quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Resenha: A Arte de Produzir Efeito Sem Causa


Júnior abandona de uma só vez o emprego e a esposa e vai morar com o pai. Sem dinheiro, sem casa, sem amor próprio e sem perspectivas, passa os dias dormindo no velho sofá do apartamento ou vagando pelas ruas, onde gasta os últimos trocados com bebida e cigarro. No entanto, a monotonia de sua rotina é quebrada quando caixas contendo mensagens enigmáticas e objetos estranhos começam a chegar pelo correio.

Um único evento, que o autor chama de "infeliz coincidência", faz com que Júnior abandone emprego e esposa. O trauma é tanto que ele fica totalmente desorientado e sem motivação pra nada. O pai, José Sênior, quer apoiar o filho, mas, conforme o tempo passa e ele nota a falta de reação de Júnior, intensifica a pressão para que o hóspede indesejado arrume um emprego a fim de ter a antiga rotina da casa restaurada, afinal, ele tem um interesse especial nisso.

Rejeitado pela ex-mulher, ignorado pelo ex-patrão, pressionado pelo pai, Júnior vai ficando cada vez mais estressado e deprimido, afogando as mágoas na bebida. O único momento de alegria de seus dias são suas breves conversas com Bruna, a jovem estudante de artes que aluga o antigo quarto de Júnior e de seu irmão, Pedro. Quando os misteriosos pacotes começam a chegar, Bruna se oferece para ajudar a decifrar a mensagem e, sem querer, acaba sugada para a espiral de insanidade de Júnior.

Faz tempo que eu queria ler algo do Mutarelli, mas só tirei esse livro da estante agora porque o filme (“Quando eu era vivo” – falei dele AQUI) estava para estrear e, como de hábito, eu queria ler antes. O que encontrei nas páginas dessa obra foi uma escrita direta, simples, feita de frases curtas e impactantes. Às vezes, entre as frases, surgem números de série e nomes de peças de automóveis, indicando a única coisa certa e imutável que restou na vida de Júnior, seu último resquício de lucidez, ao qual ele se agarra desesperadamente. Em determinado momento, Júnior começa a se ver dividido em dois, fazendo a mesma ação duas vezes: uma de suas metades agia em velocidade normal e a outra em slow motion. E essa repetição de cenas acontece no livro pela repetição de palavras e frases. Perturbador.

Conforme se afunda na bebedeira e se torna cada vez mais obcecado em resolver o quebra-cabeça enviado por Sedex, Júnior vai desenterrando objetos e lembranças da infância ao lado do irmão (que está preso) e da mãe, que gostava de estudar civilizações antigas e demônios. Em sua mente já debilitada, tudo se mistura e ele não consegue mais distinguir imaginação de realidade. A angústia e o delírio do protagonista são tão grandes que me peguei segurando a respiração em determinados trechos da leitura. Fiquei até com dor de cabeça. Vivenciar a experiência de Júnior foi bem extenuante.

"O metrô está vazio. Já passa das onze. Júnior carrega a expressão da desilusão e uma pequena mala. Respira com dificuldade pela boca. Seu rosto parece uma máscara. A máscara do desengano. Ou do engano? O maquinista ou uma gravação anuncia a próxima estação. Júnior nunca conseguiu descobrir quem anuncia as estações. Levanta com dificuldade e salta. Caminha de maneira letárgica, mecânica, como se algo o empurrasse, com esforço. Carrega uma pequena mala e quarenta e três anos mal-dormidos".

Apesar de ter terminado a leitura mentalmente esgotada, foi incrível. Adorei a forma como o autor transporta o leitor para dentro da história e da cabeça de Júnior. Quero mais! 
Ah... indicação especial para fãs de William S. Burroughs.

7 comentários:

Marcia Cogitare disse...

Oi Michele, muito bacana tua resenha.

Mutarelli sempre nos suga, nos coloca pra pensar, gosto disso.

Eu preciso ler mais este autor e tua resenha me fez lembrar disso.

Hug

Tati disse...

Mais uma excelente resenha, mais um livro pra lista :D
Também tem um tempo que quero conhecer a escrita do Lourenço!
Mig, você já leu O sonâmbulo amador? A história não é parecida com esse livro, mas enquanto lia sua resenha, lembrava dele então acho que vale a conferida!
Beijo!

Maura C. Parvatis disse...

Fiquei com vontade de assistir o filme e agora que sei que ele é uma 'adaptação bem livre' do livro, fiquei mais interessada.
Nunca li nada do Murtarelli, tenho um interesse enorme por esse autor, ele parece ser fodão.
Vou ler a crítica do filme, e espero ler o livro em breve ;)

Beijos!

Lígia disse...

Tenho vontade de conhecer a obra do Mutarelli e fiquei curiosa ao saber desse livro, mas provavelmente assistirei o filme antes.

Beijo!

Livros Incríveis disse...

Com certeza quero ler o livro para depois ver o filme. Uma ótima resenha Mi... e a lista só aumenta. :) beijo

Michelle disse...

Marcia,
É isso mesmo. Mutarelli é vampiro...rs. A leitura de seus livros é extenuante, mas vale a pena.

Tati,
Li uns comentários sobre "O sonâmbulo amador" e já entrou para minha lista de leituras futuras. Acho que vou gostar...

Maura,
Esse é um caso em que a ordem "leitura/filme" não importa, já que a abordagem de cada história é bem diferente. Gostei de ambos, mas o livro foi mais impactante.

Lígia,
Como eu disse acima, pode ver antes sem problema. É bem diferente do livro, viu?

Rachel,
Depois me conta o que achou. ;)

Patrícia disse...

Estava procurando opiniões sobre este livro e acabei aqui. Muito bacana sua resenha.Eu particularmente gosto de livros perturbadores. Depois da última página eles fazem a gente suspirar fundo e olhar com mais otimismo a nossa própria vida. Abraço!