quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Resenha: As Intermitências da Morte


Um dia, cansada de ser odiada pelos humanos e disposta a mostrar a eles o quanto são ingratos, a morte decide fazer greve. Estupefatas diante da novidade de não haver mais falecimentos, as pessoas comemoram. Mas a alegria dura pouco. Logo o caos se instala e é constatado que a morte tinha um papel crucial na sociedade. Enquanto o governo tenta controlar os cidadãos e acalmar os empresários dos mais diversos segmentos, a morte reflete, decide negociar e tenta resolver seus próprios problemas existenciais.

Embora esse não tenha sido o primeiro livro que li a abordar o sumiço da morte e suas desastrosas consequências para a humanidade (Orígenes Lessa já havia cogitado essa hipótese em 'A Desintegração da Morte', em 1948), foi uma experiência interessante ver como outro escritor enxergou o tema.

De fato, Saramago trilha um caminho bem parecido com o do Lessa (pelo menos no início da história): a falência dos cemitérios e casas funerárias; o colapso dos hospitais; o impasse das companhias de seguro; a superlotação das casas de repouso; a perda da função das religiões. Como essas áreas estão intrinsecamente ligadas à morte, são as mais afetadas e as que, em pânico, cobram providências do governo. No entanto, o autor português foca menos na capacidade de adaptação dos seres humanos e em seu senso destrutivo e mais na censura aos governos, à indústria e às religiões.

Uma das peculiaridades da protagonista criada por Saramago é que ela não é “A Morte” com M maiúsculo, e sim “uma morte”, que atua em um nicho específico e em uma região determinada (apenas em um país – Portugal). Então, quando as pessoas doentes e agonizantes, que são impedidas de morrer devido ao sumiço da morte, descobrem que no país vizinho as pessoas continuam a passar desta para melhor, cria-se uma rede clandestina de atravessadores de fronteira (o que envolve um esquema corrupto com o aval do governo).

A confusão, que parecia prestes a ser solucionada quando a morte concorda em voltar ao trabalho, aumenta ainda mais com a decisão de notificar as pessoas com antecedência sobre suas mortes. Se até o momento em que a ceifadora de vidas retoma suas atividades eu estava achando a história boa, quando passamos a acompanhar os dilemas da morte o livro salta de bom para ótimo.

Até então o escritor havia retratado situações possíveis do jeito engraçado e crítico que lhe é peculiar, e, quando passou a mostrar uma morte humanizada, cheia de sentimentos e dúvidas, me arrebatou. Talvez porque eu não esperasse essa mudança de perspectiva, talvez porque eu ainda comparasse involuntariamente “As Intermitências da Morte” com o livro do Lessa, talvez porque o toque de fantasia fosse realmente inusitado... O fato é que me surpreendeu e se tornou mais um dos meus favoritos do autor.

“Em geral crê-se que a morte, sendo, como gostam de afirmar alguns, a cara de uma moeda de que deus, no outro lado, é a cruz, será, como ele, por sua própria natureza, invisível. Não é bem assim. Somos testemunhas fidedignas de que a morte é um esqueleto embrulhado num lençol, mora numa sala fria em companhia de uma velha e ferrugenta gadanha que não responde a perguntas, rodeada de paredes caiadas ao longo das quais se arrumam, entre teias de aranha, umas quantas dúzias de ficheiros com grandes gavetões recheados de verbetes. Compreende-se portanto que a morte não queira aparecer às pessoas naquele preparo, em primeiro lugar por razões de estética pessoal, em segundo lugar para que os infelizes transeuntes não se finem de susto ao darem de frente com aquelas grandes órbitas vazias no virar de uma esquina. Em público, sim, a morte torna-se invisível, mas não em privado, como o puderam comprovar, no momento crítico, o escritor marcel proust e os moribundos de vista penetrante. Já o caso de deus é diferente. Por muito que se esforçasse nunca conseguiria notar-se visível aos olhos humanos, e não é porque não fosse capaz, uma vez que a ele nada é impossível, é simplesmente porque não saberia que cara pôr para se apresentar aos seres que se supõe ter criado, sendo o mais provável que não os reconhecesse, ou então, talvez ainda pior, que não o reconhecessem eles a ele. Há também quem diga que, para nós, é uma grande sorte que deus não queira aparecer-nos por aí, porque o pavor que temos da morte seria como uma brincadeira de crianças ao lado do susto que apanharíamos se tal acontecesse.”

É divertido, reflexivo, ácido, crítico... e também uma história de amor. Tem como não gostar?

Este post faz parte do Desafio Literário Skoob 2015 - Mês de Novembro: Finados - Personagens que têm que lidar com a morte (já ocorrida ou iminente). Para ver a apresentação do desafio, minha lista de obras selecionadas e outros posts do DLSkoob2015, clique AQUI.

Esta leitura faz parte do Projeto Ler Saramago, criado pela Cláudia, do blog A Mulher que Ama Livros, que consiste em ler todos os romances do autor português em ordem cronológica. Eu estou trapaceando e lendo fora de ordem, mas enfim...
Para ver todos os posts do Saramago deste blog, clique AQUI.

4 comentários:

Marta Skoober disse...

Oi, Mi
Já tentei ler duas vezes e não sei porque abandonei, apesar de estar gostando do livro. Vai entender.
Na próxima tentativa vou procurar o do Lessa também.

Claudia Leonardi disse...

Não li ainda e agora fiquei ainda mais curiosa!
Adorei a resenha Mi!
Bjks mil

Jairo Alves disse...

Bom Noite!

Sou seguidor do seu blog, muito interessante. Já coloquei você na minha

lista de blog recomendado.

Estou com um blog também de História chamado Ametista de Clio

http://ametistadeclio.blogspot.com.br/

você poderia ajudar a divulgar, meu blog, colocando também na sua lista de blog

recomendado?


Obrigado pela atenção

Jairo Alves
Historiador e Editor do Blog Ametista de Clio!

Michelle disse...

Marta,
Hahaha... vai entender! Às vezes começo a ler um, estou gostando, mas outro se intromete e o primeiro acaba ficando meio abandonado. De qualquer forma, recomendo a leitura do Saramago e do Lessa ;)

Clau,
Acho que você vai gostar, viu?