LIVRO: Mas Não Se Matam Cavalos?

“Fiquei
de pé. Por um momento vi Glória de novo, sentada no banco no píer. A bala
acabara de atingir a sua cabeça, de lado, o sangue ainda nem tinha começado a
escorrer. O brilho do tiro ainda iluminava seu rosto. Tudo estava claro como o
dia. Ela estava completamente relaxada, completamente à vontade. O impacto da
bala tinha virado sua cabeça um pouco para o outro lado; eu não tinha uma visão
perfeita de seu perfil, mas podia ver seu rosto e seus lábios o bastante para
saber que ela sorria. O promotor se enganou quando disse ao júri que ela morreu
em agonia, sem amigos, sem outra companhia a não ser a de seu cruel assassino,
ali, naquela noite escura, à beira do oceano Pacífico. Ele estava completamente
enganado. Ela não morreu em agonia. Ela estava relaxada, confortável e sorria.
Foi a primeira vez que a vi sorrir. Como poderia estar em agonia? E não estava
sem amigos. Eu era o melhor amigo dela. Eu era o único amigo dela. Como é que
ela não tinha amigos?”