segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Resenha: A Máquina de Fazer Espanhóis


António Jorge da Silva é um barbeiro que acaba de fazer 84 anos. Quando perde a amada esposa, ao lado de quem viveu por quase meio século, é levado para morar em um asilo. Desprovido de tudo o que lhe era valioso, António, mais popularmente conhecido como Silva, agora se apega às lembranças e tenta se redefinir em um ambiente totalmente estranho e novo. Na casa de repouso, ele analisa seu passado, faz novas amizades e conhece figuras muito interessantes.

Eu já tinha ouvido falar muito sobre o Valter Hugo Mãe e queria ler algo dele. No ano passado, aproveitei uma promoção para comprar "A máquina de fazer espanhóis" (me desculpe, Valter, mas eu não consigo escrever tudo em minúsculas), que pretendia ler para o mês dos escritores africanos do Desafio Literário. Acabei lendo outra coisa e guardei o livro para uma próxima ocasião. E eis que o momento perfeito chegou, mais uma vez no Desafio Literário, que este mês tem como tema escritores portugueses contemporâneos.

Mas espera... o autor não era africano? Sim, mais precisamente angolano. Só que foi morar em Portugal ainda muito pequeno, sendo tecnicamente reconhecido como escritor lusitano. Por isso, pude agora, finalmente, ler esse livro maravilhoso, que fala sobre amor, sobre perdas, sobre velhice, sobre o sentimento de inferioridade do povo português, sobre os dias negros da ditadura de Salazar... sobre tantas coisas que nem sei o que dizer sobre esse livro.

Exceto que é apaixonante! A escrita do autor é muito bonita e apresenta com delicadeza reflexões sobre a natureza humana. A galeria de personagens é incrível e destaco aqui alguns deles: Américo, o enfermeiro de coração; Esteves, a inspiração para o “Esteves sem metafísica” do poema do Fernando Pessoa; Cristiano, o “Silva da Europa”, que trabalhava no hospital e decide morar no asilo ainda “jovem”, a fim de desfrutar o tempo livre; Anísio, o religioso de 82 anos que coleciona estátuas de santos e ainda faz planos para o futuro; Enrique, o espanhol desequilibrado que tem orgulho de possuir nacionalidade portuguesa e teme tê-la arrancada de si pela terrível máquina de fazer espanhóis.

O Silva protagonista chega ao asilo carregando apenas 2 sacos com seus pertences e 1 álbum de fotos, que logo é recolhido pelos funcionários e substituído por uma estátua da Nossa Senhora de Fátima rodeada de pombinhas, já que é tido como certo que, nessa fase da vida, a religião tem mais utilidade do que as lembranças tristes. Nosso personagem principal, que nem religioso era, obviamente se sente perdido e arrasado e, para demonstrar sua insatisfação, se recusa a falar. No entanto, aos poucos ele percebe que era impossível viver assim e tenta se enturmar com os outros internos.

O grupo de amigos do Silva é bem eclético e animado. Eles adoram provocar uns aos outros. Em suas brincadeiras, às vezes parecem mais garotos que idosos. Todavia, por trás do entusiasmo há sempre um episódio triste, um abandono, um desentendimento, uma morte, um amor não-correspondido. Durante a leitura, fui jogada em uma montanha-russa de sentimentos provocados pelas histórias dos personagens. Não dá para não se emocionar com as experiências deles, assim como não dá para não rir com suas peraltices.

Apesar das conversas, da descontração e até dos planos futuros de alguns moradores do “Feliz Idade”, a morte é uma presença constante. Ela está ali, aguardando pacientemente, esperando que algum velhinho desocupe um dos disputadíssimos quartos para que outro tome seu lugar. As amizades no asilo duram pouco. Não há tempo para desenvolver grandes relacionamentos. A rotatividade de idosos é alta. Só existe um caminho a ser feito ali: dos quartos ensolarados de onde se avista o jardim para os dormitórios da ala voltada para o cemitério, o destino certo que se aproxima dia a dia.

O livro merece destaque também pela forma como o texto é apresentado, sem maiúsculas, sem espaço entre os parágrafos, sem diferenciação gráfica entre a narração e a fala dos personagens. As frases são construídas em um continuum, como os pensamentos. No entanto, é bem simples de ler.

E tenho que falar da capa desta edição da Cosac Naify. Embora pareça, à primeira vista, apenas uma marmorização abstrata, observando com atenção é possível ver os abutres que aterrorizavam o Silva em seus pesadelos. Linda demais!

"O ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas."

Absurdamente tocante. A dura realidade da vida de forma poética. Indispensável.
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Este post faz parte do Desafio Literário 2013 - Mês de Setembro: Escritores Portugueses Contemporâneos. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DL2013, clique AQUI. 

9 comentários:

Agna Farias disse...

Ei Michelle!
Sobre a escrita, ela parece com a do Saramargo em "Ensaio sobre a cegueira"? Li (ou assisti) em algum lugar o Saramargo dizendo que não pontuava o texto para que ele fosse lido com mais atenção, como um motorista precisaria se comportar em uma estrada sem placas rsrsrs...
Gostei da sua resenha, bem me deu vontade de ler :)
Bjo e boa semana procê.

mmamarelo disse...

valter hugo mãe é uma das minhas dívidas. Li algumas coisas sobre ele e sobre seu jeito de escrever, mas, pelo jeito, já esqueci tudo, rs.
Você já leu Saramago? A escrita deles se assemelham na estrutura?
Adorei o tema do livro, e sei que ele foi muito elogiado numa dessas FLIPs. No próximo Cosac Day eu compro.
beijo grande,
maira (em minúsculas ;)

Michelle disse...

Agna e Maira,
Essa característica de falta de pontuação/marcação lembra bastante o Saramago. Aliás, o próprio Saramago elogiou o Valter. Ou seja... é muito bom!

Carissa Vieira disse...

Não conhecia o autor nem o livro, mas parece interessante.
Pelo que li nos comentários o Saramago elogiou o autor. Uau!

Beijos

Tati disse...

Que resenha maravilhosa Michelle!! Já me deu muita vontade de ler esse também <3
Vai sair um novo dele, chamado A desumanização, você já viu? Pelo título, parece ser tão bom quanto.
Beijo enorme!
Tati

Jacqueline Braga disse...

Oie Mi
adoro seu blog, porque conheço tantos títulos novos que eu não fazia ideia que existiam. Esse é mais um deles. Ultimamente estou numa vibe pegar autores desconhecidos e de diversas nacionalidades para ler. Só essa semana já li um autor francês e dominicano.
Gostei da história do livro. engraçado que esses dias estava falando sobre envelhecer e o medo de ser colocada em um asilo. a atmosfera de um lar para idosos parece ser tão lúgubre e triste.
Vou anotar a dica, pois o livro parece ser maravilhoso
bjos

Angélica Roz disse...

Oi Michelle!

Que bacana! Eu ainda não tinha ouvido falar nesse livro!
É justamente por isso que gosto tanto do seu blog! Você sempre tem livros interessantes para mostrar. :D
Vou ir olhar lá no Skoob...

E achei muito interessante a narrativa! Fiquei bastante curiosa!!

Beijos!

Bruxa do 203 disse...

Fiquei louca para conhecer! Li poucos autores africanos e foram experiências bem positivas.

Michelle disse...

Carissa,
É isso mesmo. Vale muito a pena conhecer ;)

Tati,
Eu vi! Já estou querendo...hehe

Jacque,
Obrigada! Envelhecer é também meu maior medo. E acabei de pegar dicas desses escritores lá no seu blog, viu? Adoro essas trocas!

Angélica,
Eu amei o estilo único do livro. É bom variar às vezes, né?

Bruxa,
Eu também li poucos e quero conhecer outros. Tem sido ótimo!