segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Resenha: Ele Está de Volta


Berlim, 2011. Sessenta e seis anos após seu suicídio, Hitler acorda em um terreno baldio. Desorientado, procura por seus assistentes, tenta obter informações de um grupo de garotos que jogava bola por ali. Depois de quase morrer atropelado ao atravessar uma rua movimentada, acaba recebendo ajuda de um jornaleiro. Sem acreditar que tenha morrido e sem saber como viajou no tempo, tudo o que ele quer é restabelecer seu partido e voltar ao poder. Só o que precisa fazer é se adaptar ao estranho mundo do Século XXI...

A premissa de ‘Ele está de volta’ é muito boa: colocar uma das figuras mais polêmicas da história em um cenário atual, dominado pela tecnologia e por novos hábitos. As inúmeras situações em que Hitler se depara pela primeira vez com aparelhos eletrônicos são hilárias: sua indignação diante dos programas de TV de baixa qualidade, suas dificuldades ao manipular um celular, seu deslumbramento ao descobrir a internet e o mundo infinito de informações ao seu dispor.

O estranhamento causado por novos costumes da sociedade não é menor do que aquele experimentado diante dos avanços tecnológicos: Pessoas recolhendo cocô de cachorro das calçadas? Cidadãos comendo ração militar vendida em bancas de jornal? Homens vestidos como mendigos e mulheres enfiadas em roupas colantes para mostrar um corpo que não envelhece nunca? Lojas em que o próprio cliente tem que pegar o que quer das prateleiras, sem um vendedor para ajudar?

Apesar das diferenças assustadoras à primeira vista, as pessoas, no fundo, mudaram muito pouco. Assim, o grande poder de orador de Hitler, aliado a uma mente afiada e perspicaz que observa e aprende rapidamente, faz com que ele continue conquistando seguidores, ainda que ninguém mais pareça interessado em guerra ou nos ideais nazistas. Como ele logo percebe, a batalha deixou de ser por territórios e agora é pela audiência.

De uma forma inteligente e bem-humorada, Timur Vermes usa uma figura icônica da história mundial para criticar a imprensa, os programas de TV, os tabloides e revistas de fofoca e os políticos. Tudo passa pelo crivo do escritor: o culto às celebridades, a fama repentina, a velocidade absurda com que histórias rodam o mundo, o poder de transformar tudo em mercadoria e gerar lucro. Embora a ficção criada pelo autor possa parecer loucura, tem muito de verdade no que ele mostra. O que não deixa de ser perturbador.

“(...) o que turvava de pronto a visão clara eram os inúmeros rabiscos irritantes em todas as paredes. Eu já conhecia aquela técnica, pois naquela época em Weimar os assessores comunistas espalhavam em todo o lugar seu disparate bolchevista. E isso eu também sabia. Porém, no passado, era possível ler as palavras de ordem de cada lado. Agora verifiquei que as inúmeras mensagens, que o autor considerava importantes o suficiente para desfigurar a fachada das casas de cidadãos honestos, eram totalmente indecifráveis. Eu podia apenas esperar que esse analfabetismo fosse da corja esquerdista, mas como a legibilidade das mensagens durante o meu caminho não mudava nunca, tive que supor que atrás delas possivelmente também se escondiam informações importantes como ‘Acorde Alemanha’ ou ‘Sieg heil!’, a saudação nazista”.

Divertido e reflexivo. Recomendo!

Este post faz parte do Desafio Literário Skoob 2014 - Mês de Dezembro: Lançamentos de 2014. Para ver a lista de obras selecionadas e outros posts do DLSkoob2014, clique AQUI.


2 comentários:

Maura C. Parvatis disse...

Oi, Mi.
Quando ele foi lançado fiquei com vontade de lê-lo por causa da capa, porém, sua resenha me fez ficar bem interessada por esse livro.

;)

Michelle disse...

Maura,
Eu ri com o deslocamento do Hitler. Mas as críticas nas entrelinhas são fortes e fazem pensar nos comportamentos enviesados dos dias de hoje.