ou a visão de um futuro próximo) pode ser assustadoramente triste e estranha.

Eric e seu indefectível carrinho

O filme capta bem o clima pesado e claustrofóbico do livro. Com certeza deve ter sido um desafio rodar quase todo o filme em um espaço tão confinado. O lado bom é que toda a atenção é voltada para o texto. O que os personagens dizem é muito importante. Aliás, quando Eric (Robert Pattinson) conversa com alguém dentro do carro, quase nunca vemos duas pessoas na tela. É mostrado um personagem por vez. Isso funciona bem, já que parece que cada um está fazendo seu próprio monólogo, o que faz todo sentido, pois os personagens são mesmo centrados em seu próprio raciocínio, reforçando a ideia do individualismo e isolamento.

Tentando fazer contato com a esposa

Como no livro, fica claro que os especialistas que trabalham com Eric morrem de medo de decepcioná-lo, evitam dizer o que realmente pensam para não fazer papel de ridículo, para não perder o respeito do todo-poderoso. Uma das poucas pessoas que ousa falar a verdade a Eric e mostrar a ele o quanto está sendo ridículo é sua amante que trabalha na galeria de arte (vivida por Juliette Binoche).

E recebendo uma das amantes

Os encontros de Eric com sua esposa, Elise (Sarah Gadon), evidenciam o quanto eles são diferentes: enquanto ela é uma herdeira de família tradicional, culta e tímida, ele é o típico novo rico, que adora se exibir e comprar coisas só pelo valor das aquisições. Não há dúvidas de que a união foi um negócio arranjado entre Eric e os pais de Elise e que ela está totalmente perdida e infeliz em seu papel. Mesmo assim, ela tenta se aproximar de Eric, conhecê-lo. No entanto, ele só quer levá-la para cama, fazer dela mais um número em sua lista de mulheres que estão sempre disponíveis para satisfazer seu desejo sexual infinito. Quando ele tenta estabelecer uma conversa e fazer um elogio, percebe-se logo que não leva jeito para a coisa. Para ele, mulheres = sexo. Apenas.

Finalmente cortando o cabelo!

Gostei de acompanhar na tela a transformação de Eric e o desmoronamento de sua vida e de seus valores, apesar do ritmo lento e às vezes entediante do filme. Nesse sentido, a leitura foi bem mais dinâmica. E adorei o encontro final com o homem ameaçador misterioso. Paul Giamatti dá show mais uma vez e se destaca, mesmo que seu personagem fique em cena tão pouco tempo. E é então que percebemos que até no fracasso Eric tem que ser o melhor. Realmente incrível.

E fazendo drama junto ao homem misterioso

Para fãs de Cronenberg e pessoas que não se incomodam com filmes lentos.


Veredicto: Leia o livro e veja o filme.
Confira o trailer!

8 comentários:

Melissa Padilha disse...

Adorei a temática da história, confesso que não conhecia nem livro e nem filme, mas ando impressionada com a quantidade de adaptações de livros para o cinema, eu pergunto se sempre foi assim?
Anotada a dica!
abraços

Tati disse...

Michelle, na época em que saiu o filme fiquei muito curiosa pra ler esse livro, mas foi passando o tempo e deixei pra lá. Agora você reacendeu essa vontade. Acho que pensar nessas questões atuais é sempre bom, e o mundo está mudando tão rápido que quando você começa a pensar ele já mudou.
Tenho esperanças nesse menino sabe, não sei, algo me diz que ele vai seguir uma trajetória semelhante ao DiCaprio. Oremos! hahahaha
Beijo!

Michelle disse...

Sempre que eu entro aqui eu me deparo com alguns dos meus filmes preferidos.
Ano passado fui ver "Cosmópolis" no cinema e saí completamente besta e apaixonada. Adorei a atuação do Pattison e até mesmo o clima arrastado do filme.
Comprei o livro, e assim que finalizar a leitura, vou rever o filme. Acho que não é um daqueles que você pega tudo na primeira vez.
Beijos, MiG!

Jacqueline Braga disse...

Oie
Eu adoro filmes lentos, mas a curiosidade bateu para ler o livro, e apesar do filme trazer o Robert -lindo- Pattinson, eu quero ler antes de assistir.
Deu nervoso só de pensar no moço "vivendo" dentro do carro. E achei super interessante a abordagem do autor, em fazer uma história que se passa em 1 só dia, mas que gera uma trama interessante.
bjos

mm amarelo disse...

Já tive muita vontade de ler esse livro e agora ela aumentou. Acho interessante essa estrutura onde o personagem tem um caminho a seguir, mas as coisas vão chegando a ele e modificando o que ele é.
bjs,
Maira

Michelle disse...

Melissa,
Eu acho que sempre foi assim, mas a gente não fazia ideia. Pelo menos aqui no Brasil, antes da internet era difícil conseguir informações sobre livros que viraram filmes. Poucos livros que ganharam as telas chegaram às livrarias (ou chegaram e a gente não sabia). Agora eu acho que quase todo filme baseado em livro traz o lançamento da história impressa a reboque.

Tati,
Não conheço a carreira do Pattinson. Esse é o segundo filme que vejo com ele (o 1o foi Água para Elefantes e não achei grandes coisas, mas o filme também não me agradou, então...). O Leo eu sei que sempre foi talentoso, depois teve uma fase de galã e só fazia filmes ruins, e nos últimos anos finalmente voltou a escolher bons projetos. Tomara que com o Pattinson ocorra o mesmo.

Michelle,
Eu achei arrastado, mas penso que isso foi intencional, para mostrar o carro se arrastando pelas ruas o dia todo, as pessoas se arrastando pela vida, essas coisas. Mas tem gente que não gosta de filme parado, então eu sempre aviso, para evitar decepções desnecessárias, né?

Jacque,
Se você aprecia ritmos mais lentos, então há grandes chances de você gostar de "Cosmópolis". A história é bem interessante sim.

Maira,
Exato. A jornada de transformação do personagem é bem dura. Eu gostei.

yanny souza disse...

Eu estava procurando algo sobre Cosmópolis, e encontrei este blog, claro que já deixei na minha lista, porque simplesmente amei tudo. Me ajudou muito na minha pesquisa.

Michelle disse...

Oi, Yanny.
Bom saber que ajudei de alguma forma. Volte sempre ;)