segunda-feira, 6 de abril de 2015

Leia o Livro, Veja o Filme: The Lodger / O Inquilino

O LIVRO: The Lodger


Um casal que sempre trabalhou servindo aos outros conseguiu juntar dinheiro, comprar uma casa bacana e montar uma pousada. Porém, com o passar dos anos, viu os inquilinos desaparecerem e sua renda diminuir. A sorte deles parece prestes a mudar quando bate à sua porta um homem procurando um quarto para alugar. Apesar de seu comportamento excêntrico, ele era um verdadeiro cavalheiro. Ou assim pensava a dona da casa, a única autorizada a servi-lo. Aos poucos, ela percebe indícios de que seu inquilino pode estar ligado à morte de várias mulheres e, em um misto de medo, piedade e fascinação, tenta proteger o homem da polícia, ao mesmo tempo em que sofre por saber que pode estar abrigando um assassino.

No começo da história, conhecemos um casal batalhador que vê dia a dia suas economias irem pelo ralo e que está numa fase extrema de corte de gastos: vive com aquecimento mínimo (apesar do impiedoso inverno londrino), mantém apagadas todas as luzes da casa (até mesmo a da fachada em que estava a placa oferecendo quartos vagos) e começa a cogitar se desfazer dos móveis (algo que eles valorizavam muito e que havia sido o primeiro sinal de ascensão social que conseguiram). Até mesmo o tabaco e o jornal (as únicas coisas que mantinham a sanidade do Sr. Bunting) corriam perigo, quando surge o tal inquilino.

Apesar de seu porte elegante e dos bons modos, o Sr. Sleuth é um homem de hábitos muito peculiares: aluga logo dois quartos (pois queria dormir em um e conduzir 'experiências' no outro), exige ser servido apenas pela Sra. Bunting, acorda só perto da hora do almoço e passa as tardes lendo a bíblia e realizando ‘estudos’, sai todas as madrugadas para passear (ignorando o clima gélido). Quando estava em seu quarto, proibia interrupções e, quando saía, trancava tudo. Nas manhãs seguintes aos passeios noturnos, o Sr. Sleuth estava sempre exausto e a Sra. Bunting constantemente percebia indícios de que boa coisa seu inquilino não andava aprontando: uma mala misteriosa que sumia, uma roupa rasgada, um casaco manchado de sangue.

Somando essas pistas à esquisitice do inquilino e aos corpos de mulheres assassinadas que começam a aparecer cada vez mais perto de sua casa, ela logo deduz o que está acontecendo, mas guarda o segredo para si. O ponto forte do livro é exatamente a angústia da Sra. Bunting diante do conhecimento desse fato horroroso e as dúvidas que a corroem: ela se sente culpada por abrigar um assassino, mas teme perder a recém-adquirida fonte de renda que lhe devolveu a felicidade de pequenos confortos; além disso, ela, assim como a maioria da população de origem humilde de Londres, não vê a polícia com bons olhos e se recusa a dedurar alguém; por fim, tem ainda a empolgação de ser o único contato do inquilino com o resto do mundo, de saber que consegue manter um segredo como esse bem guardado do marido e principalmente do jovem policial que frequenta a casa e atualiza diariamente o Sr. Bunting a respeito da investigação do “Vingador”, que é como o matador assinava os bilhetes encontrados junto aos corpos das vítimas.

No entanto, com o passar do tempo, o fardo do segredo fica cada vez mais pesado para a Sra. Bunting e ela vai definhando dia a dia: não consegue comer nem dormir, passa a ter tonturas e palpitações, se sobressalta por qualquer coisa, sofre, e sofre e sofre... A solução de seus problemas surge com a chegada da enteada, que conduz a história a um desfecho empolgante.

A autora se inspirou na história real de Jack, o Estripador, que aterrorizou Londres no século 19. Adorei acompanhar a decadência da Sra. Bunting e sua admiração mórbida pelo matador. O livro foi adaptado por Hitchcock em 1927 e foi seu primeiro filme de sucesso.

A história é mais sobre os efeitos psicológicos do segredo sobre a Sra. Bunting do que uma trama policial. Gostei bastante e recomendo.

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O FILME: O Inquilino

Terminei o livro e fui toda empolgada ver o filme. O que eu encontrei é uma história que guarda muito pouco daquela impressa nas páginas.

Os Bunting acompanham as notícias

Hitchcock já mostra seu fetiche por loiras nesse seu primeiro sucesso comercial. Em sua versão da história, o assassino mata moças de cabelo claro (e é até engraçada uma cena que mostra as jovens botando peruca para sair às ruas) e guarda a foto de uma loira em seu quarto.

Hitch já botava loiras no banho nessa época
Daisy, a enteada dos Bunting, que no livro era uma garota inocente que cuidava de uma tia idosa, com quem morava, e que demora inúmeros capítulos para enfim engatar um namoro casto com o jovem policial amigo do casal, na versão hitchcockiana é uma moça bem saidinha, que vive aos beijos com o oficial e trabalha como modelo e, vejam só, é loira, e se transforma na nova obsessão/paixão do excêntrico inquilino.

Maníaco sedutor

Nem preciso dizer que o que era uma trama com viés psicológico vira uma história de amor proibido entre Sleuth e Daisy. Não posso dizer que o filme é ruim, mas foi bem decepcionante para mim, porque não encontrei na tela nada do que havia me encantado no livro. Hitchcock já usava umas tomadas bem bacanas naquela época (como quando faz uma montagem dos passos do assassino no andar de cima que se refletiam no andar inferior), mas, infelizmente, eu esperava outra coisa.

Em todo caso, é um bom filme e deve agradar mais se o espectador não fizer comparações com o livro.



Este post faz parte do 'Hitchcock Reading Project'. A lista de livros e suas adaptações com as respectivas resenhas está AQUI.



- O livro (em inglês) está disponível gratuitamente no site do Project Gutenberg.
- O filme está disponível online no site do Open Culture (aliás, tem 23 filmes dele lá). É um filme mudo, então não tem desculpa de não ver porque não tem legenda.

Um comentário:

Maira Neves disse...

Michelle, ando doida pra ler a Hq do Allan Moore e não conhecia esse filme. Quero conhecer mais dessa história antes de chegar na Hq. Vou ver o filme e depois te digo o que achei. Bjão