sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Leia o Livro, Veja o Filme: Breve Romance de Sonho / De Olhos Bem Fechados

O LIVRO: BREVE ROMANCE DE SONHO

Na Viena dos anos 20, Fridolin e Albertine formam um jovem casal que leva uma vida perfeita: eles são bonitos, prósperos, se amam e têm uma filha de 6 anos. Uma noite, depois de um baile de máscaras em que não conheciam quase ninguém, marido e esposa conversam sobre o evento e Albertine conta ao cônjuge sobre a atração que sentiu por um desconhecido logo nos primeiros anos do casamento. A conversa é interrompida por uma chamada urgente de um dos pacientes do Dr. Fridolin. Ele vai até a casa do doente, encontra-o morto e, perturbado pelo ciúme causado pela revelação da esposa, flerta com a filha do falecido. Pelo restante da noite, Fridolin vaga pela cidade, se envolve com uma prostituta, reencontra um ex-colega de faculdade e participa de uma festa privativa orgíaca.

“Breve Romance de Sonho” já estava na minha estante havia mais de 10 anos. Faz parte de uma daquelas coleções vendidas em banca de jornal. Me interessei pela história na época do lançamento, mas depois acabei deixando de lado. Minha curiosidade sobre a trama só despertou novamente no ano passado, quando visitei a exposição do Kubrick no MIS e passei pela sala das máscaras, que representava a adaptação do livro feita pelo cineasta. Com o tempo de leitura de fevereiro curto demais para encarar "Anna Karenina", achei que era hora de tirar meu clássico do Schnitzler da prateleira.

Em suas 95 páginas, o romance nos transporta para as fantasmagóricas ruas da noite vienense e nos apresenta seus personagens peculiares. A rotina equilibrada e tranquila do casamento de Fridolin e Albertine é quebrada por uma confissão despretensiosa de um desejo juvenil da mulher, que gera no esposo uma onda avassaladora de ciúme, insegurança e vontade de dar o troco (por uma coisa que nem aconteceu). De repente, é como se ele não conhecesse mais aquela pessoa com quem divide a cama. Passa a duvidar dela e a enxergá-la em atitudes pecaminosas por todo lado. Mergulha em uma espiral de delírio e perde a noção do que é real e do que é sonho.

É interessante notar a presença constante da morte sedutora em todo o livro. Fridolin, em seu acesso de raiva, se imagina em um duelo de sabres com os estudantes que trombam com ele na rua e que riem de sua cara (o que lhe faz lembrar da história contada pela esposa). Depois, deseja ter uma pistola para atirar no desconhecido dinamarquês que despertou o interesse da adolescente Albertine. Mais adiante, vai atrás da prostituta de lábios vermelhos (mais um perigo) e decide invadir a festa privativa da qual o amigo lhe falara por descuido (mesmo com a advertência de que sua vida correria perigo se fosse descoberto). Para Fridolin, nada mais importa.

O sexo é um forte indicativo de sonho na história. Foi a suposta traição da esposa que levou Fridolin a se jogar alucinadamente na noite atrás de compensação e ele chega perto de materializar seu desejo algumas vezes: quando vai com a prostituta até o apartamento dela (mas nada acontece), quando entra de penetra na festa secreta em que rolava uma orgia (mas é desmascarado), quando volta novamente ao apartamento da prostituta (mas fica sabendo que ela está doente). Em suas fantasias, ele vê a esposa transando em todo lugar, mas quando ele está próximo de conseguir o sexo que tanto deseja, algo o traz de volta à realidade, como se acordasse de um sonho.

Não quero dar spoiler, então não vou falar muito sobre o final. Mas quero dizer que as máscaras do baile que abre a trama, da festa secreta e da fantasia perdida de Fridolin são muito simbólicas, como se o autor nos questionasse sobre nossas próprias máscaras que usamos no dia a dia. Achei simplesmente genial.

Ah... e como o livro foi escrito por um austríaco, em breve teremos uma receita da Áustria por aqui :)

“Afinal, por mais que pertencessem um ao outro no que sentiam e pensavam, sabiam que, não pela primeira vez, um hálito de aventura, liberdade e perigo os tocara na noite anterior; temerosos, atormentando-se em curiosidade silente, buscavam arrancar confissões um do outro e, aproximando-se amedrontados, procuravam em si próprios por algum fato, indiferente que fosse, por alguma experiência, ainda que sem importância, que pudesse dar expressão ao inexprimível, e cuja sincera confissão porventura os libertasse de uma tensão e uma desconfiança que, pouco a pouco, começava a fazer-se insuportável.”

Uma história interessante, dramática, tensa. Tudo isso em menos de 100 páginas. Não é um clássico por acaso. Leitura mais que recomendada!

Este post faz parte do Desafio Literário Skoob 2014 - Mês de Fevereiro: Clássicos Mundiais. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DLSkoob2014, clique AQUI. 

Este post faz parte do Desafio 12 Livros, 12 Receitas - País Escolhido: Áustria. Para ver a lista de títulos e pratos selecionados e outros posts do projeto, clique AQUI. 



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 O FILME: DE OLHOS BEM FECHADOS

Como eu disse na resenha do livro, foi a exposição do Kubrick que me fez ter vontade de ler o livro e, claro, de assistir ao filme. Em “De olhos bem fechados”, a capital austríaca dos anos 20 é trocada pela Nova York dos anos 90. Encontramos o casal Alice (Nicole Kidman) e Bill Harford (Tom Cruise) se preparando para ir a uma festa de fim de ano na mansão de um dos pacientes de Bill.


Assim como no livro, o casal não conhece quase ninguém no local e se separa logo no início da festa, fazendo com que cada um tenha que lidar com flertes dos convidados. Quando voltam para casa, Alice fala sobre o que aconteceu na festa, pergunta se Bill não tem ciúme dela e desenterra a paixonite juvenil que sentiu pelo desconhecido no começo do casamento. Depois disso, a trama continua seguindo fielmente os acontecimentos do livro quase até o final, quando uma alteração significativa é feita para explicar a presença de um personagem inexistente na obra escrita.


A transposição do cenário não afetou em nada a força da história. A escolha do casal de protagonistas não poderia ter sido melhor: Tom Cruise ainda mantinha a aura de galã anos 80 com sua cafajestice fofa e Nicole estava no auge da beleza e interpreta muito bem a esposa tanto ingênua quanto provocante e extremamente racional. Vale lembrar que os atores eram casados na época das filmagens, o que provavelmente conferiu uma intimidade perceptível.


Gostei muito do fato do diretor ter iniciado o filme com a festa para depois entrar na conversa do casal. No livro eles já começam falando sobre o baile do dia anterior. Mostrar a festa é muito importante, pois ali já havia indícios do que seria discutido a seguir e a mansão é palco de revelações significativas para Bill, que voltará ali em determinado momento. As demais alterações são pequenas e insignificantes.


Vale ressaltar as cenas que se passam na festa secreta. O ritual descrito no livro é amplificado na tela e ganha um poderoso aliado: a música. Kubrick tornou toda a sequência inesquecível, além de conseguir construir uma orgia sensual e nada ofensiva. E o que dizer daquelas máscaras assustadoras? Medo!


Fiquei tão empolgada com o filme que peguei meu exemplar de “Conversas com Kubrick” atrás de mais informações sobre a produção. Descobri algumas curiosidades sobre os bastidores, a difícil tarefa que foi escolher as máscaras, as diferenças intencionais entre a interpretação visceral de Nicole e a postura mais fria de Tom, umas manias do cineasta e vários detalhes sobre o visual do filme, que evita o velho truque manjado de criar uma atmosfera de sonho com imagens desfocadas e investe em insinuações de realidade/sonho por meio das cores de alguns elementos. Ah, sim... ainda fala sobre a escolha do título do filme – tão simbólica quanto a escolha das máscaras.


Uma ótima adaptação que foi considerada um erro gigantesco na carreira de Kubrick, mas que o tempo se encarregou de revelar como uma obra-prima. 

Trailer:

6 comentários:

lualimaverde disse...

Mi, vou guardar sua resenha pra ler depois porque estou louca pra fazer essa dobradinha também, faz parte do meu mini-projeto Kubrick, rs. ;-)
Beijo!

fluxosdesconexos disse...

Adoro o filme, apesar de lembrar muito pouco dele. Devia estar saindo do ensino médio quando o assisti e lá se foram pelo menos dez anos. Fiquei empolgada em revê-lo e, mais ainda, em ler o livro.

Já estou anotando, para um próximo passeio nas livrarias (físicas ou virtuais).

Flávia disse...

Eu já assisti ao filme, mas nao lembro do final, rsrsrsrs. Só lembro que gostei!!!!! Percebo que temos sempre que pensar antes de falar. Olga o estardalhaço causado por um comentário inofensivo?? Nao conhecia o livro, parabéns pela resenha, sempre esclarecedora.
Beijosssssss

Lígia disse...

Não sabia que o filme era baseado em um livro. Fiquei curiosa para ler e assistir, os dois vão para minha listinha. :)

Débora Molliet disse...

Nossa, eu não fazia ideia que existia um livro que inspirou esse filme! Acho o filme todo um pouquinho confuso mas realmente o tom misterioso e sensual que domina o longa desde o início é o ponto máximo da obra.
Sobre o título, você citou que teve um motivo para tal escolha...
Qual seria? Fiquei curiosa hahahaha
Gostei muito do post :)

Michelle disse...

Lua,
Legal! Depois a gente conversa então.

Fluxosdesconexos,
Eu nunca tinha me animado com o filme, mas adorei ter escolhido essa história. Foi uma ótima experiência.

Flávia,
Né? Só um comentário inocente pode degringolar toda a situação.

Lígia,
Que bom! Depois conta o que achou ;)

Débora,
Tem a ver com as máscaras que todos usamos, com as pessoas que fecham os olhos para o que não querem ver.