segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Resenha: Levantado do Chão


Em “Levantado do Chão”, acompanhamos a saga dos Mau-Tempo, uma família que passa suas desgraças de uma geração à outra. Ao longo de décadas, eles trabalham incansavelmente na terra dos patrões, com a vã esperança de melhorar de vida. Quando a consciência da exploração a que se submetem finalmente emerge, os camponeses se envolvem na luta por melhores condições de trabalho, salário decente e descanso semanal. Como sempre, o preço das grandes conquistas é bem alto...

A história começa com Domingos Mau-Tempo chegando a um novo povoado na companhia da esposa, Sara da Conceição, e do filho pequeno. A reboque, os poucos pertences, já danificados devido às constantes mudanças. Combinando com o sobrenome e sinalizando os tempos sombrios que a família enfrentaria, o grupo adentra a nova cidade sob uma tempestade assustadora.

Domingos Mau-Tempo não é um personagem agradável. É bruto, violento e mentiroso. Torna a já difícil vida da família ainda pior. Por causa dele, o pequeno João Mau-Tempo é obrigado a assumir o pesado fardo das obrigações adultas ainda na infância, trabalhando duro para, junto com a mãe, botar comida na mesa. João, que herdou do pai apenas os misteriosos olhos azuis, é essencial na luta contra os latifundiários.

Com seu estilo poético e irônico, Saramago volta sua mira crítica para os grandes proprietários rurais, que, com o apoio do governo e com a benção da Igreja, exploravam as fraquezas dos trabalhadores, ameaçavam suas famílias, torturavam os líderes dos movimentos trabalhistas acusando-os de comunistas, aterrorizavam os ignorantes fiéis com a promessa de punição divina.

Durante a leitura, lembrei de outra família condenada a gerações de infelicidade: os Buendía. Claro que o contexto é outro, mas o pesar que senti pelos personagens é o mesmo. Embora eu não tenha gostado tanto quanto esperava, não tem como sair ilesa às provocações do autor. Mais uma boa leitura para minha lista de 2014.

"O latifúndio é um mar interior. Tem seus cardumes de peixe miúdo e comestível, suas barracudas e piranhas de má sorte, seus animais pelágicos, leviatãs ou mantas gelatinosas, uma bicheza cega que arrasta a barriga no lodo e morre sobre ele, e também grandes anéis serpentinos de estrangulação. É mediterrânico mar, mas tem marés e ressacas, correntes macias que levam tempo a dar a volta inteira, e às vezes rápidos surtos que sacodem a superfície, são rajadas de vento que vem de fora ou desaguamentos de inesperados fluxos, enquanto na escura profundidade se enrolam lentamente as vagas, arrastando a turvidão da nutriente vasa, há quanto tempo isso dura. São comparações que tanto servem como servem pouco, dizer que o latifúndio é um mar, mas terá sua razão de fácil entendimento, se esta água agitarmos, toda a outra em redor se move, às vezes de tão longe que os olhos enganam, por isso chamaríamos enganadamente pântano a este mar, e que o fosse, muito enganado vive quem de aparências se fia, sejam elas de morte."

Triste e contestador. Recomendo.

Esta leitura faz parte do Projeto Ler Saramago, criado pela Cláudia, do blog A Mulher que Ama Livros, que consiste em ler todos os romances do autor português em ordem cronológica. Nossa próxima leitura será: “Memorial do Convento”. 2015 vai começar bem!
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2 comentários:

Flávia Dias disse...

Pelo que pude acompanhar você leu bastante esse ano. Desejo que 2015 seja repleto de outras grandes leituras, muita paz, saúde e que você continue realizando seus sonhos.
Um grande abraço!

Lua Limaverde disse...

Oi, Mi! Eu queria poder acompanhar esse projeto de vocês, mas por enquanto fico só acompanhando as suas leituras. Quero um dia poder ler todos do Saramago também. Beijão e feliz ano novo! =)