sexta-feira, 13 de junho de 2014

Leia o Livro, Veja o Filme: A Queda da Casa de Usher

LIVRO: A QUEDA DA CASA DE USHER (CONTO)

“Não sei dizer como foi – mas, ao primeiro relance do edifício, uma sensação de insuportável desespero invadiu meu espírito. Digo insuportável; pois a impressão não era atenuada por nada desse sentimento parcial de prazer, pois que poético, com que a mente normalmente recebe até mesmo as imagens mais austeras de desolação ou dissabor. Contemplei a cena diante de mim – a mera casa, e os simples aspectos panorâmicos da propriedade – as paredes nuas – as janelas vagas semelhantes a olhos – o capim esparso e espesso – uns poucos troncos esbranquiçados de árvores fenecidas – com uma depressão de alma tão absoluta que não a posso comparar mais adequadamente com nenhuma outra sensação terrena senão com o estado pós-onírico daquele que se entregou às dissipações do ópio – a amarga recaída na vida cotidiana – o hediondo cair do véu. Havia uma gelidez, uma prostração, uma repulsa no coração – uma irremediável consternação do pensamento que estímulo algum da imaginação podia instigar ao que quer que fosse de sublime. O que era isso – parei para pensar – o que era isso que me debilitava ao contemplar a Casa de Usher?”

Eu já havia lido o conto em 2012, mas, como é um texto curto, reli para poder relembrar e comparar com o filme. Nessa que é uma das mais famosas histórias do Poe, o narrador sem nome recebe uma carta de um amigo de infância com quem não tem contato há muito tempo. Na missiva, Roderick Usher, o tal amigo, conta que está muito doente e que gostaria que o outro fosse visitá-lo. Notando o tom de súplica do remetente, o narrador aceita o convite e vai até a casa dos Usher.

Antes mesmo de entrar na residência, o narrador se sente incomodado com o tom desolador da paisagem que circunda a propriedade, com a aura de abandono e decrepitude da construção e, pior, com uma sensação estranha de que a casa estava viva e o estava observando. Como se constata durante a leitura, a casa tem mesmo um poder misterioso e exerce forte influência sobre os moradores e os visitantes – ela é o verdadeiro protagonista de história.

Poe descreve ricamente a casa, sua mobília e seus adornos e coloca o leitor no meio da ação. É possível ouvir os ruídos da mansão e sentir sua movimentação. O mesmo cuidado se aplica à narração das características de Usher e de sua peculiar doença: “agudez mórbida dos sentidos”, que o obrigava a ingerir apenas alimentos insípidos, usar roupas de textura leve, evitar odores fortes, viver na penumbra e ouvir apenas sons delicados.

Durante a breve estadia do narrador na casa, ele percebe que não sabia quase nada sobre o amigo, e nota que ele tinha uma irmã gêmea, tão ou mais sensível que o próprio Usher, e que vem a falecer enquanto o hóspede ainda estava lá. Então, a melancolia que já reinava no local ganha nova dimensão, o desespero dos que se encontravam na propriedade aumenta consideravelmente e o narrador começa a sofrer a maligna influência da casa, passando a não saber mais o que é real e o que é imaginação. E tudo isso vai se misturando até o incrível desfecho.

Um clássico absoluto que envolve totalmente o leitor e que exemplifica perfeitamente porque Poe é mestre na arte do horror.

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FILME: A QUEDA DA CASA DE USHER

Como já entrega a sinopse do DVD, a adaptação desse clássico do Poe pelas mãos do diretor Roger Corman é bem livre. Nesta versão da história, o narrador atende por Philip Winthrop (Mark Damon) e vai até a casa dos Usher para buscar Madeline (Myrna Fahey), sua noiva e irmã de Roderick Usher (Vincent Price). Ao chegar lá, se surpreende com o estado lamentável da propriedade e tem que enfrentar o irmão possessivo da amada, que nem sabia do noivado.


O foco do filme muda radicalmente em relação ao conto, deixando a casa como um mero objeto de uma maldição de família que Usher faz questão de respeitar (na verdade, eu achei que ele usava a história da maldição como desculpa para manter o controle sobre a irmã e que sentia um certo prazer sádico com isso). Com certeza a formação de um par romântico foi importante para levar a história às telas.


As mudanças na trama não me incomodaram tanto, já que eu sabia desde o início que era uma versão “livremente inspirada” no livro. Infelizmente, não posso dizer o mesmo do visual do filme. Achei que os cenários eram excessivamente coloridos, que as roupas do Usher eram pesadas de mais para quem dizia ter hipersensibilidade cutânea e que Madeline tinha um aspecto de quem esbanja saúde. Talvez isso não incomode outras pessoas, mas passou longe do visual sombrio que imaginei durante a leitura.


Na verdade, o livreto que vem o DVD inclui uma pequena explicação sobre o uso das cores, mas não me agradou, de qualquer forma. Por outro lado, se tem uma coisa que me impressionou nessa adaptação são as pinturas Usher. Essas conseguiram ser muito mais assustadoras do que as que fui capaz de criar mentalmente... rs


Indico para quem gosta de histórias de terror e para a legião de fãs do Vincent Price.



Clique AQUI para ver o trailer de época legendado.

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FILME BÔNUS: A QUEDA DA CASA DE USHER

Já a versão de 1928 do filme, produzida pelo diretor polonês Jean Epstein, incluída como extra no DVD, atendeu muito melhor às minhas expectativas. Embora o texto de Poe também tenha sofrido algumas alterações significativas, o visual soturno favorecido pelas imagens em preto e branco e as distorções típicas da influência do expressionismo alemão me deixaram muito mais satisfeita.


Nessa adaptação, Madeline (Marguerite Gance) é a adoentada esposa de Roderick Usher (Jean Debucourt), que, desesperado, escreve ao amigo (Charles Lamy) e o convida para passar uns tempos com o casal. O amigo vai até lá, mas, estranhamente, Usher o manda embora. Além disso, Usher é obcecado por terminar de pintar um quadro da esposa. Como um "Dorian Gray" ao contrário, quanto mais o quadro ganha vida, mais Madeline perece.


Mesmo com as liberdades tomadas, gostei do filme. Acho essas produções antiquíssimas sensacionais e adoro observar as soluções usadas em uma época em que os parcos recursos visuais tinham que ser compensados com extremas doses de criatividade. Nesse filme, por exemplo, foi muito bacana ver como os macabros sons produzidos pela casa foram traduzidos em um filme mudo. A ambiguidade e confusão entre sonho e realidade do conto estão bem presentes nessa versão. Ah, sim... o roteiro foi coescrito com o surrealista Luis Buñuel. Já deu para ter uma ideia do que esperar do filme, né?


Recomendado para fãs de terror clássico do início do século XX.


Clique AQUI para assistir ao filme no YouTube!

Este post faz parte do Projeto Grandes Livros no Cinema. Para ver a lista de títulos com os links das resenhas feitas, clique AQUI.

3 comentários:

Jacqueline Braga disse...

Oie Mi
Poe é com certeza o mestre no gênero.
Não li essa obra ainda, pois do autor tenho apenas 1 livro, mas já fiquei interessada por haver uma adaptação. E ainda por cima ser da década de 60. Apesar do filme não ter levado uma classificação boa, fiquei muito curiosa para assistir.
E essa última foto do filme de 1928 me deu medo.
bjos
www.mybooklit.com

Maura C. Parvatis disse...

Oi, Mi!
No começo do ano tentei ver o filme 1960 três vezes e nas três, acabei cochilando >< Na quarta tentativa, consegui vê-lo. O achei bonzinho, mas em comparação ao conto que é sensacional, ele é "colorido demais".
As pinturas também me assustararam LoL Já que a Casa de Usher, ah, a casa, que me mete medo desde a primeira vez que li sobre ela (em As Crônicas Marcianas), perdeu todo o seu poder sobre mim.
Nossa, concordo, Mi, "(na verdade, eu achei que ele usava a história da maldição como desculpa para manter o controle sobre a irmã e que sentia um certo prazer sádico com isso). Com certeza a formação de um par romântico foi importante para levar a história às telas."
Ah, ainda não assisti a versão de 1928. Hm, fiquei com vontade de assistir!

Beijos!

Michelle disse...

Jacque,
O filme em si não é ruim, mas eu já tinha formado toda a história na minha cabeça. As descrições do Poe são tão boas que eu já tinha construído um filme mentalmente, só que o que vi na tela foi totalmente oposto à minha imaginação. O filme de 28 tem mais a ver com o que eu esperava.

Maura,
Você me entende. Essa cor toda não combinou com o clima do livro. Investe na versão de 1928 que acho que você vai curtir.