segunda-feira, 23 de junho de 2014

Leia o Livro, Veja o Filme: O Homem Duplicado

LIVRO: O HOMEM DUPLICADO

Tertuliano Máximo Afonso trabalha como professor de história há anos em uma escola secundária. Vive só e num estado de indiferença constante. Até que um dia, um colega de trabalho, notando seu desânimo, lhe sugere assistir a uma comédia leve para relaxar. Meio a contragosto, Tertuliano aceita a sugestão e é então que sua vida vira de cabeça para baixo: no filme, ele vê um ator que era idêntico a si mesmo. Teria ele enxergado direito? Será que o homem da tela era tão parecido assim? Intrigado, Tertuliano resolve investigar.

Como descobre um tempo depois, Antônio Claro, que usa a alcunha de Daniel Santa Clara em seus trabalhos como ator, é muito mais que parecido: é um duplo, milimetricamente idêntico em tudo, até nas marcas de nascença e cicatrizes. A revelação se mostra extremamente perturbadora para ambos e o protagonista se angustia diante da dúvida: e se o outro for o “original”?

À primeira vista, “O Homem Duplicado” parece ser uma história de ficção científica. No entanto, conforme a leitura avança, fica claro que Saramago genialmente criou uma trama com personagens espelhados para falar a dualidade de cada pessoa e discutir a construção da identidade.

Tertuliano era um cara apático, que se casou e divorciou sem saber o motivo, incapaz de tomar decisões, que seguia uma rotina entediante por pura preguiça de mudar. Somente quando toma conhecimento da existência do duplo é que começa a viver de fato. Sua obsessão por saber quem era o outro faz com que acabe conhecendo melhor a si mesmo. Sua própria identidade é criada a partir do outro.

É muito interessante que, no início, Tertuliano persiga o outro, se disfarce para espiá-lo, queira desesperadamente encontrar seu duplo para resolver a questão; ao longo da história, os papéis de invertem: o outro, que queria manter distância a qualquer custo, fica fascinado com a descoberta e passa a se disfarçar e a perseguir o perseguidor. O ator coadjuvante, que vivia de imitações, passa a assumir o papel principal em sua própria vida e nos deixa em dúvida de quem é o duplicado afinal. Também adorei as partes em que Tertuliano conversa com o senso comum.

Em uma história cheia de ação e reflexões, Saramago nos convida a pensar em nosso papel no mundo, nas aparências, em como nos vemos e como somos enxergados, em como dependemos de outras pessoas para nos tornarmos completos. Mais uma obra do autor que entrou para minha lista de favoritos.

“Quando pela primeira vez olhou a sua nova fisionomia sentiu um fortíssimo impacto interior, aquela ínfima e insistente palpitação nervosa do plexo solar que tão bem conhece, porém, o choque não tinha sido o resultado, simplesmente, de se ver distinto do que era antes, mas sim, e isso é muito mais interessante se tivermos em conta a peculiar situação em que tem vivido nos últimos tempos, uma consciência também distinta de si mesmo, como se, finalmente, tivesse acabado de encontra-se com a sua própria e autêntica identidade. Era como se, por aparecer diferente, se tivesse tornado mais ele mesmo”.

Divertido, intrigante, dinâmico. Pode furar a fila de leituras com esse livro. Sério.

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FILME: O HOMEM DUPLICADO

Embora o livro tenha sido o primeiro que li em junho, decidi esperar pelo filme, para montar um post comparativo. Se o final do livro já tinha me deixado com neurônios fervendo, o filme conseguiu fundir de vez meu cérebro.


“O caos é uma ordem por decifrar”. A frase, retirada do livro, aparece na tela nos segundos iniciais do filme e dá dica do que esperar: muitas dúvidas e coisas inexplicáveis (pelo menos em um primeiro momento). Na adaptação, Tertuliano virou Adam e, tal como na história do Saramago, descobre a existência do seu duplo e sai investigando por pura curiosidade. Já a sua contraparte, Anthony, ganha contornos mais agressivos do que na obra do escritor lusitano, explicando bem o título americano de "Enemy".


O fato é que, embora seja uma boa adaptação, o tom do filme é bem diferente do livro. Enquanto no texto tínhamos as observações críticas e espirituosas do Saramago, com algumas situações engraçadas, o filme abraça o lado sombrio e torna a dualidade de Adam/Anthony uma luta entre as porções boa e má que cada pessoa traz dentro de si. As diferenças de personalidade já faziam parte da história, mas o filme acentua bastante essa característica. Jake Gyllenhaal, aliás, faz um trabalho incrível ao compor os dois personagens fisicamente idênticos, mas completamente opostos quanto ao comportamento: o professor simples, metódico, inseguro, que tem ombros caídos, anda arrastando os pés e dirige uma lata velha; contra o ator insensível, confiante, metido a conquistador, que adora se admirar no espelho e pilotar sua moto potente.


O filme tem um visual escuro e uma trilha sonora presente o tempo todo, colaborando para a tensão constante e crescente. A dualidade pode ser observada em cada cena, nos personagens, em suas casas, na paisagem. As pistas para entender o filme estão espalhadas em cada tomada. Em uma das cenas cruciais, mostrada logo no comecinho, Adam está em aula e explica aos alunos sobre formas de controle e perda de identidade, cita Hegel e Karl Max e a teoria de que todos os grandes eventos acontecem 2 vezes, sendo o segundo uma farsa. Em seguida, vemos uma pequena cena do professor em casa e a cena da aula é repetida. Gostei muito do uso desse recurso para mostrar que a vida dele era uma repetição, enquanto ele trata de controle em classe, vai aos poucos perdendo a direção de sua própria vida, o seu duplo (segundo evento) se aproxima. Achei bem interessante.


E o que dizer da aranha? Aparecendo pela primeira vez logo no começo do filme, como um pesadelo, sua presença se dá durante toda trama, pairando, gigantesca, sobre a cidade, em teias estilizadas nas fiações e nas rachaduras do vidro, na perturbadora cena final. O que significa? Suposições existem aos montes, mas é algo que não se pode determinar com certeza. Eu, nas minhas buscas frenéticas feitas logo que terminei de ver o filme, descobri várias teorias e estou tentando montar a minha própria. Gosto muito da simbologia da aranha como a tecedora do destino e responsável pela ordem cósmica, ao mesmo tempo em que remete ao perigo (já que é ligada às mulheres e seu poder de sedução).


Enfim... é daquele tipo de filme a que se pode assistir várias vezes e, a cada sessão, encontrar novos elementos; daqueles que geram assunto para mais de horas de debate; do tipo que jamais compreenderemos totalmente e que, por ser tão caótico quanto a própria vida, nunca deixará de ser intrigante.


Para quem também ficou cheio de caraminholas e está tentando decifrar o caos, recomendo esse texto e também esse aqui.


Sensacional. Para ver e rever inúmeras vezes.


Trailer legendado:

5 comentários:

Lua Limaverde disse...

Mi, sua resenha me deixou com muita vontade de fazer essa leitura e ver o filme. Muita mesmo! Ainda não tenho esse do Saramago, vou providenciar urgentemente! =D
Beijinhos!

Déa Paulino disse...

ótimos olhares sobre o livro e sobre o filme!
como disse no facebook, o livro é um dos meus favoritos do Saramago. acredito que, embora o filme seja bom e o diretor tenha conseguido reproduzir a atmosfera do livro (que li há anos, mas lembro bem de senti-lo com as cores do filme, por exemplo), ele fica muito aquém da obra literária. não sei como aconteceu com outras pessoas que não leram o livro, mas vi o filme com meu namorado, que não o leu, e ele ficou meio perdido. eu também senti que faltou alguma coisa ali.

Tati disse...

Ah MiG e eu achava que o livro iria ajudar a entender melhor o filme, mas pelo jeito ajuda a criar mais questionamentos - o que é bom também. A psicanálise tem um conceito que eu acabei enxergando nesses pontos que você citou e que aparece muito na literatura, que é a existência de algo muito familiar no que estranhamos como oposto a nós mesmos. Então em alguns momentos eu via o Anthony como uma fantasia do Adam mesmo e não como algo real, mas em outros momentos eu ficava na dúvida (essa parte de Hegel e Marx me deixou encucada por várias semanas hahahaha,e quanto mais eu pensava em fatos históricos, mais eu via que eles tinham razão). A aranha no final eu vi como algo mais ligado à metamorfose do Kafka mesmo, não tinha parado pra pensar na simbologia, mas agora que você falou acho que tem muito a ver!
Com certeza vou rever o filme depois de ler o livro, acho que vale muito a pena! E depois eu volto pra ler a parte do livro (só li a do filme mesmo).
Beijo enorme,
Tati

Flávia disse...

Gostei demais da resenha. Esse livro já estava na minha lista há bastante tempo. Vou ler o mais breve possível e assistir ao filme. Beijo!

Aline Aimée disse...

Estou louca para fazer essa dobradinha!
Por isso não vou ler ainda a resenha.
Já tenho o livro.
Depois te conto!
;)