segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Resenha: O Jantar


Um jantar em um restaurante da moda em Amsterdã. Dois casais discutem o que fazer a respeito de uma situação grave envolvendo seus respectivos filhos adolescentes, já que a decisão tomada afetará o futuro de todos. No decorrer da noite, pratos são servidos e recolhidos, enquanto a conversa vai ficando cada vez mais tensa. Até onde os pais estão dispostos a ir para proteger sua prole?

Quando li a sinopse do livro, lembrei logo de "O Deus da Carnificina", uma história sobre dois casais que se reúnem no apartamento de um deles para falar sobre a agressão do filho de um casal ao filho da outra dupla. O que começa como uma conversa civilizada termina como um festival de ataques verbais entre os adultos. Em "O Jantar" a situação é parecida, porém mais séria: os garotos cometeram um crime. Não vou entrar em detalhes sobre o que eles fizeram, mas posso garantir que é algo revoltante e visto com certa frequência em nossos telejornais. Em determinado momento da discussão, inclusive, um dos pais argumenta que "Era a Holanda. Não era o Bronx, não estávamos nas favelas de Joanesburgo ou nas do Rio de Janeiro”. É. Apenas uma tentativa de justificar o injustificável, dando como exemplo uma cidade aí do terceiro mundo ou um bairro periférico de um país qualquer.

É importante dizer que o exemplo acima não foi aleatório. Um ponto crucial da trama de Herman Koch é a crítica às aparências, à superficialidade, ao esnobismo daqueles que têm uma condição de vida um pouco melhor que a dos demais e que se julgam acima da lei. O autor sintetiza no personagem de Serge Lohman o comportamento egocêntrico e petulante de um ambicioso político que é candidato a ministro. Por meio de Paul Lohman, irmão de Serge e narrador da história, ficamos conhecendo cada traço irritante da personalidade de Serge e também de sua esposa-troféu, Babette. Na visão de Paul, tudo o que Serge faz é para angariar votos, mesmo em ocasiões familiares, e tudo o que Babette faz é para manter seu padrão de vida, embora deteste o marido. A única pessoa perfeita, pelo menos no início da história, é Claire, esposa de Paul: linda, inteligente, dedicada.

E as aparências são realmente tudo nesse livro. As informações que vão sendo liberadas aos poucos durante a leitura e as revelações inesperadas mudam o rumo da história diversas vezes e me deixaram sem saber o que esperar dos próximos capítulos. Minha curiosidade e indignação foram crescendo no mesmo ritmo. A transformação dos personagens do primeiro até o último capítulo é absurda, e terminei a leitura chocada, primeiro por lembrar que realmente há muitas pessoas que agem como os pais da história, e segundo ao perceber que eu também havia me deixado levar pelas primeiras impressões. Meio que involuntariamente, é verdade, já que a história é contada sempre pelo ponto de vista de Paul. Ainda assim, me deixei envolver por sua postura de "pessoa do bem".

Enfim... é muito difícil expressar o quanto essa história é incrível e surpreendente sem revelar detalhes essenciais. O legal desse livro é justamente ser levado pela história contada por Paul, se envolver no drama dos personagens, odiar alguns e se compadecer de outros e, de repente, se deparar com uma reviravolta e começar a questionar sua própria posição.

A escrita de Herman Koch é muito envolvente e leva o leitor para dentro da trama, puxa uma cadeira e o coloca sentado à mesa com Serge, Babette, Paul e Claire, como um comensal invisível que só escuta. A divisão dos capítulos em fases do jantar (Aperitivo, Entrada, Prato Principal, Sobremesa e Digestivo) é bem interessante, assim como os vazios dos pratos, que refletem os silêncios constrangedores na conversa.

Só o que me resta é dizer que foi uma ótima experiência acompanhar a queda das máscaras e a inversão total do meu julgamento sobre os personagens. No final, várias perguntas ficaram martelando minha mente: Até onde o comportamento dos pais influencia as atitudes dos filhos? E a genética, que grau de influência tem? Até que ponto os pais são responsáveis pelas ações dos rebentos? E o que são capazes de fazer para proteger seus descendentes?

Os direitos da história já foram comprados e a direção do filme ficará a cargo de Cate Blanchett. Mal vejo a hora de conferir essa adaptação no cinema!

“Se eu tivesse que dar uma definição de felicidade, seria esta: a felicidade não precisa de nada além dela mesma, não precisa ser sancionada. ‘Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira' é a frase de abertura de Anna Karenina, de Tolstói. A única coisa que eu poderia acrescentar a isso é que famílias infelizes - e, entre famílias, em especial o marido e a mulher infelizes - nunca são infelizes sozinhas. Quanto mais pessoas para comprovar, melhor. A infelicidade adora companhia."


Uma história surpreendente e pertinente. Leiam, leiam, leiam!


Este livro foi lido como parte da parceira com a Intrínseca.

9 comentários:

Jacqueline Braga disse...

Oie Mi
esse livro é realmente maravilhoso. Eu também me senti dentro do restaurante, sendo uma espectadora do jantar.
E tem momentos tensos demais. Nem preciso dizer que a minha reação foi a mesma que a sua.
O final me deixou chocada. Adoro quando um livro mexe comigo assim.
Estou doida para conferir a adaptação.
bjos
www.mybooklit.com

Bianca Martins disse...

C-A-R-A-M-B-A!
Quando o livo foi lançado eu já tinha ficado super afim de lê-lo, mas ainda não tinha lido nenhuma resenha...
Agora sinto uma urgência em devorar este livro!
Louca para chegar a Black Friday p ver se consigo compra-lo!!!

Melissa Padilha disse...

Oi mi, fiquei super curiosa com a história, ontem mesmo vi um vídeo da Gisele Eberspacher, falando sobre um livro da relação de filhos com os pais de como, quando e sobre quais circunstância a influência dos pais interfere na educação dos filhos, outro livro que sempre me vem a mente e quero ler muito, é Vamos fala sobre Kevin, todos dizem ser um espetáculo. Enfim, estou fazendo uma listinha de livros nessa temática, parece que o tema está em alta.
abraços!!

Sarah disse...

Eu já tinha me interessado por este livro pela capa, que achei fantástica. Lendo sua resenha, me parece que o livro é daqueles que prende a gente. Não só pelas mudanças na história e pelas surpresas, mas pelo dinamismo. Fora que as perguntas que vc mencionou no final eu sempre me faço em relação ao filhote...
Por fim, não sabia que Cate Blanchett tb dirigia, uia!
bjos

Tainara H. disse...

Gosto muito desse tipo de narrativa, que faz o leitor se sentir dentro da história, sobretudo quando se trata do meu gênero preferido e de uma história tão intensa e marcante como parece ser essa. A princípio não achei que o livro seria tão chocante, mas ao ler as resenhas percebi que ele tem uma daquelas história que nos deixa uma marca, de alguma forma e que dificilmente esqueceremos e isso só aumentou ainda mais minha vontade de lê-lo. Adorei a resenha, não vejo a hora de ler o livro. ;D

Adriana disse...

Uau! Que historia é essa, pelamor??? Eu tinha lido a sinopse no site da Intrinseca e já tinha me interessado por esse livro e depois de ler uma resenha tão intensa como a sua, fica impossível nao querer ter esse livro em mãos. Gosto muito quando o autor tem a capacidade de nos colocar dentro da historia, e nos mostrar o quanto o ser humano pode ser inescrupuloso e que não há limites pra nada. Com certeza será um ótimo filme!!! Parabéns pela resenha excelente! :)

Manu Hitz disse...

Uau! QUe trama, adorei sua resenha!
Bons livros nos transportam para dentro da narrativa, me senti nessa mesa, olhando para um casal e depois para o outro, em meio a essa discussão que parece não chegar a um consenso.
Pais que protegem seus filhos a qualquer preço é um prato cheio para uma excelente história! E parece mesmo que o autor tem muita habilidade para desnudar as personagens e mostrar a realidade crua e humana das famílias.
Quero tanto ler! E depois conferir o filme com a excelente Cate Blanchet!

Mariana Fontana Szewkies disse...

Oi Michele!

Acho esse livro um enigma. Todas as resenhas que vejo não querem falar muito sobre a trama para não estragar as surpresas (então não sei muito o que esperar), mas todas são unanimes em dizer que este é um grande livro. Impactante e viciante. Eu, que adoro um bom suspense, estou bem curiosa para ler.
Beijos
alemdacontracapa.blogspot.com

Maura C. Parvatis disse...

Adoro resenhas que me deixam curiosa e louca para ler determinado livro...
Estava adiando a leitura de sua resenha nem sei por quê, acho que inconscientemente sabia que seria um livro que iria querer ler o quanto antes :)

:*