segunda-feira, 14 de julho de 2014

Resenha: Os Deixados Para Trás


O dia 14 de outubro ficou marcado como aquele em que milhões de pessoas desapareceram, como se simplesmente tivessem evaporado. O estranho fenômeno, chamado pelos cristãos de "Arrebatamento" - o dia em que os seguidores de Jesus vão se encontrar com ele no céu, e de "Partida Repentina" pelos cientistas, sábios e políticos são duas faces de um mesmo evento. Na história, acompanhamos como esse dia fatídico mudou para sempre a vida dos moradores da cidadezinha de Mapleton, nos Estados Unidos.

Tom Perrotta se inspirou em elementos da Bíblia para criar uma trama intrigante que vai além da religiosidade e explora como esse misterioso desaparecimento afetou os sobreviventes (“Os Deixados Para Trás”). Poderia ser uma guerra, um ataque terrorista ou uma catástrofe com causas naturais. Não importa. Diante das adversidades, as pessoas reagem de formas diferentes e é esse o foco do livro.

No caso, o sentimento imediato foi de pânico. Claro. Imagina você estar falando com uma pessoa e ela desvanecer diante dos seus olhos. Depois, surgem as teorias para explicar o ocorrido: aqueles que creem na Bíblia se alegram e interpretam o evento como um sinal de que o fim está próximo e que eles em breve irão para o céu. Por outro lado, racionalistas tentam encontrar justificativas lógicas para o que aconteceu. Três anos após o sumiço, acompanhamos alguns personagens e como lidaram com as perdas.

No dia da Partida Repentina, algumas pessoas perderam familiares e amigos, enquanto outras passaram completamente ilesas. Mesmo assim, todos sofrem. A família principal do livro aparentemente teve sorte e nenhum de seus membros desapareceu. No entanto, isso não bastou para mantê-los juntos. Laurie, a esposa, se sente desorientada, triste e culpada por continuar vivendo. Não vê mais sentido em nada e acaba saindo de casa para se juntar aos “Remanescentes Culpados” – grupo que faz voto de silêncio e abre mão de toda e qualquer regalia na vida (vestem só roupas simples e brancas, se alimentam de comidas sem gosto, vivem em alojamentos e dividem colchões, fumam sem parar para abreviar o que resta de sua existência).

Jill, a caçula, não vê mais sentido em continuar se empenhando na escola, já que o futuro parece não existir. Começa a sair todas as noites, bebe, usa drogas, participa de jogos sexuais que não lhe agradam. Faz qualquer coisa que possa tirá-la do estado permanente de torpor. Seu irmão mais velho, Tom, abandona a faculdade e vira discípulo fiel de um "profeta salvador". Por fim, Kevin, o marido, vê sua família se desintegrar dia a dia e não consegue fazer nada para impedir a ruína. Usa todo seu esforço no cargo de prefeito para tentar fazer com que o resto da população, pelo menos, supere o trauma e siga em frente com suas vidas.

Acompanhamos ainda outros personagens, mas não vou falar de todos aqui para não alongar demais a resenha. O mais legal, para mim, é ver como esse evento inexplicável transformou a todos. Enquanto alguns cristãos se animaram com a perspectiva de um Arrebatamento, outros se indignaram e, com o passar do tempo, se dedicaram a provar que os Arrebatados não eram merecedores da dádiva e que, portanto, o que aconteceu não era Arrebatamento. A situação não foi mais fácil para os que não tinham fé. Algumas pessoas tiveram força para superar as perdas e continuar com suas vidas, outras caíram em depressão; há ainda as que se sentiram culpadas e até descrentes que mudaram de opinião.

Outro assunto bem explorado no livro é o surgimento de falsos profetas. Não que todo profeta seja falso, mas há pessoas que se aproveitam de um momento de desespero alheio para tirar vantagem, e Perrotta critica esse comportamento sem dó. Além disso, também nos faz pensar em como os mortos são romanceados, ou seja, como determinada pessoa passa a ser vista depois de morrer (alguns são pintados melhores enquanto outros são considerados piores do que realmente eram). Interessante.

"As duas deviam estar sentadas na entrada da casa havia meia hora sem avistar ninguém, quando viram um sujeito velho e raivoso andando na rua com seu trêmulo cachorro chihuahua. O homem olhou fixamente para elas e resmungou algo que Laurie não conseguiu ouvir muito bem, embora tivesse certeza de que não fora 'Feliz Natal'. Até aderir aos R.C., Laurie nunca havia compreendido de fato como as pessoas podiam ser rudes, como se sentiam livres para agredir e ofender pessoas totalmente desconhecidas."

Mais do que um livro sobre fé e religiosidade, é um livro sobre perdas e o poder de superação. Recomendo muito.

4 comentários:

Jacqueline Braga disse...

oie Mi
não tinha tanto interesse em ler o livro antes da série, mas agora confesso que surgiu uma curiosidade, ainda mais com a sua resenha.
Quero ler logo, pois estou gostando da série.
bjos
www.mybooklit.com

Patrícia Di Carlo disse...

Oi frô!
já estava interessada por esse livro, após ter lido uma sinopse e já o deixei no e-reader, mas agora com a sua opinião e indicação a vontade de passá-lo à frente de alguns aumentou... ;o)

Xerinhos!
Paty

Lígia disse...

Acho a premissa desse livro muito interessante. Faz tempo que estou com vontade de ler, e agora com a série a vontade só aumentou. :)

Bia Machado disse...

Por várias vezes pensei nesse livro, mas acabava deixando de lado. Meu interesse voltou quando conheci o livro dele, chamado "Criancinhas", que virou filme. Agora me deu curiosidade mais ainda. E esse livro virou uma série, não foi isso? Ou estou enganada? Parabéns pela resenha! ;)