sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Leia o Livro, Veja o Filme: Trash

LIVRO: Trash

Raphael, Gardo e Rato são três adolescentes que moram e trabalham no lixão de Behala, revirando montanhas de resíduos atrás de material que possam vender. Um dia, Raphael encontra uma carteira contendo dinheiro, documentos, uma chave estranha e um código misterioso. Pressentindo a importância do achado, ele mente para a polícia quando os guardas aparecem no terreno oferecendo recompensa pelo item perdido, e embarca com os amigos em uma aventura insana e perigosa que pode mudar a vida dos três para melhor ou colocá-los a sete palmos abaixo do chão.

A ação de “Trash” se desenrola em um país de terceiro mundo não especificado, mas alguns detalhes da narrativa dão pistas de que provavelmente o cenário é a América Latina, embora as Filipinas também não possam ser descartadas, já que é um dos países em que o autor morou por um tempo e onde também são realizadas celebrações animadas no Dia dos Mortos – um evento importante na história. O fato é que, independente da localização, é fácil reconhecer a triste realidade retratada nas páginas do livro: miséria, violência, corrupção.

O ritmo da trama é ágil. Como leitores, somos transportados para dentro da história e corremos com os protagonistas, sofremos com eles, torcemos pelo seu sucesso. Um recurso que ajuda muito a adentrarmos esse mundo ficcional tão próximo do real é a narração feita por vários personagens, como se cada um deles contasse um pedacinho da história conforme fosse se lembrando ou conforme sua importância em determinada parte, pedindo a palavra, fazendo interferências, corrigindo o que o outro diz. A linguagem simples os capítulos curtos só colaboram para o dinamismo do enredo.

Fiquei encantada com a amizade dos meninos. Raphael é um garoto tímido, desconfiado, com grande senso de justiça; Gardo é mais desembaraçado, protetor, carinhoso; Rato - o meu preferido - é o mais franzino, aquele que não tinha nenhuma família e que não sabia nem ler, porém é o que se mostra mais esperto, o mais 'vivido', o que tem contatos e elabora planos. Mesmo antes de entrar de cabeça na confusão armada por Raphael e Gardo, ele já tinha um esquema em curso para mudar de vida e começar a viver seu sonho de ser pescador.

"Aprendi mais do que seria possível aprender em qualquer faculdade. Aprendi que o mundo gira em torno de dinheiro. Há valores, virtudes e morais; há relacionamentos, confiança e amor - tudo isso importa. No entanto, o dinheiro é mais importante, e pinga o tempo todo, como se fosse água. Alguns bebem muito dessa água; outros passam sede."

Uma história de ação em que garotos que vivem uma realidade deprimente se permitem sonhar e lutam para fazer o que é certo.

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FILME: Trash - A Esperança Vem do Lixo

No filme, Raphael, Gardo e Rato são vividos respectivamente por Rickson Tevez, Eduardo Luis e Gabriel Weinstein, garotos não-atores de comunidades cariocas que foram selecionados entre 700 concorrentes. O elenco conta ainda com Rooney Mara como Olivia, a estrangeira que dá aulas em uma ONG no lixão, Martin Sheen, que interpreta o padre administrador da ONG, Wagner Moura, que encarna o dono da carteira que desencadeia a aventura e Selton Mello, o delegado mau caráter encarregado de recuperar a carteira para acobertar um esquema de desvio de dinheiro público. Mesmo em uma produção cheia de estrelas nacionais e gringas, quem brilha mesmo são os meninos desconhecidos que dão vida aos protagonistas.


O lixão de um país incerto foi transportado para o Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, e as perseguições deflagradas em ruelas indeterminadas acontecem agora em becos, estações de trem e favelas da Cidade Maravilhosa, ao som de funk e batucada. Mas o filme que foi logo tachado de ‘novo Cidade de Deus’ está longe de ser apenas ‘mais um filme de favela’. O cenário pode ser o mesmo, as condições degradantes podem não ter mudado muito desde então, mas a história é outra. É um filme de ação dos bons.


Relevadas as necessárias adaptações, o filme é bem fiel ao livro. A amizade, o mistério, as peripécias, a pobreza, a truculência policial... está tudo lá. Aliás, uma das cenas mais impactantes do filme – o interrogatório de Raphael – surgiu da alteração de um evento do livro: enquanto nas páginas o garoto é levado para a delegacia, espancado e pendurado na janela do lado de fora do prédio, o filme transforma a coisa toda em arte (o que é bem perturbador, diga-se de passagem), misturando tomadas de dentro do carro do delegado, que dirige seu automóvel chique ao som de música clássica, com tomadas da viatura policial dando cavalos de pau, enquanto Raphael, algemado e encapuzado, é arremessado de um lado para o outro no banco de trás, batendo nas laterais do carro, caindo, e, depois, passando por mais sofrimento dentro do porta-malas. Angustiante e hipnotizante ao mesmo tempo.


Em geral, gostei bastante do filme. Duas coisas me irritaram, no entanto: a primeira, que ocorre com uma certa frequência em filmes nacionais, é o áudio ruim. Não sei se é problema de captação, de edição, de reprodução... enfim, em vários momentos não dava para entender o que os personagens estavam falando (principalmente os meninos). A segunda é o final que insere um comentário sobre as manifestações do meio do ano e quer deixar uma moral da história. Não precisava. Sério.

Para quem curte um filme de ação e enigmas. Recomendo!


Trailer Legendado:


2 comentários:

Lígia disse...

Tanto o livro quanto o filme parecem muito interessantes :)
Em relação a isso do áudio: nossa, eu tenho muito problema com filmes nacionais por causa disso, sempre tem falas que eu não consigo entender, é bem frustrante...

Caroline Passoni disse...

Não conhecia nem um nem outro, parece ser tão bom que agora estou com vontade de ler/ver, rs.

viajandoentrepalavras.blogspot.com.br