quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Leia o Livro, Veja o Filme: Eu Sou a Lenda

O LIVRO: Eu Sou a Lenda

Uma estranha epidemia se espalha rapidamente pelo mundo. Cidades são evacuadas. Os infectados se transformam em criaturas noturnas. Num mundo desolado, Robert Neville é o único ser humano a vagar por ruas vazias atrás de comida e suprimentos, lutando contra a solidão, o medo, a desesperança e os seres que atacam à noite. Cada dia é uma longa batalha pela sobrevivência e pela sanidade mental. Mas será que vale a pena?

Sou o tipo de pessoa que perde imediatamente a vontade de ler um livro depois de ver sua adaptação para o cinema. Com “Eu Sou a Lenda”, não foi diferente. Eu lembrava de ter visto o filme com o Will Smith e de ter gostado, e isso bastava. Até que a Editora Aleph lançou essa edição lindona, e começaram a chover comentários sobre a história, elogiando e dizendo que a versão com o Will Smith era a terceira adaptação (como assim?) – e bem diferente do texto. Induzida pelos comentários, pela curiosidade e por uma promoçãozinha providencial do Submarino, comprei o livro. Na noite da sexta-feira em que minha encomenda foi entregue, cheguei em casa e abri meu exemplar para dar uma olhada por dentro. Comecei a ler. Terminei a leitura no domingo (e olha que não sou uma leitora rápida). Resumindo: altamente viciante!

De fato, a história é bem diferente, mas não menos interessante. No livro, os acontecimentos se dão entre 1976 e 1979. Neville, o protagonista, é um cara comum, com mulher e filha, e que todos os dias vai para a fábrica em que trabalha de carona com o vizinho. Até que a epidemia começa a sair de controle e ele perde a filha e a esposa para a misteriosa doença. Todos ao seu redor começam a morrer – ou pior, a se transformar em vampiros! Sem saber exatamente por que (embora tenha suas teorias), ele é imune ao vírus. E acaba ficando sozinho no mundo.

Repararam que eu falei de vampiro e de vírus? Então. É justamente esse o diferencial do livro de Matheson. Ele consegue misturar mitologia e ciência de um jeito inovador e funcional. A explicação de como os mitos de vampiro e a evolução científica se combinam vem aos poucos, no avanço e no retrocesso da história no tempo, enquanto acompanhamos Neville e seus pensamentos. Embora a forma como o protagonista adquira conhecimento científico seja altamente improvável, é intrigante estar ao seu lado a cada experiência, a cada descoberta, a cada engenhoca desenvolvida empiricamente. 

O que mais me tocou no livro foi a dificuldade de Neville para manter a sanidade mental. Enfrentar as feras que gritam na porta de sua casa toda noite é moleza, em comparação com o sentimento de solidão crescente que ele tenta controlar todos os dias. Ele procura manter corpo e mente ocupados o tempo todo para não se entregar à loucura: está constantemente envolvido em consertos da casa, busca por mantimentos e outros materiais, transporte dos corpos dos vampiros mortos e dos infectados até a pira funerária, fabricação de estacas e coroas de alho, ritual de relaxamento de fim do dia ao som dos discos que conseguiu reunir. No entanto, às vezes a saudade da família (e certa culpa por ter permanecido vivo enquanto a esposa e a filha morreram), a falta de alguém com quem conversar (ele fala consigo mesmo o tempo todo) e a inexistência de um propósito para seguir vivendo são pesados demais, e ele se entrega à bebida, destrói coisas e se arrisca junto aos vampiros. Aliás, uma coisa que chamou minha atenção durante a leitura foi o fato de as vampiras ficarem do lado de fora da casa de Neville se insinuando e gritando para ele (a abstinência sexual acaba sendo mais uma dificuldade para ele, pelo menos no começo).

O engraçado é que, durante a leitura, eu ficava o tempo todo pensando “Cadê o cachorro?” (para quem não viu “Eu sou a lenda”, Will Smith tem uma cadela que sempre o acompanha). Eu já estava na metade do livro e nada. E aí ele aparece. Não como no filme, e por poucas páginas apenas, mas sua presença é transformadora e emocionante. Enquanto no filme temos um protagonista mais equilibrado, justamente pela companhia do animal, no livro Neville está totalmente perdido e desesperançado, e o surgimento do vira-lata dá um novo ânimo à sua vida. Uma participação curta, mas fundamental.

O livro me surpreendeu de muitas formas e não serei capaz de expressar aqui o quanto realmente gostei. Mas quero dizer ainda que o final foi impactante e enfatizou as questões levantadas pelo autor: a importância da ciência e como até mesmo boas invenções podem ser usadas para o mal, o quanto a interferência humana afeta o planeta de forma destrutiva, o conceito de barbárie dentro de uma sociedade, a dependência entre individual e coletivo, como a natureza se transforma e se adapta. Simplesmente incrível!

Ah... e a edição ainda vem com prefácio do Stephen King, entrevista com o autor e uma crítica biocultural do vampirismo. Sem contar as páginas negras e os desenhos que deixam tudo ainda mais bonito. Livrinho para colecionar.

“Por fim, cambaleou até a casa, e seu rosto era uma máscara de desânimo sem esperança. Deparar-se com um ser vivo, depois de todo aquele tempo à procura de companhia, e então perdê-lo. Mesmo que fosse apenas um cachorro. Apenas um cachorro? Para Robert Neville, aquele cachorro era o pico da evolução do planeta.”

Uma história que mistura ciência e mitologia vampiresca e que prende o leitor até a última página. E, sim, é bem diferente do filme de 2007, mas merece muito uma chance.

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OS FILMES

O livro de Richard Matheson foi adaptado três vezes para o cinema e aqui vou falar brevemente sobre cada versão.

Monstros que Matam (The last man on Earth, 1964)
A primeira adaptação do livro é a mais fiel, mas isso não quer dizer que seja a melhor. Com Vincent Price no papel de Neville, o longa tinha tudo para ser ótimo, mas, para mim, faltou emoção. Não consegui ficar tensa com os vampiros (que parecem mais zumbis das antigas, se arrastando lentamente atrás do protagonista) e não senti a perturbação do último homem da Terra, seus conflitos existenciais, seu senso autodestrutivo nos momentos de perda de esperança. Ainda assim, mantém a mistura de ciência e vampiros. O resultado é OK apenas.

A Última Esperança da Terra (The Omega Man, 1971)
Esta versão é a que menos tem a ver com o livro. Superdatada, mas não dá para dizer que não retrata bem a época em que foi filmada. Aqui, o protagonista é uma espécie de James Bond: anda sem camisa, dirige um carrão, dispara sua metralhadora com vontade, mora numa casa confortável e cheia de aparelhos tecnológicos, vai constantemente ao cinema para assistir “Woodstock”. O fim do mundo teve ligação com os comunistas (sempre eles). Os vampiros foram eliminados da trama (o único traço que as criaturas noturnas guardam em comum com os discípulos de Drácula é a sensibilidade ao sol). Aliás, aqui os seres da noite têm função mental 100% operante e se organizaram em uma seita (pois é...). Uma coisa que faz mais sentido aqui do que na obra do Matheson é que Neville já era cientista antes da epidemia devastadora. Enfim... se considerado totalmente à parte do livro, até que fazia sentido nos anos 70. Mas não gostei tanto.

Eu Sou a Lenda (I am legend, 2007)
Na versão mais recente, Will Smith não só é cientista, como também militar (isso ajuda a entender e dá mais credibilidade às suas pesquisas e à sua rotina de treinamento físico). Os vampiros, mais uma vez, foram eliminados da trama, ficando só as criaturas que não saem ao sol (e que não são uma seita nem têm um QI tão bom quanto os do filme anterior, mas são bem rápidas e fortes). Aqui, Neville não vaga solitário pelas ruas de Nova York (que agora está sendo devolvida ao seu estado anterior às alterações humanas, com animais selvagens correndo soltos – alguns um tanto forçados, como leões), e sim ao lado de Sam, a cadela da raça pastor alemão que ele criou desde filhote. A relação entre Neville e Sam aqui é mais bem desenvolvida do que aquela mostrada no livro e tão importante quanto, só que no sentido oposto: quando ela sai de cena, as coisas começam a desmoronar. As atualizações de época ficaram a cargo do filme que Neville assiste (ele já viu “Shrek” tantas vezes que decorou as falas), da presença e da importância de Bob Marley na vida do protagonista (OK, pode parecer deslocado, mas acho que funcionou bem) e da explicação dada para o surgimento da epidemia (um medicamento poderoso capaz de curar o câncer). É diferente do livro mas, como as adaptações anteriores, traz as ideias de Matheson para a época em que foi filmado. Continuo achando um ótimo filme. A única coisa que me desagrada é o final, que abre mão da lição de adaptação e transformação apresentada pelo escritor e entrega um desfecho típico de Hollywood, cheio de esperança na espécie humana.

2 comentários:

Catarina Rodrigues disse...

Também li este livro em Outubro e surpreendeu-me pela positiva. Já sabia que era diferente do filme (que tb gostei apesar de ser algo mais leve) mas mesmo assim surpreendeu-me por se focar na sanidade mental do personagem principal. Um livro diferente de zombies :)

Jéssica disse...

Nossa, nunca pensei em me interessar em ler este livro. Parece muito interessante o livro, me lembra Walking Dead um pouco que você falou sobre o livro.
Vou colocar este livro na lista de leituras.
Resenha super interessante!
Beijos,
Jéssica d´O Feminino dos Livros (http://ofemininodoslivros.blogspot.com.br/)