quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Resenha: Butcher's Crossing


Will Andrews, o protagonista, é um rapaz de 23 anos que abandona o terceiro ano do curso de Direito em Harvard e vai para o Kansas, atrás de algo que nem ele sabe ao certo o que é. Chegando à cidadezinha de Butcher's Crossing, que se resume a três ruas e seis edifícios, ele se instala no hotel e depois vai procurar o Sr. McDonald, negociante de peles e amigo de seu falecido pai. O comerciante oferece a ele um emprego de contador, mas, no fundo, sabe que o jovem não havia cruzado país até as terras bravias do oeste para passar o dia enfiado entre pilhas de papéis – como todos os forasteiros, ele estava atrás de aventura.

Sendo um homem vivido, o Sr. McDonald logo sugere a Andrews que fosse procurar o Sr. Miller, um dos melhores caçadores da região. Ao conhecer e conversar com ele e com seu fiel escudeiro Charley Hoge, Andrews se anima diante da perspectiva de caçar uma enorme manada de búfalos que apenas Miller sabia onde encontrar nas Montanhas Rochosas, no Colorado. Decide, então, financiar a empreitada e, assim que o esfolador Schneider se junta ao grupo, eles partem na ambiciosa missão.

É interessante observar a dinâmica entre indivíduos com personalidades tão distintas: Miller é o líder destemido que passa incólume pelas adversidades e que vai ficando cada vez mais à vontade em um ambiente hostil; Andrews é o novato que não aguentava mais ficar ouvindo doutrinação na faculdade e na igreja e inicia a viagem buscando se conectar com seu lado primitivo, embora sofra horrores para se adaptar à vida selvagem; Charley é um velho que teve a mão amputada devido ao frio intenso que enfrentou em uma caçada anterior com Miller, mas, mesmo assim, confia cegamente no amigo; Schneider é o cara que só aceita o trabalho pelo dinheiro, que não tem a ganância nem os delírios de grandeza de Miller, e, por isso, às vezes discorda dele, mas segue os comandos do outro de qualquer forma.

Assim como em “Stoner”, o autor conduz a história devagar, descrevendo detalhadamente paisagens e sensações. No entanto, ao contrário do que aconteceu quando li aquele outro livro, desta vez eu não tinha expectativas, e acho que o ritmo lento foi importante, já que, como na natureza, tudo ocorre no tempo devido e não há como acelerar ou retardar as coisas. Paciência e perseverança são tão cruciais quanto a força física e a sanidade mental.

Confesso que demorei a perceber que havia gostado do livro. Toda a matança dos búfalos somada às atitudes e comentários revoltantes de Charley (que botava estricnina nas carnes dos animais abatidos e abandonados na floresta só para matar os lobos – que ele achava que eram emissores do diabo, assim com as mulheres e os índios) começou a me irritar em certo ponto. Eu sei, é uma trama que se passa na segunda metade do século 19 e que retrata a mentalidade da época, mas começou a me incomodar a certa altura. Eu já estava torcendo para todo mundo morrer pisoteado pela manada, devorado pelos lobos, congelado, envenenado, sei lá. Mas... conforme comecei a escrever a resenha, cheguei à conclusão de que a história é boa, sim.

Por fim, posso dizer que recomendo essa narrativa que retrata muito mais do que a mudança física dos personagens: revela o embrutecimento, a perda da inocência e o esfacelamento dos sonhos daqueles homens.

Nota: 4/5

“Era uma sensação, uma necessidade urgente de falar. Mas ele sabia que, independentemente do que dissesse, seria apenas um nome, algo inapropriado para descrever a natureza selvagem que ele buscava. Era uma forma de liberdade e beleza, de esperança e vigor, que lhe parecia a base de todas as coisas mais familiares em sua vida, que não eram livres nem belas, tampouco cheias de esperança ou vigor. O que ele buscava era a origem e a salvação de seu mundo, um mundo que sempre parecia recusar as próprias origens, em vez de buscá-las, tal como a relva a seu redor lançava as raízes fibrosas na terra fértil e escura, na natureza selvagem, renovando-se justamente dessa forma, ano após ano.”

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“Butcher’s Crossing” é o próximo livro a ser discutido no Leituras Compartilhadas dos Espanadores, dia 19 de agosto.

- O Kalebe fez uma resenha muito bacana e cheia de links interessantes. Espia lá! :)

4 comentários:

Marta Skoober disse...

Mi, gostei da resenha! Mas acho que o livro não é para mim, não nesse momento. Acho que as coisas que a incomodaram, também me incomodariam.

PS: Eu acho legal livro de ritmo lento.

Michelle disse...

Marta,
Nem sempre o ritmo lento me agrada, mas nesse livro ele foi bem importante. Quando estiver em um momento melhor, acho que você vai gostar da leitura :)

Marcia Cogitare disse...

Oi Michelle, gostei muito como abordou o livro.

A natureza é um personagem aqui, e realmente é quem dita o ritmo da narrativa.

Já sobre Miller ser ganancioso, eu fiquei meio em dúvida, sempre me pareceu que ele curtia mais o ato da caçada que o dinheiro em si.

Estou ansiosa para ler Augustus, espero que a Rádio Londres publique logo.

Hug

Michelle disse...

Marcia,
É verdade. Quando eu li, tive essa impressão que era por dinheiro. Depois, durante a discussão no clube, realmente ficou claro que era mais pelo prazer de matar. O que é bem perturbador!
Preciso ler mais um livro do autor para dar meu veredicto sobre ele... hahaha