quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Leia o Livro, Veja o Filme: Um Crime Delicado / Crime Delicado

LIVRO: Um Crime Delicado

A primeira vez que Antônio viu Inês eles estavam em um tradicional boteco carioca. Entre colunas e paredes espelhadas, ele a observava e, em certos momentos, achava que ela correspondia aos olhares. Mas naquele dia não aconteceu nada. O encontro propriamente dito se deu dias depois, quando ele descia a escada rolante do metrô e, subitamente, sentiu o peso de alguém que rolava os degraus escorado em suas costas. Assustado, virou-se rapidamente e deu de cara com a moça bonita do bar. Ofereceu-se para acompanhá-la até em casa e foi então que reparou no detalhe que a tornava mais interessante aos seus olhos: ela era manca.

Antônio Martins é um crítico de teatro de meia-idade que leva uma vida boêmia, preza sua liberdade e está sempre rodeado de belas mulheres, que ele escolhe como companhia dependendo do programa (uma estreia de peça de teatro que ele precisa avaliar, um cineminha à tarde, uma noite animada no bar ou momentos de intimidade em seu apartamento). No entanto, é a garota tímida e com defeito físico que ele elege como musa. Seja por fetiche ou pela simples aura de mistério que envolve Inês, ela vira sua obsessão. O problema é que a obsessão termina em crime, que Antônio jura não ter cometido. O que acompanhamos no livro é a narração do próprio Antônio, que apresenta sua versão dos fatos no tribunal.

No começo da trama, o romance predomina. É até bonitinho ver um cara cinquentão agindo feito adolescente apaixonado, tentando descobrir informações sobre seu objeto de desejo, ansioso pelo encontro, preocupado em agradar e tentando proteger a amada. Todavia, ao longo da história começamos a perceber que não era exatamente amor o que Antônio nutria por Inês (ou então era amor, mas não muito saudável).

Depois de uma noite em que beberam além da conta, ele volta para casa e não se lembra exatamente o que aconteceu. Teme ter feito alguma besteira e magoado Inês. Duvida de si mesmo. Mas não se empenha muito em saber o que houve. Aos poucos, o ciúme vai brotando e, quando conhece o artista plástico que aluga o apartamento para Inês e a usa como modelo, Antônio começa a ficar paranoico. Os indícios de sua perturbação vão aumentado e fica cada vez mais evidente que ele não é tão inocente quanto alega.

O livro me agradou por sua narrativa, que vai se mergulhando no psicológico do protagonista, e também pela metalinguagem usada pelo autor, que usa a arte para falar de arte e a figura de um crítico para fazer críticas. No geral, a mistura de romance, suspense e crítica teve um resultado satisfatório, em uma trama que gera certa repulsa, mas que certamente prende a atenção até o fim.

“Com suas propriedades de velar e sugerir, foi esse biombo que descortinou para mim não uma sequência de imagens encadeadas, mas uma cena relâmpago, como um instantâneo fotográfico iluminado pelo espoucar de um flash da escuridão: a de Inês deitada, para não dizer desfalecida, sobre um leito ou divã, enquanto eu me debruçava sobre o corpo. Uma cena quase subliminar em minhas recordações, mas suficientemente materializada para incluir uma perna atrofiada, contrastando com a outra sadia, forte e, por que não dizer?, bela.”

Para quem gosta de entrar na mente perturbada dos protagonistas.


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FILME: Crime Delicado


Na adaptação, Antônio é vivido por Marco Ricca e Inês é interpretada por Lilian Taublib. De cara, é possível observar algumas diferenças: o crítico encarnado por Marco Ricca não parece ser um cara de meia-idade e Inês não é apenas manca; tem uma perna amputada. Além do aspecto físico dos personagens, os traços de personalidade também se mostraram distintos, com uma Inês bem mais segura e direta. Somando a nova personalidade ao uso das muletas evidente desde o primeiro encontro (o que só era descoberto mais tarde por Antônio), a imagem de mulher misteriosa perde a força.


Outra coisa que elimina a possível desculpa que Antônio usa em sua defesa no tribunal (de que não sabia da doença e da medicação de Inês) também perde o sentido logo nos primeiros minutos de filme, quando Inês deliberadamente toma o remédio tarja preta na frente do crítico e ainda faz uma brincadeira. Ou seja, elementos importantes que sustentavam a obsessão e a falsa inocência de Antônio são cortados na história desde o início da trama.


No geral, não gostei do filme. Achei que as alterações prejudicaram a história e a interpretação de Lilian soou meio forçada no começo. Se houve algo que me surpreendeu positivamente no filme foi a relação entre Inês e o pintor para quem ela posava. Embora as pinturas tenham um forte caráter erótico, o depoimento do artista retirou toda a carga sexualmente negativa ou de abuso que seus quadros e a interação entre retratada e retratista poderiam sugerir. As cenas de peças espelhando o ciúme crescente de Antônio também foram bem bacanas.


Como eu disse, a adaptação não me agradou e, portanto, não recomendo.


Trailer:

2 comentários:

Flávia disse...

Ano passado li um livro do Sérgio Sant'Anna chamado Monstro que contem três contos. O que dá título ao livro narra como dois amantes que queriam ter uma relação sexual "diferenciada" convidam uma estranha que conhecem na rua para participar desse "encontro". Porém, a história é muito bizarra, tinha tudo para ser boa, mas esse escritor tem uma forma estranha de contar suas histórias, envolvendo pessoas com deficiências físicas e depois tudo soa muito artificial. Fiquei sem nenhuma vontade de ler mais nada dele, embora seja um escritor muito conceituado.

Beijo!

Michelle disse...

Vixe, Flávia!
Então o fetiche não era do personagem, e sim do autor... Foi meu primeiro livro dele e gostei da história. Tenho outros aqui para ler. Depois te falo se rola bizarrice em todos os livros.
Bjo