quarta-feira, 11 de junho de 2014

Resenha: Até o Dia em que o Cão Morreu


Rapaz de vinte e poucos anos passa os dias fumando, bebendo e aguardando as visitas de Marcela, cuja presença preenche o vazio de seu apartamento e ao mesmo tempo incomoda sua apatia medíocre. Solitário por opção, o moço apenas vê a vida passar diante dos seus olhos, sem planos ou sonhos para o futuro.

O protagonista é um cara extremamente acomodado, que se formou na faculdade de Letras, deu aulas de inglês e fez alguns trabalhos de tradução, mas que, apesar de ter alugado um apartamento para mostrar sua independência, continua sendo infantil e imaturo e prefere viver de mesada dos pais a arregaçar as mangas e assumir responsabilidades.

Essa falta de comprometimento que demonstra com o trabalho também se estende aos outros campos de sua vida (acolhe um cão sem dono em uma noite fria, mas o coloca na rua todos os dias e se recusa, inicialmente, a dar um nome ao animal para não se apegar; tolera a presença de Marcela em sua casa porque o sexo é sensacional, mas não quer ouvir os desabafos dela, não pergunta nada sobre a vida da garota, usa grosserias para mandá-la embora assim que se vê satisfeito).

Marcela é completamente o oposto do protagonista: é determinada, dá duro em sua carreira de modelo para juntar dinheiro, poder comprar o que gosta e viajar o mundo. Embora saiba que merece alguém mais atencioso ao seu lado, se submete a humilhações e, mesmo que racionalmente não queira, acaba se vendo dia após dia na porta do apartamento do infeliz. Uma coisa meio doentia. E triste.

O livro me interessou assim que eu soube que o protagonista era tradutor (tudo bem que ele pouco trabalha nisso, mas enfim...). Sempre fico curiosa para ver como meus ossos do ofício são retratados nas histórias. Neste caso em especial, o interesse era ainda maior, já que o próprio Daniel Galera também exerce (ou exerceu) a profissão. Por não ter o livro na época, acabei assistindo ao filme primeiro (“Cão Sem Dono”) e agora finalmente fui ler a história.

O mais engraçado é que eu acabo relembrando cena a cena as histórias que vejo adaptadas antes de ler, mesmo que eu tenha assistido ao filme há anos. Posso dizer que a sensação de desalento e tédio é a mesma que experimentei com o filme. Aliás, confesso que o protagonista me irrita profundamente com suas canalhices e inércia. Minha vontade é de dar nele um safanão para ver se acorda e reage. No entanto, é exatamente essa gama de características tão verdadeiras, de tipos totalmente comuns e verossímeis, que torna a história boa. Os personagens poderiam, de fato, estar ali na esquina.

"Apenas segui o caminho natural das coisas, como me ensinaram que elas deviam acontecer. Onze anos de colégio, quatro de universidade. Fiz minha carteira de identidade, meu título de eleitor, meu CPF, abri minha própria conta no banco, fiz carteira de trabalho, registro no INSS. Aulas particulares de inglês, três anos praticando remo, carteira de motorista. Segui o roteiro à risca desde que nasci."

Indico para quem gosta de histórias realistas e simples, que fazem recortes da vida como ela é. Ah... especialmente para os gaúchos ou para quem conhece Porto Alegre e gosta de encontrar caminhos conhecidos nos livros.

Aqui tem mais Daniel Galera: Cordilheira.

Este post faz parte do Desafio Literário Skoob 2014 - Mês de Junho: Autores Brasileiros. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DLSkoob2014, clique AQUI. 




5 comentários:

Jeniffer Santos disse...

Dos livros do Daniel o único que me chamou atenção foi "Barba ensopada de sangue".
Até separei para ler agora, mas estou achando meio improvável. rs
Como esse é curtinho e gosto de histórias realistas, tb vou colocar na lista de futuras leituras.
Beijos ;)

Flávia disse...

Ah, gosto muito de livros que retratam as pessoas como elas realmente são...

Lígia disse...

Fiquei com vontade de ler esse livro, mas tenho um pouco de medo de me identificar demais com o protagonista, haha.

Claudia disse...

Gostei da resenha
Já estava curiosa pra ler.
Gosto muito das indicações tbe!
Bjks mil

Michelle disse...

Jeniffer,
Esse é o segundo livro que leio do Galera e, me parece, que todos têm essa pegada realista. Se você gosta do estilo, há grandes chances de gostar desse.

Flávia,
Então vai gostar desse, viu?

Lígia,
Acho que todo mundo se identifica com o personagem até certo ponto. Aquela coisa de sair de casa, se sentir perdido e meio desanimado. Normal. Só que a maioria das pessoas "acorda" logo e o protagonista do livro foi meio lento demais para mim (sem contar que era bem canalha mesmo). É tão real que irrita, sabe? Como personagem, é incrível; como pessoa... nem tanto...rs

Clau,
Leia sim! :)