quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Resenha: As Preces São Imutáveis


“Procura-se alguém que saiba turco”.

É esse anúncio simples que leva a estudante turca Pelin até a casa da senhora Rosella Galante, que fugira para Istambul durante a Segunda Guerra Mundial e que agora, com uma idade avançada e já bem doente, quer encontrar alguém que a ajude a praticar a língua turca para manter viva suas memórias.

Pelin responde ao anúncio sem saber direito o que esperar. Ao chegar ao endereço fornecido, em uma metrópole europeia, descobre que a senhora que o publicara queria apenas conversar durante duas horas, uma vez por semana, em uma língua com a qual tem ligação sentimental. A garota acha tudo muito estranho, se fecha, quer ir logo embora. Mesmo duvidando que voltará àquela casa outra vez, diz que vai estudar a proposta.

Mas acaba aceitando. Como ela mesma reconhece, precisa de dinheiro. Além disso, o trabalho é fácil. Basta sentar e escutar a senhora falar, dizer alguma coisa em resposta. Só que a dona da casa não queria só contar suas memórias. Queria ouvir as histórias daquela garota, conhecê-la melhor. Assim, o que começa como um jeito fácil de descolar uma grana para Pelin e uma forma de não esquecer o passado para Rosella, se transforma em um misto de sessão de terapia e trocas de confidências entre amigas improváveis.

É muito interessante notar como Rosella e Pelin são tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidas. Enquanto a primeira é calma, sensata e romântica, a segunda parece tensa, impulsiva e desacreditada do amor. Uma diferença de idade de sessenta anos entre elas é o principal fator que explica comportamentos tão opostos. Mas conforme elas vão se conhecendo melhor, vão notando similaridades em suas histórias e estreitando laços.

Gostei muito da parte em que as duas conversam sobre galãs do cinema (Rosella menciona um ator que interpretara Tarzan em sua juventude e que Pelin não conhece; logo elas passam a listar os bonitões em atividade: George Clooney, Tom Cruise, Brad Pitt, Schwarzenegger), sobre música (Pelin aparece com uma camiseta do Placebo e Rosella, enganada pela aparência andrógina do vocalista, elogia e beleza da ‘garota’ da banda e pede para ouvir o CD, depois quer saber mais sobre Kurt Cobain; Pelin, por sua vez, vira fã de Brahms) e principalmente sobre palavras e seus significados (Rosella fica encantada com os novos termos e gírias que Pelin lhe apresenta e se empenha em usá-los nas conversas; a garota aos poucos aprende a importância das palavras e como elas mantêm vivas as lembranças e, consequentemente, aqueles a que se referem).

Além disso, o livro trata do papel da memória e de como muitas vezes criamos um passado, misturando acontecimentos com nossos desejos, ficcionalizando nossa própria história para que seja perfeita. E é justamente essa realidade inventada que não queremos perder quando nossa mente começa a falhar. Esquecer é deixar de existir.

“Me parece que a magia da vida está em como a contamos e não como a vivemos, minha queria Pelin. Há vidas nas quais nenhuma folha se mexe, mas elas se tornam histórias pela habilidade de quem as conta.”


Um leitura rápida e delicada sobre o coração humano, seus mistérios e suas histórias. Recomendo muito!

4 comentários:

Renata Paz disse...

Adorei a resenha e fiquei com vontade de ler o livro, parece interessante. Você escreve muito bem.

Lígia disse...

Não conhecia o livro e fiquei interessada. Gosto bastante de obras que mostram amizades inusitadas. :)

Aline Aimee disse...

Linda resenha!
O livro parece delicioso, o tipo de história que me prende.
Vou procurar!

Beijo!

Michelle disse...

Renata,
Obrigada pelo elogio! Descobri esse livro por acaso e foi uma ótima surpresa. Se tiver a chance, leia sim!

Lígia,
Acho mesmo que você gostaria desse, viu?

Aline,
Delicioso descreve bem. Parecia que eu estava sentada com as duas, só ouvindo a conversa.