quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Resenha: Sobrevivi para Contar


Durante o ano de 1994, mais de um milhão de pessoas foram mortas em aproximadamente 100 dias em Ruanda numa guerra étnica entre os tútsis (que estavam no controle do país) e os hútus, que não só resolveram tomar o poder como eliminar qualquer vestígio da existência dos tútsis. Enquanto a ONU não se mexia e o resto do mundo fingia não saber o que acontecia em Ruanda, sete mulheres se amontoavam em um banheiro de um metro por um metro e vinte, mal podendo se mexer, sem falar, comendo restos de comida (quando havia) e dependendo inteiramente da bondade do pastor que as escondera ali por 3 meses. Entre essas mulheres estava Immaculée Ilibagiza, uma moça de 22 anos que parecia ter um futuro brilhante à sua frente quando a guerra civil explodiu e tudo começou a desmoronar.

A primeira vez que ouvi falar da Immaculée foi em 2013, quando ela aparece como personagem real em um livro de ficção (A Maçã Envenenada, de Michel Laub). Achei a história daquela mulher incrível e fiquei curiosa para ler suas memórias. Agora que finalmente conheci os detalhes de tudo o que a moça enfrentou, passei a admirá-la ainda mais.

Os pais de Immaculée eram professores e acreditavam que a educação pode mudar o mundo. O pai, principalmente, era muito respeitado na comunidade, pois servia de conselheiro e amigo. Sendo os primeiros de suas famílias a conseguirem diploma de segundo grau, queriam que os filhos fossem além e se formassem na universidade. Immaculée, mesmo sendo mulher e, portanto, tendo como aspiração máxima o casamento, sempre se dedicou com afinco aos estudos e o pai não poupou esforços para mandá-la para a faculdade. Quando parecia que o mundo se abriria sem fronteiras para a garota, ela se vê em meio a uma disputa bárbara que fez com que seus antigos amigos e vizinhos de etnia diferente se transformassem em caçadores cruéis de tútsis.

Desde que o genocídio teve início, Immaculée perdeu muito mais que a liberdade e os sonhos de ter uma carreira: ela perdeu amigos, os pais e irmãos, o namorado (que reencontra meses depois só para ouvir um comentário machista e maldoso), a inocência, a referência de mundo... só não perdeu a fé. Ainda que tenha se revoltado e desejado vingança em alguns momentos (quem não faria o mesmo?), sua fé manteve sua sanidade, deu serenidade a ela naquela situação medonha, a fez pensar no futuro. Arrisco a dizer que a fé a manteve viva. E isso é impressionante.

Mas... é exatamente a fé/religiosidade de Immaculée que começou a me incomodar em certo momento. Imagino que a fé tenha tido um papel crucial na determinação e força de vontade que ela teve para seguir em frente apesar de todas as adversidades. Não desconsidero isso. Só que, do jeito que ela conta, parece que tudo, absolutamente tudo, o que aconteceu com ela fazia parte de um grande plano divino; todas as suas ações foram sussurradas em seu ouvido por Deus. E isso não consigo aceitar. Respeito e admiro a fé das pessoas, bem como a capacidade de perdoar. Mas atribuir todas as ações de um ser humano a entidades sobrenaturais (Deus, Diabo, Espírito Maligno...) simplesmente não dá. É muito fácil assim. A pessoa se isenta totalmente da responsabilidade de seus atos, entende? Fez algo de ruim? Foi o Capeta que mandou. Realizou um feito brilhante? Foi obra de Deus. Não, não é assim. O Bem e o Mal estão dentro de todos e cada um faz seus julgamentos internos e decide como agir. O tal do livre-arbítrio.

E foi por isso que acabei tirando uma estrelinha na hora de avaliar o livro. Uma pessoa inteligente e forte, sem dúvida. Uma história chocante de superação. Uma escrita simples e envolvente que apresenta as memórias de uma sobrevivente. Tudo isso merece crédito. Mas essa história de desconsiderar a vontade própria realmente me decepcionou.

“Ela me levou até um galpão numa área restrita e abriu uma caixa de força de alta voltagem.
- Há mais de 1.500 volts de eletricidade aqui – explicou. – Se os hútus extremistas invadirem a escola e não tivermos como escapar, podemos vir aqui, puxar essa alavanca e pôr as mãos lá dentro. Nós morreríamos imediatamente. É melhor ser eletrocutada do que torturada, estuprada e morta. Não vou permitir que selvagens se aproveitem do meu corpo antes de me matar. Não faça essa cara de surpresa... Já ouvi histórias demais de mulheres tútsis que foram estupradas e brutalizadas em tempo de guerra para não ter um plano de fuga.
Concordei com a cabeça. Era estranho falar em acabar com nossas vidas aos 19 anos de idade apenas, mas essa parecia uma saída melhor do que a outra alternativa. Clementine e eu fizemos um pacto e juramos não dizer nada a ninguém, para que as autoridades escolares não ficassem sabendo e trancassem a caixa de força.”

No geral, o livro acabou sendo mediano. Recomendo a leitura (com a ressalva acima). 


>> "Sobrevivi para Contar" será discutido no próximo sábado (17/10) no Clube de Leitura Livraria Ilimitada.
>> Recomendo o filme "Hotel Ruanda" a quem quiser saber um pouco mais sobre a guerra civil ruandesa.


4 comentários:

Aline Aimee disse...

Parece uma história impressionante, considerada a ressalva.

Marta Skoober disse...

A resenha ficou muito boa, Mi!
Deve render um bom debate no clube.

Claudia Leonardi disse...

Pois é, Michelle, a mim também incomodou a mesma coisa.
Esperava mais do livro e apesar da crueldade este movimento dela me irritou.
Também perdeu estrelinhas comigo
Bjks mil

Michelle disse...

Aline,
É sim, bem impressionante. Se você desconsiderar ou não se importar com a questão religiosa, dá para aproveitar a leitura.

Marta,
Foi um ótimo debate. As mais diversas opiniões.

Clau,
Apesar de você e eu termos ficado incomodadas, muita gente adorou, e isso enriqueceu nossa discussão. Que venham mais livros polêmicos!